Coronavírus

Aumento "anormal" de autocaravanas e turistas na costa alentejana preocupa autarcas

NUNO VEIGA

Alegadamente, as pessoas estão a tentar refugiar-se do surto do novo coronavírus, uma vez que não há infetados na região.

Especial Coronavírus

A costa alentejana regista, esta semana, um aumento "anormal" de autocaravanas e de turistas para alegadamente se refugiarem do novo coronavírus em casas de férias, relataram esta terça-feira à agência Lusa vários autarcas, que se afirmam preocupados.

"Estão a circular muitas autocaravanas" pelo concelho, "provavelmente devido ao facto de não existirem infetados com o coronavírus no Alentejo", disse o presidente da Câmara de Grândola, António Figueira Mendes.

No concelho vizinho de Santiago do Cacém, ainda no distrito de Setúbal, a situação também se agravou esta semana com "uma afluência anormal" de autocaravanas "de várias nacionalidades", que entupiram a zona de estacionamento da lagoa de Santo André e obrigou a uma intervenção da GNR, descreveu à Lusa o presidente da junta de freguesia, David Gorgulho.

"Chegou-nos a informação de que estava a haver uma afluência anormal de autocaravanas, de vários pontos da Europa, para a costa de Santo André e, naturalmente, que a pandemia do coronavírus só pode ser a única justificação para esta situação nesta altura do ano", afirmou David Gorgulho.

Após relatos de moradores, ao longo do dia de segunda-feira, o autarca decidiu "exigir uma ação bastante incisiva" da GNR, que "garantiu que a bem ou a mal as autocaravanas saiam daquela zona" para dispersar os turistas.

"O que é certo é que se tratou de um ponto muito negativo, porque tivemos muitas autocaravanas de várias nacionalidades, em particular de alemães, que para aqui chegarem tiveram de passar por França e Espanha. Não estamos a brincar às pandemias e as autoridades locais não podem facilitar", avisou o presidente da Junta de Freguesia de Santo André.

No concelho de Grândola, segundo António Figueira Mendes, a situação obrigou o município a tomar algumas medidas, incluindo o fecho do parque de caravanas do Lousal.

"As pessoas vão-se refugiando nesta zona e por esse motivo decidimos encerrar o parque de caravanas do Lousal, no interior do concelho. No entanto, ainda não conseguimos encerrar o parque de caravanas de Grândola, mas temos essa preocupação e vamos sensibilizar para que as pessoas não estacionem durante muito tempo e no mesmo lugar", disse.

O autarca assegurou que as entidades locais "vão acompanhar estes casos sempre que se justificar" e vão procurar "evitar o estacionamento e grandes aglomerados de autocaravanas".

"Temos muitos turistas portugueses e estrangeiros com casas de férias no concelho, nomeadamente na freguesia do Carvalhal, que aproveitaram para se refugiarem aqui. Isso cria alguma preocupação, porque têm feito muitas compras nos supermercados, o que contribui para que a população não tenha acesso aos bens necessários", acrescentou.

Mais a sul, em Vila Nova de Milfontes, no concelho de Odemira (Beja), o cenário repete-se e, no último fim de semana, foram muitas as pessoas a procurar refúgio na zona, optando pelas casas de férias ou recorrendo ao aluguer de imóveis.

"Nos últimos dias deparámo-nos com muitas pessoas que têm casa de férias nesta zona e que se refugiaram no Alentejo, talvez porque temos zero casos no mapa do coronavírus e para fugir da confusão e da possibilidade de contaminação das cidades, embora exista o risco acrescido de transmissão", disse à Lusa o presidente da Junta de Freguesia de Vila Nova de Milfontes.

"Tivemos muitos portugueses durante o fim de semana, uns com casa de férias e outros que alugaram para declaradamente fazerem a quarentena no Alentejo", sublinhou Francisco Lampreia, indicando que Vila Nova de Milfontes recebe ao longo do ano "muitos turistas do norte da Europa" e que, "numa situação destas, vão ficando e não se vão embora".

Contactado pela Lusa, o comandante do destacamento de Santiago do Cacém da GNR, tenente Luís Molano, assegurou que o patrulhamento "está a ser feito com alguma regularidade" ao longo da costa, "onde por norma existe caravanismo e as pessoas são autuadas" sempre que detetadas infrações.

"Neste momento não há legislação que proíba as pessoas da livre circulação. Não foram decretadas medidas nesse sentido e o que é aconselhável é permanecerem em casa se não tiverem necessidade de se deslocar", referiu.

No interior alentejano, o presidente da Câmara de Beja, Paulo Arsénio, disse que, durante o passado fim de semana, houve um número "atípico e invulgar" de autocaravanas de matrículas de vários países, com "maior incidência" de Espanha, paradas em parques de estacionamento da cidade, como os das grandes superfícies comerciais.

"Foram pessoas que não recolheram ao Parque de Campismo de Beja e que estavam em trânsito", porque "foram aparecendo e desaparecendo" e, na segunda-feira, o número de autocaravanas "reduziu substancialmente", disse, admitindo que "poderão ter sido pessoas em trânsito de Espanha para o litoral alentejano ou em sentido inverso, devido à eminência de restrições na fronteira", que acabaram por ser adotadas na segunda-feira.

No distrito de Évora, nos concelhos mais próximos de Espanha e que costumam ser procurados pelos turistas por se situarem nas imediações da albufeira do Alqueva, há quem ache o movimento normal, mas outros autarcas notaram, nos últimos dias, mais afluência de caravanistas estrangeiros vindos da fronteira e de consumidores "nuestros hermanos" nos supermercados.

"Não posso dizer que haja um movimento para o concelho de turistas espanhóis ou de outras nacionalidades", afirmou à Lusa o presidente da Câmara de Reguengos de Monsaraz, José Calixto, assinalando que, no fim de semana, através da fronteira de São Leonardo, que já está hoje fechada, a afluência de turistas "não foi significativa".

Na segunda-feira, a câmara determinou "o encerramento do parque de caravanas de Monsaraz", onde estavam, em conjunto com o parque de lazer da localidade de Campinho, junto do Alqueva, "uns 20" veículos, o que "até é menos do que costuma haver" nesta altura do ano, referiu.

O surto de Covid-19 começou na China, em dezembro, e espalhou-se por mais de 145 países e territórios, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde (DGS) elevou hoje número de casos confirmados de infeção para 448, mais 117 do que na segunda-feira, dia em que se registou a primeira morte no país.Dos casos confirmados, 242 estão a recuperar em casa e 206 estão internados, 17 dos quais em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI).

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