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Covid-19 e as crianças: "Carga viral não se traduz diretamente no risco de contagiosidade"

Amir Cohen

Em relação ao estudo que conclui que crianças têm um papel mais importante na propagação da Covid-19 do que se julgava, o presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos "não se pode extrapular de um estudo clínico (...) para consequências epidemiológicas".

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Um estudo divulgado esta quinta-feira conclui que as crianças têm um papel mais importante na propagação comunitária da covid-19 do que se julgava, com cargas virais superiores às dos adultos doentes, mas permanecendo assintomáticas.

Jorge Amil Dias, presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos, em entrevista à SIC Notícias, refere que este trabalho avalia crianças sintomáticas e que foram assistidas em hospital e "não se pode extrapolar de um estudo clínico de doentes sintomáticos para consequências epidemiológicas".

"Cada estudo só permite elações nas condições em que ele é feito", diz o presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos.

O médico explica também que "a carga viral não se traduz diretamente no risco de contagiosidade em crianças". Tal como não é proporcional à gravidade da doença.

"Curiosamente as oito crianças (...) com doença mais grave e mais generalizada [que participaram no estudo] eram as que tinham menor carga viral. Não há uma proporcionalidade absoluta e obrigatória entre a carga de vírus e a gravidade da doença ou o risco de contágio."

Para Jorge Amil Dias "é dificil dizer que este estudo é o mais vasto que já foi publicado sobre o assunto, [porque] claramente não é".

O estudo, da responsabilidade de investigadores do Hospital Pediátrico e do Hospital Geral de Massachusetts, Estados Unidos envolveu 192 crianças e jovens dos zero aos 22 anos, mas apenas 49 testaram positivo à Covid-19.

O estudo divulgado esta quinta-feira analisa também a questão de as crianças terem um menor número de recetores imunitários, o que as tornaria mais suscetíveis à infeção ou gravemente doentes.

Defende também que as crianças podem transportar uma carga viral elevada, o que as pode tornar mais contagiosas, independentemente da suscetibilidade ao desenvolvimento da Covid-19.

Especialistas explicam que é detetada mais carga viral nas crianças uma vez que estas são diagnosticadas mais cedo que os adultos.

Pediatra diz que estudo tem de ser interpretado com "prudência"

Maria João Brito, pediatra e diretora da Unidade de Infeciologia do Hospital Dona Estefânia, esteve quinta-feira na Edição da Noite, da SIC Notícias, onde considerou que o estudo tem de ser interpretado com "prudência" e destacou outras investigações feitas pela Europa que não chegaram aos mesmos resultados.

Maria João Brito disse que não há nenhuma criança internada com Covid-19 no Hospital Dona Estefânia e falou sobre o MIS, "uma complicação da Covid que atinge apenas a idade pediátrica e o jovem adulto".

A pediatra revelou ainda que sempre foi defensora do regresso das crianças às escolas e às creches:

"Nós não podemos viver confinados para sempre. Nem as crianças, nem os adultos. Mas as crianças estão numa fase muito importante da sua vida e precisam de se desenvolver."

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