Coronavírus

Malária em tempos de COVID-19 na Serra Leoa

Vincenzo Livieri

Rumores e desinformação ameaçam a saúde das crianças

Especial Coronavírus

Pelo mundo inteiro, a pandemia da COVID-19 tem levado as pessoas a temerem ir às estruturas de saúde. Na Serra Leoa, com a época da malária a aproximar-se rapidamente, é especialmente assustador o que um comportamento reduzido para obter serviços médicos pode significar para as crianças num país com elevada taxa de mortalidade infantil.

A Serra Leoa teve os primeiros casos de COVID-19 mais tardiamente que a maioria dos países. Mas, apesar de o novo coronavírus só ali ter chegado a 31 de março de 2020, os rumores e os medos propagaram-se pelas comunidades muito antes de se registar o primeiro caso confirmado. E tal como acontecera durante o surto de ébola de 2014 a 2016, esta pandemia deu azo a rumores e a desinformação que fazem com que algumas pessoas temam visitar os centros de saúde e hospitais.

Isto pode ter um efeito devastador para as crianças na Serra Leoa, país com uma das mais elevadas taxas de mortalidade infantil no mundo inteiro, com 105 mortes por cada mil nados-vivos. E as crianças com menos de cinco anos são as que estão mais vulneráveis à malária: representavam, em 2018, 67% de todos os casos de morte por malária no mundo.

As terríveis consequências indiretas da pandemia

"Se aquela criança nos tivesse chegado mais cedo, poderíamos tê-la salvado”

Desde 31 de março de 2020, uma maior proporção de crianças está a chegar aos hospitais na Serra Leoa em condições graves ou críticas.

Vincenzo Livieri

Tom Casey

Vincenzo Livieri

No hospital que a Médicos Sem Fronteiras opera em Hangha, na região de Kenema, uma criança deixou de respirar na entrada para a triagem dos serviços de urgência – tinha chegado de ambulância, vindo de uma pequena aldeia rural a três horas de distância.

“Apesar de todos os nossos esforços de ressuscitação, a criança morreu devido a malária cerebral. Tinha-nos chegado demasiado tarde. A mãe disse-me que ele estivera com febre durante três dias e que foi ficando cada vez pior, começou a ter convulsões em casa e perdeu a consciência. Foi de partir o coração, mas também me fez ficar muito zangada, não com a mãe da criança mas com a situação. Se aquela criança nos tivesse chegado mais cedo, poderíamos tê-la salvado”, conta a pediatra da MSF Carola Buscemi.

"Nós temos medo de que se nos disserem que temos o coronavírus, morreremos”

As memórias do ébola na Serra Leoa significam que a adoção das novas medidas de higiene para reduzir a propagação de uma pandemia não constitui nada de novo para as pessoas neste país. Porém, e tal como durante o ébola, os rumores podem espalhar-se facilmente e isso pode levar ao receio das pessoas em deslocarem-se às estruturas de saúde.

“Alguns dos problemas de saúde que temos na nossa aldeia são febres e dores de cabeça, mas temos medo de ir ao hospital”, explica Wata, mãe de cinco crianças que vive na aldeia de Bomboma, região de Kenema. “Temos medo porque se as ambulâncias aqui vierem, as pessoas podem dizer que temos o coronavírus. Se um dos meus filhos ficar doente, eu vou comprar medicamentos ao vendedor ambulante porque não quero ir ao hospital onde posso ter um teste positivo por coronavírus. Nós temos medo de que se nos disserem que temos o coronavírus, morreremos.”

O hospital da MSF em Hangha, dotado de 63 camas, presta cuidados de saúde secundários de emergência a crianças com menos de cinco anos. A MSF também providencia apoio em cuidados de saúde primários em três Centros de Saúde Comunitários (CSC) do Ministério da Saúde e Saneamento em Largo, Hangha e em Nekabu.

Além disso, as equipas da MSF levam cuidados de saúde diretamente a comunidades remotas e mobilizam atividades de promoção de saúde que, além de divulgarem as mensagens de promoção de saúde podem ainda proceder à sinalização para transferência de pessoas que identifiquem como estando a precisar de tratamento.

"Os outros problemas de saúde são esquecidos”

O trabalho da MSF é desenvolvido de forma a garantir uma continuidade de cuidados às comunidades. Da promoção de mensagens para manter as crianças saudáveis às referências para aceder a cuidados de saúde primários e secundários, está ativa uma rede de serviços disponível a pais e mães caso os seus filhos fiquem doentes.

