Afeganistão: Capital dos Errantes

As queixas dos refugiados que o SEF não gostou de ouvir

As queixas dos refugiados que o SEF não gostou de ouvir

Aos refugiados raramente lhes é dada uma voz. A Amnistia Internacional tentou fazê-lo no Fórum da Coragem e houve um sírio que aproveitou a oportunidade para dizer o que mais ninguém teve coragem para dizer

O SEF não estava preparado para lidar com um número tão grande de refugiados. A ideia foi deixada no ar por Maria Emília Lisboa, a representante do SEF que esteve no Fórum da Coragem, organizado pela Amnistia Internacional no passado mês de Dezembro. A ideia, de facto, é sustentada pelos números. Em 2014, Portugal recebeu 447 pedidos de asilo; em 2017, recebeu 1750.

Entre outros argumentos, o SEF respondia assim à intervenção de Nour Machlah, um dos oradores que decidiu não ignorar o elefante que havia passado o dia à solta pelo auditório. O elefante era a sua visão do que é ser refugiado em Portugal, muito menos romântica do que aquela que alguns oradores tentavam passar.

Nour foi o responsável em Portugal pelo relatório “Ask the People”, feito pelo Conselho Europeu para as Migrações (EMAB). Conduziu um focus group com cerca de 30 refugiados, habitantes de várias cidades portuguesas, que foram entrevistados pessoalmente por ele. Desses 30, 80% dizem que não há um programa de integração claro em Portugal e 90% dizem-se prejudicados pelos atrasos do SEF na documentação.

Nour Machlah garante conhecer casos de refugiados que não conseguem aceder a hospitais por falta de papeis, que são postos em cursos de línguas ao lado de alunos espanhóis com outro ritmo de aprendizagem; casos de refugiados que não conseguem pedir a equivalência das suas cartas de condução ou a quem o SEF pede documentos assinados por uma embaixada da Síria que não existe em Portugal.

No vídeo, é possível ver a troca acesa de argumentos resultante deste confronto entre visões. De um lado, o SEF, que alega cumprir o seu trabalho, levando os seus recursos ao limite. Do outro, a visão de alguém que passou o último ano da sua vida em contacto direto com a comunidade de refugiados em Portugal.