Afeganistão: Capital dos Errantes

Os retornados afegãos

Mohammad Ismail

Mariana Teófilo da Cruz

Mariana Teófilo da Cruz

Jornalista Estagiária

Os conflitos no Afeganistão causaram nos primeiros seis meses de 2018 mais de 1600 mortes. É o valor mais alto registado em seis meses pela Organização das Nações Unidas (ONU) desde 2009. Quase 70% das mortes são atribuídas às forças anti-governamentais.

Cerca de 2,6 milhões de afegãos vivem fora do país. O conflito entre as forças anti-governamentais e as forças do governo continua. Para além dos talibãs e do autoproclamado estado islâmico, operam no Afeganistão mais de 20 grupos terroristas.

A “guerra eterna” do Afeganistão afetou já a vida de várias gerações de afegãos, que para além da insegurança, sofrem social, económica e psicologicamente. O perigo pode estar em qualquer lugar, em escolas, hospitais, mercados, mesquitas e mais recentemente num
campo de treinos militar.

Só nos primeiros nove meses de 2018 a ONU dá conta de pelo menos 17 ataques que causaram mais de 10 mortes por todo o território afegão.

O número de deportações de países da União Europeia para o Afeganistão aumentaram para mais do dobro desde 2015.

A União Europeia entende que o Afeganistão é um país seguro, ou que pelo menos existem partes do território que são seguras. Estas deportações estão a violar um dos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que proíbe países de repatriar cidadãos para um local em que podem estar em situação de perigo.

De acordo com dados do ACNUR e da Organização Internacional para as Migrações (OIM) 40% dos afegãos que são repatriados não voltam para a cidade de origem. Isto acontece pela insegurança instalada em algumas cidades e porque a família, que poderia ajudar na reintegração, também se viu obrigada a fugir.

A população de Cabul aumentou de 1,5 milhões em 2001 para quase 6 milhões em 2018, tornando-se a cidade mais perigosa do Afeganistão, segundo a Amnistia Internacional. O ACNUR, em agosto de 2018, declarou que o voo interno que passava por Cabul já não era uma alternativa segura.

Nos últimos anos tem havido um decréscimo no número de pedidos de asilo de afegãos na Europa. De 2016 para 2017 caíram mais de 70% e prevê-se que os valores se mantenham em queda em 2018 com base nos dados dos primeiros oito meses.

A Europa fortaleza pode justificar esta queda de pedidos. Se a Grécia é o ponto de entrada e os afegãos são impedidos de avançar, são também impedidos de formalizar pedidos de asilo.

Apesar da queda do número de pedidos de asilo, o último relatório da ONU comprova que continuam a chegar afegãos à Europa, em 2018 chegaram à Grécia por via marítima 9 mil afegãos.

O número de deportações de 2016 para 2017 diminuiu, no entanto os último dados disponíveis (2017) apontam ainda para o dobro de deportações que aconteceram em 2015.

Na Europa, o caso de Taibeh tem sido dos mais mediáticos. Esta estudante de 18 anos está em risco iminente de ser deportada para o Afeganistão, o que pode acontecer a qualquer momento. Vive na Noruega e trabalhou para entrar no curso de medicina, o que para já fica adiado.

Os pais fugiram do Afeganistão em 1998, ainda antes dela nascer. Viveram no Irão até 2012, ano em que se mudaram para a Noruega e onde tiveram direito ao Estatuto de Refugiado. Dois anos depois o governo norueguês recusou renovar o estatuto, alegava não haver provas suficientes para fomentar o medo de perseguição no Afeganistão.

A Amnistia Internacional tem denunciado este caso e os amigos de Taibeh têm organizado protestos e até já escreveram a políticos.

steen eriksen

Há muitas pessoas na mesma situação de Taibeh por toda a Europa. A Noruega, a Alemanha, a Grécia, a Suécia e o Reino Unido estão no topo da lista dos países com mais deportações de afegãos.

“Em Cabul não existe futuro para mim nem para os meus irmãos. Ficaremos expostos a discriminação e sentiremos na pele o que é ser uma minoria vulnerável. E eu, como rapariga, estarei particularmente vulnerável.”

Taibeh Abbasi

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