Mas se as populações tiverem medo ao ponto de não irem às estruturas de saúde, essa continuidade pode ser rompida. Em janeiro e fevereiro de 2020, 80% das pessoas encaminhadas pelos promotores de saúde da MSF visitaram efetivamente um CSC, mas em março e em abril de 2020 o número de pessoas que procuraram cuidados de saúde após estes lhes terem sido aconselhados caiu para 27% e 40% respetivamente.

Estes números têm implicações especialmente preocupantes para as crianças que sofrem de malária, malnutrição ou diarreias, condições que são facilmente tratadas se a intervenção for atempada, mas que se tornam mortais, e requerem tratamentos mais avançados, na falta ou demora na prestação de cuidados médicos.

“Atualmente, a maior parte das pessoas com que nos encontramos está concentrada na COVID-19 e outros problemas de saúde são esquecidos”, frisa Wendemagegn Tefera, coordenador de Promoção de Saúde no projeto da MSF em Kenema. “Claro que estamos a trabalhar para expandir o entendimento que as pessoas têm da COVID-19, mas também continuamos a fazer todos os esforços para reforçar a consciencialização sobre outras condições de saúde.

"As coisas podem ficar fora de controlo"

Ainda não sabemos exatamente quão perigosa a COVID-19 é para as crianças, porém sabemos bem que a malária e a grave malnutrição resultam em que muitas crianças perdem a vida todos os anos. E em breve teremos a época das chuvas e os casos de malária vão aumentar. Se as famílias não levarem os filhos às estruturas de saúde, as coisas podem ficar fora de controlo.”

Vincenzo Livieri

A promoção de saúde é uma atividade crucial para a MSF nas zonas de Gorama Mende e de Wandor, onde equipas da organização médico-humanitária prestam apoio ao Ministério da Saúde e Saneamento para providenciar cuidados de saúde primários em dez unidades de saúde periféricas, incluindo assistência a trabalhadores comunitários de saúde que fazem diagnósticos e tratamentos para a malária e doenças diarréicas em 44 aldeias remotas.

De canoa, em motos ou a pé, as equipas MSF de promoção de saúde deslocam-se às aldeias onde falam com as pessoas sobre uma variedade de temas de saúde, da malária à prevenção das diarreias até ao planeamento familiar e cuidados pré-natais. Estas equipas desempenham ainda um importante papel em ouvir as comunidades de forma a conseguirem identificar e responder a quaisquer rumores que possam reduzir os comportamentos de busca e obtenção de cuidados de saúde.

“Durante o ébola, a taxa de mortalidade foi muito elevada e muitas pessoas encaminhadas para as estruturas de saúde já não regressaram às suas casas. Foi aí que começaram os rumores, pois as pessoas acreditavam que se passava algo nas unidades de saúde e que os profissionais de saúde estavam a matar as pessoas por dinheiro”, recorda o coordenador de Promoção de Saúde da MSF em Gorama Mende e Wandor, Tamba Magnus Aruna, que também trabalhou com a organização médico-humanitária durante o surto de ébola. “As pessoas nestas aldeias não têm sinal de rádio e, por isso, confiam na informação que lhes é dada por amigos e nas suas comunidades. Nestas condições, os rumores propagam-se facilmente”, frisa.

O perigo dos rumores

Recentemente circulou um rumor de que um grupo de pessoas andava de aldeia em aldeia a injetar pessoas com a COVID-19, sob o disfarce de fornecer vacinas. E as pessoas deixaram de trazer os filhos para fazerem as vacinações de rotina. A MSF fez então reuniões com líderes e representantes das comunidades, para explicar que aquele rumor era falso e que a vacinação é muito importante para proteger as crianças; foi explicado também como se dá verdadeiramente a transmissão da COVID-19. E as taxas de vacinação voltaram a subir após estas atividades.

“Quando circulam rumores sobre as estruturas de saúde, as pessoas podem ficar com medo de levar os filhos a procurar tratamento. Como promotor de saúde o meu trabalho é monitorizar os rumores e criar estratégias para clarificar a informação. Mas isto demora tempo”, precisa Tamba Magnus Aruna. “É muito preocupante porque sempre que há rumores falsos a circular, isso significa que pode haver uma criança doente que está a sofrer sem assistência numa aldeia.”

ESQUECIDOS

É um projeto da SIC Notícias e da Médicos Sem Fronteiras que dá espaço aos que vivem situações de vulnerabilidade. Histórias de quem fica marcado por conflitos armados, catástrofes, migrações ou falta de acesso a cuidados de saúde. Testemunhos de quem é quase sempre silenciado. Muitas vezes esquecido.

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