As discussões sobre o clima têm-se centrado, desde há muito, na redução do dióxido de carbono (CO2). Mas o metano (CH4), o segundo maior contribuinte para o aquecimento global, tem vindo a ganhar destaque. Na 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP30), o metano deverá estar no centro do debate.
O metano é responsável por cerca de 30% do aumento da temperatura média global desde a Revolução Industrial. Embora permaneça menos tempo na atmosfera, é 28 vezes mais eficaz a reter calor do que o CO2 num período de 100 anos, e 80 vezes mais eficaz em 20 anos, segundo o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC).
O metano é também o principal componente do gás natural e contribui para a formação de ozono troposférico, um poluente nocivo para a saúde humana e para os ecossistemas.
Os níveis de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) na atmosfera registaram um aumento recorde e atingiram em 2024 novos máximos, indica um relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgado a 15 de outubro. A concentração média global de metano situou-se nas 1.942 partes por milhar de milhão (ppmm).
O que é e de onde vem o metano?
O metano (CH4) é um gás muito comum, que existe de forma natural na Terra, uma vez que é o principal componente do gás natural.
Cerca de 40% das emissões de metano têm origem natural, sobretudo em zonas húmidas, mas 60% resultam de atividades humanas.
A agricultura é a principal fonte, responsável por cerca de um quarto das emissões globais, devido à fermentação digestiva dos ruminantes, ao estrume e às culturas de arroz, onde as bactérias proliferam em ambientes alagados.
Segue-se o setor energético (carvão, petróleo e gás), através de fugas em gasodutos e outras infraestruturas ou libertações deliberadas durante operações de manutenção.
Os resíduos urbanos também emitem metano durante a decomposição.
E, à medida que o permafrost do Ártico derrete, microrganismos libertam gases adicionais para a atmosfera — um processo que preocupa cada vez mais os cientistas.
A Agência Internacional de Energia (AIE) alerta que as emissões prosseguem: as que estão relacionadas com a produção de energia aumentaram ligeiramente no ano passado, atingindo níveis próximos dos seus máximos históricos. Reconhece que as estimativas ainda têm “incertezas significativas”, mas sublinha que a monitorização via satélite tem permitido grandes avanços.
Satélites revelam fugas que quase ninguém corrige
O Observatório Internacional de Emissões de Metano (IMEO), que integra dados de mais de 17 satélites para monitorizar as emissões, revela que quase 90% das fugas de metano detetadas por satélite e sinalizadas aos governos e às empresas de petróleo e gás não estão a ser tratadas.
Dos 3.500 alertas enviados a governos e empresas de petróleo e gás, apenas 12% tiveram resposta. No ano anterior, a taxa era de 1%. O IMEO documentou 25 casos em que as notificações levaram à resolução de grandes fugas.
Segundo o observatório, o setor do petróleo e do gás oferece o maior potencial de mitigação, mas o trabalho vai ser alargado a outras fontes como o carvão metalúrgico, os resíduos e a agricultura.
“A deteção do metano é uma das coisas mais importantes, se não a mais importante, que pode ser feita para limitar o aquecimento a curto prazo”, afirmou Fatih Birol, diretor executivo da AIE.
Como reduzir as emissões de metano
A Agência Internacional de Energia calcula que uma redução rápida das emissões de metano do setor dos combustíveis fósseis poderá evitar até 0,1ºC o aquecimento global até a meados do século.
Fatih Birol sublinha que esta é "uma das melhores e mais baratas" oportunidades para reduzir o aquecimento global.
As medidas mais simples passam por reparar fugas nas infraestruturas energéticas e eliminar libertações deliberadas durante manutenções.
Na agricultura, é possível modificar a dieta dos ruminantes adicionando compostos químicos que inibem a produção de CH4. Outra abordagem, mais drástica, é reduzir o número de animais.
Para os arrozais, as alterações na gestão da água são o método mais promissor, de acordo com um relatório da FAO.
"As promessas feitas são claramente insuficientes"
O "Compromisso Global contra o Metano" foi lançado em 2021 pela União Europeia (UE) e pelos Estados Unidos propõe reduzir as emissões globais de metano em 30% até 2030, face a 2020. Conta já com mais de 150 países, mas China, Índia e Rússia continuam de fora.
As gigantes do petróleo e do gás também assumiram os seus próprios compromissos, como a Iniciativa Climática do Petróleo e Gás (OGCI), que visa emissões líquidas zero até 2030.
As COP têm-se mantido vagas sobre esta questão até à data, Na COP28, no Dubai, 50 empresas petrolíferas, tanto privadas como públicas, assinaram também o compromisso de reduzir as suas emissões de metano a "quase zero" até 2030.
Na COP30, entre 10 e 21 de novembro, o metano deverá estar no centro dos debates. Os cientistas insistem que agir sobre o CH4 é o caminho mais rápido para travar o aquecimento nas próximas décadas, enquanto o corte no CO2 exige transformações mais profundas e demoradas.
Mas o secretário-geral da ONU, António Guterres, avisa que “as promessas feitas são claramente insuficientes”.


