Eleições nos EUA

Invasão do Capitólio choca América e revela profundas divisões

Andrew Harnik

"O objetivo político dos extremistas foi atingido."

A violenta invasão do Capitólio por manifestantes pró-Trump na quarta-feira, que fez quatro mortos e interrompeu os trabalhos do Congresso, deixou a América em choque e revelou profundas divisões internas, no Partido Republicano e na própria equipa presidencial.

A invasão ocorreu na quarta-feira à tarde, quando decorria a sessão de ratificação dos votos das eleições presidenciais dos EUA, que foi interrompida devido aos distúrbios.

Enquanto a polícia recolhia os congressistas para um refúgio de segurança subterrâneo, salas e escritórios foram vandalizados. Nos confrontos com a polícia houve vários feridos e quatro pessoas morreram.

Imagens inéditas mostram assalto a um dos símbolos da democracia norte-americana

A Polícia do Congresso foi rapidamente reforçada por unidades de intervenção do FBI e da Polícia Metropolitana, procedendo a detenções e expulsando os manifestantes, que continuaram a manifestar-se no exterior.

Mas o objetivo político dos extremistas foi atingido. Interromperam os trabalhos de certificação dos resultados do Colégio Eleitoral pelo Congresso e levaram à América e ao mundo imagens do extremismo a sobrepor-se à democracia.

Estes graves confrontos revelam que o incitamento à insurreição pelo presidente Trump está a causar profundas divisões internas, no Partido Republicano e na própria equipa presidencial.

O vice-presidente Mike Pence disse aos manifestantes: "Vocês não ganharam. A violência nunca vence. A liberdade vence. E esta é a casa do povo. Vamos voltar ao trabalho'.

Outro republicano que costumava apoiar Donald Trump, o líder da maioria no Senado Mitch McConnell, afirmou: "Não seremos mantidos fora desta câmara por bandidos, bandos de arruaceiros, ou ameaças. Tentaram impedir a democracia, mas falharam".

A Casa Branca manteve-se estranhamente silenciosa perante a gravidade dos acontecimentos, o que levou o vice-presidente a assumir a coordenação das operações de segurança entre o Departamento de Defesa, Departamento da Justiça e os líderes do Senado e Câmara dos Representantes para garantir a segurança no Capitólio e reiniciar os trabalhos do Congresso.

A líder da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, reforçou: "Houve um ataque vergonhoso à nossa democracia. Foi instigado ao mais alto nível do Governo, mas o Congresso avançará esta noite com a certificação da vitória de Joe Biden".

No exterior das instalações do Capitólio, o reforço policial engrossou com o anoitecer e os apoiantes de Donald Trump foram progressivamente afastados dos relvados e praças do Congresso.

Receando que os radicais se espalhassem pela capital, a presidente da Câmara de Washington, Muriel Bowser, declarou o recolher obrigatório a partir das 18:00 (23:00 em Lisboa).

De imediato, as cidades vizinhas nos estados de Maryland e Virgínia adotaram a mesma medida de segurança, encerrando a circulação de pessoas em toda a área metropolitana da capital.

Biden classifica invasão de rebelião

O Presidente eleito, Joe Biden, veio a público declarar que o que se passou no Capitólio "não é um protesto, é uma insurreição".

E porque defende uma América mais envolvida com a comunidade internacional e liderando as causas da democracia disse: "As ações de um bando de extremistas não refletem a verdadeira América. A nossa democracia está sob um ataque sem precedentes. O mundo está a assistir".

Os trabalhos de certificação da votação do Colégio Eleitoral pelo congresso recomeçaram pelas 20:00 e prolongaram-se pela noite dentro. Mas o sentimento de choque domina os mais variados setores da vida política americana, incluindo os conservadores.

O antigo Presidente George W. Bush, em linguagem dura, classificou os protestos de "insurreição, incentivada ao longo de meses pelo Presidente".

O atual senador Mitt Romney, que já foi governador de Massachusetts e mantém boas ligações com os luso-americanos, disse no reinício dos trabalhos: "É uma vergonha o que aconteceu, mas a democracia venceu. Vamos acabar com isso e apoiar o novo Presidente".

Um sentimento que acabou por influenciar a decisão de alguns legisladores republicanos de retirar objeções formais que planeavam apresentar, alegando irregularidades no processo eleitoral.

A congressista republicana Cathy Rodgers, importante membro da Comissão de Energia e Comércio, foi a primeira a anunciar que não faria objeções aos resultados do Colégio Eleitoral.

"O que aconteceu hoje é vergonhoso e anti-americano. Bandidos assaltaram o Capitólio, invadiram e vandalizaram o edifício, colocaram a vida de pessoas em perigo e desprezaram os valores que, como americanos, consideramos fundamentais. A todos os envolvidos, tenham vergonha!", disse a congressista Rodgers.

Cathy Rogers apelou ainda a "uma transferência pacífica de poder": "A única razão para a minha objeção era dar voz à preocupação de que governadores e tribunais mudaram, unilateralmente, os procedimentos eleitorais sem consultar o povo e fora do processo legislativo. Mas o que vimos hoje é ilegal e inaceitável. Decidi votar a favor dos resultados do Colégio Eleitoral e recomendo que Donald Trump condene a violência e acabe com esta loucura".

Os trabalhos do congresso chegaram à fase final e começou a leitura ritual das votações de cada estado, pelos representantes do Colégio Eleitoral, para Presidente e Vice-Presidente dos EUA. Dos cinquenta estados, houve duas objecções, uma do representante do Nevada e outra do representante da Pensilvânia. A cada objeção seguiu-se o estipulado período de discussão, finalizado com votação dos legisladores. Ambas as objeções foram derrotadas.

Após um dia de caos, que fica na história americana a manchar a imagem de 'farol da democracia', pouco antes das 04:00 desta quinta-feira (09:00 em Lisboa) cumpriu-se uma tradição com mais de 130 anos.

O vice-presidente, Mike Pence, como presidente do Senado, certificou que Joe Biden recebeu 306 votos para Presidente dos Estados Unidos contra 232 para Donald Trump.

Pedro Bicudo, para a agência Lusa