Duarte Gomes

Comentador SIC Notícias

Conflito Israel-Palestina

Opinião

Os danos colaterais que estão na moda

Artigo de opinião de Duarte Gomes. Desprezo que se chame “dano colateral” à morte horrível de pessoas que nada fizeram para viver o inferno na Terra. Nenhuma simpatia ideológica pode validar esse carimbo, ainda que se mande pelos ares uma mão cheia de malucos.
Os danos colaterais que estão na moda
Anadolu

Danos colaterais: uso a expressão quando me refiro a coisas que acontecem devido a escolhas que se fazem. Faço-o de forma instintiva, como que para ligar causa e efeito, ação e reação. Mas confesso que não me lembro de a ter usado em relação à morte de pessoas, sobretudo quando essas acontecem às mãos de outras.

Ultimamente tenho ouvido a referência, a dos danos colaterais, com demasiada frequência, nomeadamente pela boca de alguns comentadores.

Sim, porque não esqueçamos: estes são tempos de "comentário público". Comenta-se tudo, a toda a hora e em todo o lado. Na imprensa, em fóruns e blogs, no YouTube, em diretos no Instagram, em palestras e conferências, aqui e ali. Parece que a modalidade funciona e se funciona, tudo bem. Nada a opor, até porque este vosso escriba é também um "comentador" e seria incoerente condenar uma opção que o próprio subscreve de forma profissional.

Mas convenhamos: falar de penáltis e expulsões ou até mesmo de novelas e reality shows, não é a mesma coisa que falar de coisas verdadeiramente importantes que acontecem um pouco por todo o lado.

Essas são de interesse global. Podem mudar a forma como vivemos, podem ameaçar a paz mundial e até o futuro da humanidade, o futuro dos nosso filhos. Algo que um vermelho por exibir ou uma expulsão na casa da Venda do Pinheiro não conseguem igualar.

É precisamente a importância desses temas que me leva a seguir com atenção a opinião de analistas qualificados sobre, por exemplo, as eleições norte-americanas, a guerra na Ucrânia ou a mais recente escalada de tensão no Médio Oriente.

Interessa-me. Preocupa-me. E incomoda-me. Incomoda-me porque, no meio de tanta diferença ideológica, religiosa ou política, é sempre o elo mais fraco que paga a fatura.

Centenas de milhares de almas inocentes morrem todas as semanas devido às "opções estratégicas" de outras. Pessoas que nunca levantaram um dedo contra ninguém. Bebés e crianças, jovens e adultos, idosos e doentes que nasceram ou estavam no lado errado do globo, à hora errada.

É e foi sempre assim, é certo, mas tira-me do sério ouvir alguém dizer, a milhares de quilómetros de distância e sem a mínima noção do horror que é lá estar... que são apenas danos colaterais.

Como se estar nos mesmos hospitais, apartamentos ou escolas onde se escondem meia dúzia de terroristas fosse justificação para bombardear o quarteirão inteiro e levar tudo a eito. Como se recém-nascidos em alas neonatais, miúdos internados em oncologia ou crianças de 3 e 4 anos na pré-primária estivessem deliberadamente a proteger hezzbollas e sus muchachos. Como se os seus pais soubessem de tudo e num complot bem planeado, usassem as suas crias como escudos humanos.

Valha-me Deus.

Desprezo que se chame "dano colateral' à morte horrível de pessoas de bem, de gente que nada fez para viver o inferno na Terra.

Nenhuma simpatia ideológica pode validar esse carimbo, ainda que se mande pelos ares uma mão cheia de malucos. E desprezo também quem defende que em Gaza e no Líbano os "danos colaterais" são inevitáveis porque Israel tem direito a "defender-se", mas na Ucrânia já não são, porque Putin é um criminoso de guerra. Ou o contrário: quem fica mudo e calado quando vê milhares de ucranianos assassinados na sua própria casa, mas depois grita aos sete céus que Netanyahu é um genocida.

Mas agora há vítimas de primeira e de segunda ou isso depende apenas do lado que se está da barricada? Que incoerência é essa?!

A vida humana devia ter o mesmo valor à direita, no centro e à esquerda, independentemente do sexo, raça, credo, religião ou nação onde nasça. É ela que assegura a existência do mundo tal como o conhecemos.

Mais importante ainda: a vida de inocentes tem que ser sempre defendida e protegida. Não pode haver uma única justificação que a ceife.

Qualquer pessoa ou Estado que o faça, estará a cometer crimes de guerra e a ser pior, bem pior, do que tudo o que motivou a sua defesa. Aceitar a desproporção grosseira do direito de defesa é a confirmação de que há muita gente a morar bem longe dos valores que devem nortear qualquer pessoa de bem.