O mundo está a negligenciar o solo como instrumento fundamental na ação climática, alerta um novo relatório divulgado no Dia da Agricultura da COP30, em Belém, a 19 de novembro. O documento refere que o metro superficial do solo armazena cerca de 45% mais carbono do que as estimativas anteriores apontavam. Porém, este recurso está a degradar-se rapidamente, aumentando o risco de emissões significativas de gases com efeito de estufa.
O metro superficial do solo pode armazenar cerca de 45% mais carbono do que se pensava, mas está a degradar-se tão depressa que arrisca libertar milhares de gigatoneladas de dióxido de carbono para a atmosfera, segundo um relatório apresentado no Dia da Agricultura da COP30.
O relatório baseia-se em dados da ONU que mostram que cerca de 40% das terras do planeta estão degradadas, percentagem que poderá atingir 90% até 2050 se não forem adotadas medidas. O documento reforça as preocupações já expressas por várias agências da ONU sobre desertificação e gestão inadequada dos solos.
“Uma crise escondida”
“As pessoas não compreendem que tudo na sociedade se baseia no solo. O solo é absolutamente essencial para a produção dos nossos alimentos. Alimentamos 8,2 mil milhões de pessoas. Alimentamos todos os nossos animais, alimentamos tudo a partir destes solos”, disse à Reuters Mark Maslin, professor de Ciências do Sistema Terrestre no University College London.
Maslin, que não participou no relatório, sublinhou que “os solos estão a ser degradados” devido ao uso excessivo, nomeadamente pela aplicação intensiva de pesticidas e fertilizantes.
“Estão a piorar cada vez mais. Estão a tornar-se menos férteis. Mas é uma crise escondida porque raramente pensamos no solo”, afirmou.
Risco de emissões massivas de carbono
Segundo o relatório, elaborado pelo think tank Aroura Soil Security, pela Comissão Mundial de Direito Ambiental da IUCN e pela campanha Save Soil, cerca de 2.822 gigatoneladas de dióxido de carbono estão em risco de serem libertadas a partir do primeiro metro do solo global.
“Se não cuidarmos do solo de forma sustentável, este pode emitir 4 mil milhões de gigatoneladas de dióxido de carbono para a atmosfera. Portanto, o solo pode ser parte da solução ou parte do problema. Temos a opção de o apoiar para que se torne parte da solução”, afirmou Praveena Sridhar, Diretora Científica e Tecnológica da Save Soil.
O relatório estima que restaurar a saúde dos solos poderia reduzir cerca de 27% das emissões globais, uma contribuição essencial para manter o aquecimento global abaixo dos 2 °C, alinhada com estudos académicos e avaliações das Nações Unidas sobre soluções climáticas baseadas na natureza.
No entanto, o documento constata que cerca de 70% dos países não incluem o restauro do solo nos seus compromissos climáticos.
Necessidade de instrumentos legais globais para proteger os solos
Os autores defendem que, ao contrário do que acontece com os oceanos ou a atmosfera, o solo continua sem qualquer instrumento jurídico internacional específico que o proteja. Pedem aos governos que apoiem legislações dedicadas à segurança do solo, incluindo o instrumento global em desenvolvimento pela IUCN, a proposta de Lei de Monitorização do Solo da União Europeia e uma lei modelo pan-africana para a gestão sustentável dos solos.
O Quadro de Segurança do Solo apresentado no relatório articula ciência, economia e direito. Defende que a agricultura regenerativa e as políticas de utilização da terra centradas no solo podem reforçar simultaneamente a segurança alimentar e hídrica, ao mesmo tempo que sequestram milhares de milhões de toneladas de carbono.

