Presidenciais

Retratos da campanha

Opinião

Com o País a viver num cenário de pandemia, a campanha para as eleições Presidenciais sofreu várias alterações e a agenda dos candidatos teve de ser adaptar.

Partiu para a estrada sem uma estratégia definida de campanha, o que é compreensível num contexto pandémico a que ninguém está imune (a começar, como se viu, com o teste positivo de Marcelo, nos candidatos e nos seus staffs), mas não facilita o trabalho à imprensa.

Praticamente só de véspera é que os jornalistas que acompanham a candidata sabem o que se vai passar no dia seguinte. Sendo que os dias de Ana Gomes têm estado divididos em duas partes: de manhã visita locais específicos, para conseguir as (poucas) imagens que dão vida às peças dos jornais televisivos, ao final da tarde mantém conversas temáticas por videoconferência.

E se não a podes vencer (à pandemia) faz de conta que ela não existe. É o “negacionismo” à moda do candidato do Chega, para quem o estado de emergência e o confinamento não só não fazem suspender o exercício da atividade política como até o estimulam: Ventura não prescindiu de uma intensa volta pelo país (com centenas de quilómetros calcorreados todos os dias ) nem de almoços e jantares-comício (o último com quase 200 pessoas); e mesmo quando não há mesas nem comida, há concentrações ao ar livre, com dezenas de apoiantes em redor do candidato ou dentro de carros.

O que não há é caminhadas pela rua, visitas a empresas ou instituições. Se quer conhecer Ventura sem um palanque e um microfone que lhe amplifique o discurso não vai ser nesta campanha.

Uma campanha “à antiga”, uma volta pelo país planeada meticulosamente, sem margem para improvisos, ainda que com as limitações a que a pandemia obriga.

Não há “carne assada” mas ao fim do dia, por regra, há comícios em salas grandes (do Coliseu do Porto ao auditório Luísa Todi, em Setúbal), com a lotação circunscrita a 1/3, como manda a DGS. Há encontros quotidianos com os trabalhadores dos mais variados setores, visitas a empresas e instituições, normalmente os mais afetados pela crise.

É um roteiro clara e assumidamente dirigido ao eleitorado comunista, no que é uma espécie de primeiro efetivo “tour” daquele que, tudo indica, será o próximo secretário-geral do PCP.

Tal como Marcelo, Marisa Matias seria a candidata que mais teria beneficiado de uma campanha dita normal, com arruadas e contatos espontâneos com eventuais eleitores, no que a candidata é uma “natural”.

Mas a Covid 19 e o confinamento obrigaram a oleada máquina de campanha bloquista a adaptar a candidatura às circunstâncias: tem havido “rua” todos os dias, mas em ambientes controlados, e continua a haver comícios, quase sempre com “special guest stars” (ainda esta 2ª feira, Chico Buarque interveio por videoconferência) com a audiência distribuída entre os presentes e os virtuais (que assistem ao evento por zoom).

O Presidente-recandidato não resiste ao improviso e gosta de surpreender os jornalistas, que às vezes só sabem em cima da hora onde é que ele vai estar a seguir. Desta vez foi a pandemia que lhe trocou as voltas a ele. Primeiro ao testar positivo à covid 19, o que o obrigou (a ele e aos adversários, ainda que por breves instantes) a suspender tudo.

Depois, quando a DGS finalmente o autorizou a sair, com o compromisso de evitar ajuntamentos, a traçar a rota certa num país sob confinamento. Para quem o que gosta mesmo é de andar na rua e entrar de surpresa onde haja uma porta aberta, esta campanha (quase) sem rua e com as portas fechadas exige uma dose extra de criatividade. Mas essa é uma qualidade que não falta a Marcelo.

O candidato desconhecido, fundador do Iniciativa Liberal, ganhou projeção com os vários frente-a-frentes televisivos e o que inicialmente foi descrito aos jornalistas como uma campanha pontual, com ações apenas aqui e ali, acabou por ganhar inesperada força motriz.

Mayan, afinal, tem tido agenda intensa quase todos os dias, dividida entre as ações cirúrgicas, com o objetivo de chamar a atenção para causas e problemas específicos, e as videoconferências com associações dos mais diversos setores.

Saiu a sorte grande ao calceteiro de Rans quando a RTP decidiu compensar a sua ausências dos frente-a-frente previamente concertados entre as três televisões generalistas, com um frente-a-frente diário com os outros seis candidatos no canal 3.

Essa (inesperada) exposição mediática dispensa qualquer campanha de rua que Tino, de resto, até pouco tinha previsto fazer. Em 2016, quando poucos sabiam quem era, conseguiu 152 mil votos. Quantos terá desta vez?

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