Desafios da Mente

Obrigado!

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Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

As pessoas que sentem mais gratidão apreciam, de forma mais geral, os aspetos positivos em si e no mundo. Este fator confere um papel-chave à gratidão na determinação da saúde mental, uma vez que a depressão traz uma visão negativa sobre o próprio, o mundo e o futuro. Pelo contrário, a gratidão pode formar uma tríade positiva que compreende visões positivas sobre o próprio, o mundo e o futuro (otimismo).

Consta que o dia 11 de janeiro é reconhecido como o Dia Internacional do Obrigado. Terá sido criado através das redes sociais com o objetivo de incentivar as manifestações de gratidão para com as pessoas de quem se gosta.

Mesmo que se possa discutir sobre o crescimento das redes sociais nos últimos anos ao ponto de motivarem a criação de uma espécie de efeméride, ou até mesmo a pertinência de nos relembrar sobre a necessidade de expressar o nosso agradecimento, aproveite-se o momento para refletir sobre gratidão e a sua relação com a saúde mental.

O que é a gratidão?

O conceito de gratidão diz respeito à disposição da pessoa para expressar o seu apreço, agradecimento. O tema tem sido estudado pela Psicologia, ao longo dos anos, enquanto característica do funcionamento humano e estado afetivo positivo.

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Trata-se de um sentimento subjetivo de admiração e apreciação da vida, uma disposição para reconhecer e responder com manifestações de agradecimento, tais como o carinho, a ternura.

A gratidão pode ser entendida como uma emoção social positiva que é vivenciada quando um ato de bondade, ou generosidade, é expresso livremente entre pessoas, ou de uma pessoa para outra entidade, por exemplo espiritual.

Enquanto característica de personalidade, é compreendida como parte de uma atitude mais ampla, no sentido de perceber e apreciar os aspetos positivos da vida.

Assumindo uma influência positiva, a gratidão melhora as ações sociais, tanto do benfeitor como do recetor.

Tal sucede porque a expressão de gratidão, como resultado da apreciação do ato recebido, é contagiante, podendo levar a comportamentos sociais para com o benfeitor ou até mesmo para com outras pessoas ou a comunidade.

Quais os benefícios da gratidão?

Nos últimos anos, a investigação psicológica neste tema tem-se concentrado, maioritariamente, nos benefícios de níveis mais elevados de gratidão para a saúde mental.

Ao ser vista como uma estratégia psicológica adaptativa através da qual as pessoas interpretam as suas experiências diárias e, simultaneamente, desfrutam dos benefícios dessas experiências, a gratidão associa-se à satisfação com a vida, sendo inclusive relevante preditor dessa satisfação.

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As pessoas que sentem mais gratidão apreciam, de forma mais geral, os aspetos positivos em si e no mundo. Este fator confere um papel-chave à gratidão na determinação da saúde mental, uma vez que a depressão traz uma visão negativa sobre o próprio, o mundo e o futuro. Pelo contrário, a gratidão pode formar uma tríade positiva que compreende visões positivas sobre o próprio, o mundo e o futuro (otimismo).

A importância clínica de níveis mais elevados de gratidão manifesta-se enquanto fator protetor do stress e da depressão ao longo do tempo. Níveis mais elevados de gratidão acautelam uma vasta gama de processos clinicamente relevantes, incluindo menos alterações do sono, uma maior procura de apoio social, um maior desenvolvimento da rede de suporte social, relações de maior qualidade e uma interpretação mais generosa das transações sociais, sejam estas prendas ou demonstrações afetivas.

Destaque-se que ser agradecido não é ser ingénuo. Ou seja, embora se possa estar grato por diversas questões, para além dos recursos financeiros, não se pode ignorar que as condições económicas estão relacionadas com aspetos importantes da vida, tais como saúde, esperança de vida, estabilidade no emprego, autonomia percebida, entre outros, que podem constituir motivos pelos quais se pode estar grato. Ainda assim, os estudos sobre o tema esclarecem que, mesmo em situações financeiras frágeis, estar grato está relacionado com níveis mais elevados de satisfação com a vida e de intenções de ajuda.

Na prática, por várias vezes, já nos deparámos com acontecimentos ou notícias em que os que mais ajudam não são necessariamente os que mais podem, ou os que têm mais recursos financeiros nem sempre se sentem mais felizes. Em síntese, os seres humanos têm a capacidade de experimentar estados psicológicos positivos mesmo em circunstâncias difíceis.

Ser grato interfere nas relações humanas?

Sim, a gratidão interfere também positivamente nas relações humanas, visto que implica reconhecer e apreciar que se é um destinatário e emissor de coisas boas na vida.

Expressar gratidão a um parceiro íntimo, ou a um amigo, leva ao aumento do sentimento de força comunitária, ou de responsabilidade pelo bem-estar do outro. É precisamente este reconhecimento e apreciação que motiva as pessoas a comportarem-se e a agirem de forma pró-social.

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Na vida íntima, a gratidão também pode potenciar muitos benefícios para os casais, sendo o mais imediato a expressão positiva de apreciação pelo parceiro.

As pesquisas sugerem que dar respostas positivas à gratidão do parceiro é um elemento importante de intimidade e um preditor de estabilidade da relação. Isto é, alguém que revela gratidão não só está a dar uma expressão positiva a um parceiro, mas também está a transmitir reconhecimento e apreço, está a celebrar os benefícios emocionais que este trouxe à sua vida. Por sua vez, tem o potencial de deixar o parceiro a sentir-se compreendido e apreciado.

Como tal, a gratidão pode servir para reforçar uma variedade de fatores importantes nos casais, tais como a felicidade conjugal, a intimidade e o apoio.

E com os mais novos?

As crianças com gratidão estão mais satisfeitas com a sua vida, relatam maiores capacidades escolares, estão mais satisfeitas com as relações interpessoais e expressam mais emoções positivas comparativamente aos seus pares com baixos níveis de gratidão.

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Estima-se que as raparigas apresentam níveis mais elevados de gratidão em comparação aos rapazes. Por exemplo, numa investigação com crianças entre os 11 e os 13 anos, os rapazes apresentam níveis de gratidão inferiores. Uma das hipóteses explicativas passou pelo facto de os rapazes poderem interpretar a gratidão como fraqueza e, portanto, uma ameaça à masculinidade, especialmente durante os anos de escola.

Se somarmos a isto o facto de se atribuir o desenvolvimento da gratidão à interação com o ambiente, é fundamental pensarem-se as experiências de socialização na infância.

Destaque-se ainda o facto de a gratidão ter menor relação com o abuso de substâncias e comportamento agressivo, bem como com perturbações mentais.

O reconhecimento da associação positiva da gratidão com a satisfação das crianças com a vida é importante para que se possa investir no contributo da Psicologia em contexto escolar.

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