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Em cena para um novo ato: Catarina Martins, a candidata que quer "cuidar da democracia"

Antiga coordenadora do Bloco de Esquerda e atual eurodeputada, estreia-se como candidata à Presidência da República num momento de fragmentação à esquerda e de desafios à democracia portuguesa. Com um percurso que liga o ativismo, o teatro e mais de uma década de liderança partidária, Catarina Martins assume-se como voz independente e promete uma presidência capaz de “cuidar da democracia” e de responder às desigualdades sociais, ao estado dos serviços públicos e à valorização da Cultura.

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Nasceu no Porto, mas cedo se mudou para São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, onde os pais, professores, trabalharam como cooperantes numa África lusófona ainda a ‘lamber’ as feridas da guerra colonial. Casada e mãe de duas filhas, deve o nome a Catarina Eufémia, um símbolo eterno da luta contra a ditadura. Aos 9 anos, regressou a Portugal e viveu em várias cidades. Desde a juventude que participa em movimentos cívicos e políticos, mas foi no teatro que encontrou uma das primeiras paixões. Eleita deputada pela primeira vez em 2009, assumiu a coordenação do Bloco de Esquerda entre 2012 e 2023, ano em que deixou a Assembleia da República. Um ano depois da eleição como eurodeputada, entra pela primeira vez na corrida a Belém com a ambição de “cuidar da democracia”.

Infância entre continentes e revoluções

Catarina Soares Martins nasceu na cidade do Porto a 7 de setembro de 1973. Aos 6 anos chega a São Tomé e Príncipe para cumprir o primeiro ano de escolaridade e, no ano seguinte, muda-se para Cabo Verde. Os pais, ambos professores, procuravam ajudar na reedificação educacional e social de territórios que viviam os primeiros anos de independência, fraturados pela turbulência trazida por 13 anos de guerra colonial.

Reprodução/Facebook

A vivência entre diferentes geografias e realidades sociais reforçou, desde cedo, uma ideia de comunidade e de responsabilidade cívica que viria a marcar o percurso de Catarina Martins. Dos anos em África guarda memórias de uma infância “calma”, mas “marcante”.

"Amílcar Cabral foi o primeiro herói de que me falaram na escola. Estávamos no início dos anos 80, em Cabo Verde. A independência era recente e a escola pública celebrava-a. Na história que aprendi, e muito justamente, Cabral é herói para África e para Portugal. Combateu o inimigo comum: o fascismo", recordou, no âmbito dos 50 anos do 25 de Abril.

Uma paixão chamada teatro

Regressada a Portugal no início da década de 80, estudou em Aveiro, Gaia, Lisboa e Coimbra, onde começou por ingressar em Direito - curso que frequentou até ao 3.º ano - antes de inverter o rumo e dedicar-se às Letras e à expressão artística. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas e concluiu um mestrado em Linguística.

Todavia, foi no teatro que encontrou o primeiro palco de intervenção. Em Coimbra, frequentou e dirigiu, entre 1993 e 1994, o Círculo de Iniciação Teatral da Academia Teatral (CITAC), grupo de referência na formação teatral universitária, numa altura em que ainda havia poucos cursos de teatro no país.

“Quando acabei o ensino secundário não fazia a mínima ideia do que havia de estudar e fui estudar Direito em Coimbra porque sim. Era boa aluna, tinha boas notas, era normal que fosse para a universidade. Não sabia o que queria fazer, o meu avô tinha sido advogado e eu tinha uma ideia muito romântica da Justiça e do Direito”, contou, em entrevista ao “Os 230”, projeto que visa esbater a distância entre a classe política e os cidadãos.

Reprodução/Facebook

Em 1994, cofundou, no Porto, a companhia Visões Úteis, onde trabalhou durante mais de uma década como atriz, encenadora e criadora. Dirigiu ainda a Plateia (Associação de Profissionais das Artes Cénicas) entre 2004 e 2009.

Crítica acérrima dos crónicos desinvestimentos na Cultura em Portugal, Catarina Martins vê a arte cénica e o espólio cultural como elementos essenciais para a participação democrática: “Sem democracia cultural não há democracia”, afirmou, em 2014, em entrevista ao JPN (JornalismoPortoNet), projeto jornalístico da Universidade do Porto.

