Coronavírus

Milhares de famílias caídas na pobreza e em desespero pedem ajuda alimentar

O projeto foi criado em 1992

Presidente do Banco Alimentar diz que nunca viu nada assim em 27 anos.

Especial Coronavírus

Isabel Jonet trabalha há 27 anos no Banco Alimentar e diz que nunca viu nada assim, que não param de aumentar os pedidos de ajuda alimentar, indicador de como milhares de família caíram abruptamente em situação de desespero.

Tal como já tinha adiantado em entrevista à Rádio Renascença, a presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, disse à Lusa que desde o início da pandemia de covid-19, através da Rede de Emergência Alimentar criada pela Entreajuda, da qual o Banco Alimentar faz parte, já chegaram mais de 11.600 pedidos de ajuda de agregados familiares.

Este número representa 55 mil pessoas, estima Isabel Jonet, e são todos novos casos de pobreza, provocados sobretudo pelo desemprego das pessoas que tinham trabalhos precários, e de profissionais liberais, que apenas recebiam quando trabalhavam.

Isabel Jonet diz que uma das maiores preocupações se prende com as crianças, muito afetadas pelo encerramento de creches e escolas, onde muitas vezes tinham garantidas refeições, ao que acresce a situação das mães, com profissões que agora não podem exercer, como cabeleireiras, manicures, empregadas domésticas, e que perderam rendimento.

"Isto provocou uma pressão nas famílias por duas vias, porque estão todos em casa, comem em casa, custa mais dinheiro a cada família a alimentação que habitualmente não consumiam em casa, porque não estavam a casa todo o dia, mas por outro lado não têm qualquer rendimento ou remuneração, seja por via do trabalho, seja até porque por vezes eram ajudadas através destas respostas sociais", disse à Lusa.

Nas "observações" dos formulários online através dos quais se submetem os pedidos de ajuda surgem muitas vezes pedidos de comida para crianças e bebés e fraldas, referiu.

"Acho que é muito desesperante para uma família não ter nada em casa para dar aos seus filhos e temos assistido aqui a testemunhos que são terríveis. Pessoas que não estavam à espera, que ficaram nesta situação e que chegam a casa e não têm rigorosamente nada no frigorífico. Estas pessoas, é fácil caírem numa situação de desespero. O desespero às vezes leva a atos que são quase irracionais. Não gostaria que houvesse qualquer atentado à segurança ou que comece a haver mais casos de pequena criminalidade, seja o que for", disse Isabel Jonet.

A situação, que "só tem vindo a piorar", está a tornar-se mais visível, porque se "muitas (pessoas) acharam que no primeiro mês ainda se iam aguentar", agora que entram no segundo mês consecutivo sem salário começam a sentir cada vez mais dificuldades, sobretudo para aquelas que são mais vulneráveis a cada crise.

"Isto são pessoas que são uma vez mais atingidas, mas são pessoas que tinham a vida equilibrada. A mim custa-me ver isto, pessoas tinham a vida toda equilibrada, ganhavam o seu salário, conseguiam pagar as contas, viviam no limite, mas agora até tinham uma perspetiva de poderem viver um pouco melhor, o país estava melhor, havia muito turismo e muitas destas pessoas estavam em profissões ligadas ao turismo", disse.

Isabel Jonet antevê uma lenta recuperação para estas famílias, e mais alguns "meses de uma situação muito difícil" para as famílias, dependentes do ritmo da recuperação económica e do turismo, que terá um retomar de atividade muito condicionado pelos receios de quem viaja.

Apesar do crescente número de pedidos, "ainda tem sido possível dar resposta". À Rede de Emergência Alimentar chegam donativos de produtos frescos, excedentes de produção que agora são encaminhados para o Banco Alimentar devido ao encerramento dos restaurantes, para além da resposta de particulares e empresas aos apelos para donativos.

"Só tínhamos a campanha de recolha de alimentos no final de maio, portanto ainda tínhamos stocks para abril e para maio. Em abril já tivemos que dar uma parte dos produtos básicos para maio, então sensibilizámos empresas e pessoas para que nos deem donativos para que possamos comprar produtos", disse Isabel Jonet, referindo que tem havido "uma boa resposta" através do site www.alimentestaideia.pt.

Mais 25 mortes e 163 casos de Covid-19 em Portugal

A Direção-Geral da Saúde (DGS) anunciou esta segunda-feira a existência de 928 mortes e 24.027 casos de Covid-19 em Portugal.

O número de óbitos subiu, de ontem para hoje, de 903 para 928, mais 25, enquanto o número de infetados aumentou de 23.864 para 24.027, mais 163, o que representa um aumento de 0,68%.

O número de casos recuperados subiu de 1.329 para 1.357.

Mais de 200 mil mortos e 3 milhões de infetados pelo novo coronavírus em todo mundo

A pandemia de covid-19 já matou 206.567 mil pessoas e infetou 2.961.540 em 193 países desde que surgiu em dezembro na China, segundo um balanço da AFP às 11:00, a partir de dados oficiais.

Pelo menos 809.400 foram consideradas curadas pelas autoridades de saúde.

Os Estados Unidos, que registaram a primeira morte ligada ao coronavírus no final de fevereiro, lideram em número de mortos e casos, com 54.877 e 965.933, respetivamente. Pelo menos 107.045 pessoas foram declaradas curadas pelas autoridades de saúde.

Depois dos Estados Unidos, os países mais afetados são Itália, com 27 mil mortos para 199.414 casos, Espanha com 23.521 óbitos (209.465 casos), França com 23.293 mortos (162.100 casos) e Reino Unido com 21.092 óbitos (152.840 casos).

A China (excluindo os territórios de Hong Kong e Macau), onde a epidemia começou em dezembro, contabilizou 82.830 casos (três novos entre domingo e hoje), incluindo 4.633 mortos (uma nova) e 77.474 curados.

Até às 11:00 de hoje, foram registados na Europa 125 mil mortos para 1.379.443 casos, nos Estados Unidos e Canadá 57.513 mortos (1.012.573 casos), na América Latina e Caraíbas 8.292 mortos (169.174 casos), na Ásia 8.077 mortos (204.217 casos), no Médio Oriente 6.392 mortos (156.097 casos), em África 1.425 mortos (32.015 casos) e na Oceânia 109 mortos (8.023 casos).