Coronavírus

Covid-19. “Não podemos baixar a guarda para o surgimento de outras variantes”

Ricardo Mexia considera que não é "muito sensato falar de imunidade de grupo com uma data concreta".

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O Governo e o Presidente da República voltaram a reunir com os peritos sobre a evolução da pandemia de covid-19, numa altura em que os números apresentam uma tendência de descida. Nesta reunião, foi avançado que Portugal tem o risco mais baixo de transmissibilidade da Europa e que a imunidade de grupo poderá vir a ser alcançada em agosto. Ricardo Mexia, presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Saúde Pública (APMSP), analisa os dados divulgados nesta reunião.

“Temos assistido a uma descida importante do número de casos, que tem sido consistente ao longo das últimas semanas e é por isso que o tal valor Rt – o número reprodutivo – está nestes valores mais baixos. É um excelente indicador e resulta provavelmente das diversas medidas que temos em vigor em Portugal”, disse em entrevista à Edição da Tarde.

A descida registada em vários fatores coloca no horizonte a possibilidade de desconfinar, mas Ricardo Mexia lembra que é necessário “planear os próximos passos” e fazê-lo de forma “transparente”.

“Bem vimos o que se passou em janeiro: muito rapidamente a situação pode evoluir num sentido que ninguém deseja e, portanto, tem de ser planeado. Esse planeamento tem que incluir um faseamento da retoma das atividades, porque sabemos que há atividades que são mais fáceis de adaptar com uma redução da transmissão da doença, outras não será tanto assim”, afirma o presidente da APMSP.

As novas variantes são também uma preocupação que se mantém, mesmo com o Rt mais baixo. Mexia lembra que um maior número de casos ativos aumenta a possibilidade de surgirem novas mutações e, por isso, é necessário estar atento e vigilante para que se adaptem as medidas de controlo da pandemia, caso seja necessário.

“Há três fatores que nós estamos sempre preocupados: se há uma alteração na transmissibilidade, se há uma transmissão na severidade da doença causada pela variante e se esta variante compromete ou não a eficácia das vacinas”, explica sublinhado que “não podemos baixar a guarda para o surgimento de outras variantes já identificadas ou até outras que venham a ser identificadas nos próximos tempos”.

A vacinação e a imunidade de grupo são também assuntos abordados por Mexia: o especialista sublinha que ainda não há informações que permitam avançar com uma data concreta para atingir a imunidade de grupo.

"Talvez não seja muito sensato falar de imunidade de grupo com uma data concreta, porque o que nós sabemos é que, a serem cumpridos os prazos de entrega das vacinas que estão previstos, nós poderemos cobrir uma determinada proporção da população", afirma o epidemiologista, acrescentando que é necessário “alguma cautela em relação à questão da imunidade de grupo".

Para cumprir as etapas da vacinação a que a task force se comprometeu, Mexia defende que são necessárias “regras claras e objetivas”. O especialista em saúde pública lembra que as farmácias “já fazem parte da rede de vacinação para a gripe” e poderão também “ser uma solução útil” neste processo. No entanto, considera que para alcançar “este volume de vacinas, talvez faça sentido ter centros onde essas vacinas podem ser administradas de forma mais massificada”.