Do palco à ribalta política

A ligação ao ativismo cultural antecedeu o percurso na política. Catarina Martins entrou na Assembleia da República em 2009, como deputada independente eleita pelo círculo do Porto nas listas do Bloco de Esquerda. Um ano depois filiou-se no partido, e, em 2012, assumiu a coordenação, primeiro em dupla com João Semedo e depois, a partir de 2014, a solo.

Armando Franca

É sob a liderança de Catarina Martins que o Bloco alcança o melhor resultado eleitoral da história do partido, fundado em 1999. Nas eleições legislativas de 2015 o BE obtém mais de meio milhão de votos - 10,19% - e elege 19 deputados, sendo a terceira força política mais votada, apenas atrás da coligação PSD/CDS e do PS. Nesse período, para a negociação da então inovadora “geringonça”, a líder bloquista impôs condições que continua a considerar essenciais na luta política, com destaque para a legislação laboral e a subida do salário médio; os serviços públicos, com relevo para a saúde; ou a resposta às questões climáticas.

Em dezembro de 2015, após o sucesso eleitoral do Bloco de Esquerda, a conceituada revista norte-americana Politico classificou Catarina Martins como uma das 28 personalidades em destaque na Europa.

Armando Franca

O fim da “geringonça”

Depois de um resultado eleitoral semelhante ao de 2015 nas legislativas de 2019, o fim da “geringonça” em 2021 acabaria por resultar na queda do Governo. Um encerrar de ciclo que se começou a desenhar quando, na discussão sobre o Orçamento do Estado para 2022, o PS entrou em confronto aberto com Bloco e PCP, que consideravam insuficientes as propostas do Executivo de António Costa em matérias como o reforço do SNS e as respostas sociais no pós-pandemia. O voto contra do BE acabou por ser decisivo para o chumbo do Orçamento, a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições antecipadas.

Armando Franca

Nas legislativas de janeiro de 2022, o Bloco de Esquerda sofreu uma das maiores quebras da sua história, passando de 19 deputados para apenas cinco. Depois de mais de uma década na linha da frente do BE, Catarina Martins anunciou, em 2023, que não voltaria a recandidatar-se à coordenação do partido.

Armando Franca

Em 2024 foi novamente a votos e alcançou a eleição como eurodeputada pelo Bloco, partido que agora a volta a apoiar na corrida à Presidência da República.

Uma candidatura sem “fronteiras partidárias”

A 18 de outubro, Catarina Martins apresentou oficialmente a candidatura a chefe de Estado, num discurso em que sublinhou que a iniciativa “não tem fronteiras partidárias” e que pretende ser um espaço de convergência democrática.

O anúncio marcou o regresso ao protagonismo político nacional, desta vez como rosto de uma alternativa que procura mobilizar eleitores para lá dos limites tradicionais do BE, que viveu em 2025 o pior ano eleitoral da sua história.

Em entrevista à SIC Notícias, afirmou que se candidata movida pela ideia de “cuidar da democracia” e pela convicção de que o país precisa de uma presidência atenta às desigualdades sociais, às condições de vida, ao estado dos serviços públicos e ao papel da Cultura na coesão da sociedade. Apesar da fragmentação de candidaturas à esquerda, Catarina Martins garante que não retirará a sua, nem que António José Seguro lhe peça para o fazer, e admite que não teria avançado caso Sampaio da Nóvoa estivesse na corrida.

As últimas sondagens posicionam-na luta pelo sexto lugar, pelo que dificilmente superará o melhor resultado obtido por um candidato do Bloco em eleições presidenciais: o terceiro lugar de Marisa Matias em 2016, com 10,12% e cerca de 470 mil votos, num contexto político muito diferente do atual. Ainda assim, Catarina Martins assegura que jamais abdicará de representar quem procura soluções estáveis para o futuro do país, valorizar o trabalho digno, a habitação acessível e políticas públicas que respondam às necessidades reais das pessoas.