Coisas como a renda que pagamos, o tipo de trabalho que fazemos, o salário que recebemos, se a casa onde vivemos tem humidade ou está num bairro seguro, o acesso a transportes, a escola onde estudamos e até se a cor da nossa pele tornam o acesso a cuidados de saúde mais difícil. E se pensarmos bem nisso, faz todo o sentido.
Imagine que a Sara, de 34 anos, só tem a 4ª classe, conseguiu um trabalho como empregada doméstica, sem contrato e com um ordenado de 670 euros por mês. Vive num T3 partilhado longe de transportes, não consegue pagar as contas, e descobriu recentemente que está grávida porque nunca lhe falaram de contraceção e nem sabe como ter médico de família.
É pouco provável que a maior preocupação da Sara seja comer frutas e legumes, dormir bem e fazer atividade física. Aliás, a sua dependência de um trabalho, ainda que mal pago, vai fazer com que faltem mais às consultas com os filhos, com que não tenha tempo a perder com rastreios, e tudo isto aumenta o risco de doenças como hipertensão, diabetes, cancro ou depressão.
Doenças associadas a estilos de vida
Por isso é que quando ouvimos falar em urgências cheias, na falta de médicos, temos também de pensar porque é que a nossa população tem uma carga de doença tão grande, doenças essas que se associam maioritariamente a estilos de vida e ambiente.
E eu sei que melhorar coisas como o acesso a habitação, saúde e educação não é fácil. Não há grande acordo sobre como fazê-lo e por isso é que todas as opiniões continuam polarizadas.
Para quem, como eu, acha a política complexa, fica ainda mais difícil ter algum interesse nesta área. Mas há pequenas coisas que individualmente podem, pelo menos, ajudar.
Como ajudar?
Começa por compreender que estar doente é um processo altamente complexo, e que é muito influenciado pela sociedade em que crescemos e não exclusivamente pela motivação ou vontade de aprender de cada um.
Depois, é importante que quem tem acesso a tudo o que pode para ser mais saudável, tente, sempre que possível, participar ativamente na melhoria das condições para todos. Quer seja ao falar dos lanches escolares nas reuniões de pais, a tentar promover literacia, ou pedindo soluções às autarquias e ao Governo quando pensamos em transportes públicos, por exemplo.
Apoiar e reconhecer as entidades de saúde pública também é importante, porque são elas que trabalham diariamente para garantir a qualidade do ar e da água que consumimos, que previnem surtos de doenças infecciosas, e que põem em funcionamento uma coisa tão importante quanto o programa nacional de vacinação.
É precisamente olhando para a saúde da população, que a ciência tem mostrado que combater as desigualdades pode fazer toda a diferença, por isso fica este lembrete de como mesmo em pequena escala, podemos tentar ajudar quem nos rodeia, para que todos tenhamos mais tempo para dedicar ao sono, atividade física, e alimentação.
