Em relação a não gostar de tomar medicamentos, consigo perceber. Também não sou apologista de tomar medicação só porque sim e, na verdade, diria que a maioria dos médicos só prescreve um medicamento se a sua toma fizer sentido e tiver mais benefícios do que riscos. Porque, de resto, preferimos até desprescrever — um termo muito usado entre médicos de família e que consiste em atualizar a medicação crónica e retirar tudo o que está a mais, não tem indicação clínica ou já não faz sentido.
Mas é importante desconstruir este medo de tomar um medicamento, achando que é obrigatoriamente mais agressivo ou que tem mais riscos do que um suplemento. Os suplementos alimentares não são testados nem regulados da mesma forma que os medicamentos. Um bom exemplo prático é o ferro, que é bastante prescrito porque é um défice que vemos frequentemente.
O ferro medicamento é um fármaco, com dose conhecida de ferro elementar, testado em estudos clínicos e aprovado para tratar deficiência de ferro, estando sujeito à regulação do INFARMED, o que significa que tem de provar eficácia, segurança e qualidade. Para além disto tudo, quando prescrito por um médico é comparticipado, custando o tratamento entre 3 e 5 euros. Já um ferro suplemento alimentar comprado num supermercado ou online, para alem de custar 5 a 10 vezes mais, é regulado como alimento, e por isso não precisa demonstrar que trata o défice de ferro. Costuma ter doses mais baixas ou muito variáveis e muitas vezes vem misturado com vitaminas ou outros compostos, podendo ser útil apenas como apoio nutricional em pessoas sem défice documentado. Isto não quer dizer que não existam bons suplementos de venda livre com ferro, mas significa que nem sempre aquilo que imaginamos como "natural" é melhor do que aquilo a que associamos a "químico".
Tudo o que é natural também é químico
Tudo o que é natural é também químico, porque é feito de átomos e moléculas — "químico" significa apenas isso. E o facto de algo ser natural não quer dizer que seja seguro: há coisas naturais, como certos cogumelos selvagens, que são altamente venenosas, e ao mesmo tempo substâncias sintetizadas em laboratório que salvam vidas diariamente.
Faz todo o sentido questionar as propostas terapêuticas e tentar compreendê-las. Por isso, mais do que gostar ou não gostar de uma medicação, a pergunta importante é sempre: para que serve, é seguro e eficaz, que problema é que está a tentar resolver e o que acontece se não for tomada. E isto é válido para o antibiótico ou anti-hipertensor, mas também para o suplemento de vitamina C ou ashwaganda que lhe sugerem sem grande critério.
