Eleições Autárquicas

As eleições em que a luta ultrapassa autarquias

Marina Costa Lobo, politóloga, refere que, nestas eleições autárquicas, a prioridade serão as leituras, a nível nacional, dos resultados.

Estas eleições autárquicas representam muito mais do que a disputa pelos diversos municípios e freguesias portugueses, e as consequências a nível nacional são um dos focos do momento eleitoral, em especial, no PSD.

"A verdade é que, se nós lermos o jornais e vermos a notícias, nós vemos que as leituras nacionais são muito importantes, e elas são muito importantes por várias razões. Em primeiro lugar, porque esta eleição pode ser decisiva para a liderança do PSD. Rui Rio disse que, se ganharem por 'poucochinho', ou não for considerado um resultado bom, não vai sair hoje, nem amanhã, mas pode não se recandidatar à liderança do PSD", diz a politóloga.

Igualmente, os socialistas poderão analisar e tirar conclusões sobre este momento eleitoral.

"Temos António Costa como primeiro-ministro e que se envolveu muitíssimo nesta campanha, um pouco de forma surpreendente para alguns, porque o PS entra nesta eleição muito confortável, tem a maioria das câmaras, controla a Associação Nacional de Municípios e Freguesias, também controla a maioria das câmaras na Área Metropolitana de Lisboa e na Área Metropolitana do Porto, portanto, com o PS muito confortável, António Costa, mesmo assim, envolveu-se enormemente nesta campanha, porque, talvez, esteja aqui em causa também o futuro líder do PS. Pedro Nuno Santos também andou no terreno. Há também um candidato socialista, que é próximo de Pedro Nuno Santos, Tiago Barbosa Ribeiro, e não teve muito apoio de António Costa. E a ser verdade António Costa não ser candidato em 2023, estas seriam as últimas eleições como líder do PS. Portanto, daí estas leituras a nível nacional", refere Marina Costa Lobo.

Numa noite eleitoral que poderá ser determinante para muitos, também o PCP passará por um teste de fogo que poderá definir o seu futuro.

"Penso que o PCP, tendo perdido dez câmaras e estando a dar a mão ao PS a nível nacional, seja, agora, ao nível dos orçamentos, está atento em recuperar câmaras, ou pelo menos em não perder mais, e poderá perder, por exemplo, Évora para o PS, poderá perder Alcácer do Sal. Portanto, uma eleição muito importante para o PCP também em Lisboa, porque, em Lisboa, João Ferreira fez uma corrida muito forte e com bastante presença, e, também, eventualmente, se tem ambições, e eu penso que tem, em ser líder do PCP, esta pode ser a eleição decisiva. Eu penso que o PCP já o escolheu como futuro líder, mas João Ferreira precisa de umas eleições em que ele faça, de facto a diferença, e isso não aconteceu com as eleições europeias, e também não aconteceu com as presidenciais", diz a convidada do painel da SIC Notícias.

O fator pessoal nas eleições autárquicas, que leva muitos, não a votar por partido, mas, por pessoa, é visto como importante para Marina Costa Lobo, sendo tão imporante como os caminhos ideológicos que os partidos percorrerão a partir de hoje.

"Há uma grande pessoalização nsa autárquicas e, portanto, as pessoas votam no cabeça de cartaz. Essa proximidade é importante para a mobilização, mas pode ter efeitos perversos se houver relações de caciquismo que, obviamente, não é o desejável. Eu acho que é interessante ver, na Área Metropolitana de Lisboa, o que acontece, por exemplo, em relação à Amadora, comparando a candidata Suzana Garcia e o seu resultado eleitoral a alguém como Carlos Moedas, porque representam duas faces diferentes do PSD. Há divisões no PSD sobre qual o rumo adequado para constituir uma alternativa ao PS numas eleições legislativas futuras, e Suzana Garcia representa um PSD muito mais próximo do Chega, quase a substituir o Chega, enquanto Carlos Moedas, à partida, disse logo que não constituiria coligações com o Chega, e é o representante de uma ala mais moderada. Portanto, esses resultados na Área Metropolitana de Lisboa vão ter consequências para o debate dentro do PSD sobre o que fazer nos próximos tempos, não apenas ao nível da liderança", acrescenta.

Marina Costa Lobo abordou, também, o possível jogo pelo futuro político de Carlos Moedas.

"Eu penso que sim, porque Carlos Moedas entrou nesta corrida para ter, pelo menos, um resultado melhor que o PSD/CDS-PP em 2017, com vista, parece-me a mim, a poder disputar a liderança do PSD, ou, pelo menos, para ter continuidade a sua participação no PSD ao nível mais elevado", refere.

A hipótese de crises internas e de candidaturas à liderança de vários partidos também é vista como possível consequência destas autárquicas.

"Sem dúvida, isto é um medir de forças, e mostra que os partidos têm uma dimensão territorial importante, que está completamente à vista, quando se trata de autárquicas, porque as fações e os diferentes líderes que existem têm força numa ou noutras zonas, e isso fica muito à vista. Isso é interessante, porque os partidos em Portugal já são muito personalizados, e, portanto, é um momento em que os partidos respiram um pouco e nós, de fora, podemos ver melhor o que é que os divide, e não o que é que os une", termina Marina Costa Lobo.

Veja também:

  • A escola como uma gigantesca perda de tempo

    País

    Pode ser Eva. Fez um teste de Geografia e foi a única da turma a ter negativa. Dos seus olhos formosos e inexpressivos, num rosto negro como o touro do Herberto Helder, ruíram-lhe duas lágrimas. Mas daquelas que represam tanta água - tanta mágoa - que deixam cicatrizes aquosas. 43%.

    Opinião

    Rui Correia