O sismo de 31 de agosto foi um dos mais mortíferos do Afeganistão na última década, provocando mais de 2.200 mortos e 3 mil feridos em quatro províncias, incluindo Kunar e Nangarhar. Milhares de sobreviventes foram deslocados e vivem agora em campos temporários.
“Deviam ser quase 23h da noite quando a mulher do meu tio foi para a cama. Avisei-a para não trancar a porta de casa, pressenti que algo estava para vir. Estava sentada na cama quando ouvi o estrondo inicial. Corri para agarrar os meus dois filhos pequenos e, de repente, começaram a chover pedras dentro de casa. Mal pusemos um pé fora da porta, o quarto desabou nas nossas costas. Não consegui fazer nada”, recorda Kochai, 40 anos, mãe de cinco filhos, sobrevivente do sismo de magnitude 6.0 que atingiu o Leste do Afeganistão no final de agosto de 2025.
“Muitas pessoas morreram e, agora, o meu coração está um pouco mais escuro. Tenho medo de regressar”, confessa, referindo-se à sua aldeia-natal na área remota de Nurgal, na província de Kunar, próxima do epicentro do terramoto.
Nos dias que se seguiram ao desastre, a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) encaminhou provisões médicas para os três principais hospitais da região que tratavam feridos. Além disso, logo no início de setembro, foi aberta uma clínica de cuidados essenciais a funcionar 24h por dia, bem como um posto de saúde no Campo de Patan, na província de Kunar.
As equipas móveis da organização têm também visitado pessoas deslocadas no campo de Ari Gamba, perto da aldeia de Shomash, para prestar cuidados urgentes de trauma e, posteriormente, consultas médicas, vacinações, cuidados pré e pós-natais, sessões de promoção de saúde e consultas individuais de saúde mental.
Com tudo isto, entre meados de setembro e o final de outubro, as equipas da MSF forneceram cuidados a mais de 7.500 pessoas, em particular para a diarreia, infeções respiratórias e doenças de pele, como a sarna – um reflexo das difíceis condições de vida nos campos após o sismo. Homens, mulheres e crianças também chegam às instalações da MSF vindos de outros campos e aldeias próximas.

No rescaldo do sismo, casas por reconstruir e traumas por ultrapassar
Na unidade de consultas ambulatórias da clínica da MSF no campo de Patan, um médico da organização examina Shazia, uma criança de 4 anos com febre e uma doença dermatológica. A mãe dela, Gul Shama, também tem febre e uma doença do trato respiratório. Ambas foram obrigadas a deslocar-se na sequência do sismo.
“Perdi o meu irmão, o meu cunhado, o meu sogro, as duas mulheres do meu irmão, as minhas duas sobrinhas e um primo no terramoto. Tudo colapsou. E o meu irmão salvou-me a mim e aos meus filhos nessa noite”, conta Gul.
Os campos de Patan e Ari Gamba estão entre os vários acampamentos temporários e improvisados montados para as pessoas afetadas pelo sismo no distrito de Nurgal, acolhendo, no total, cerca de 8 mil deslocados oriundos das aldeias mais devastadas.
“Estamos a observar que os sobreviventes não têm esperança no futuro, estão deprimidos”, explica a médica da MSF, Nahida Noor. “Uma paciente disse-me recentemente que, às vezes, sente a presença da filha à sua frente, ou como se o marido estivesse sentado ao lado dela. Esse sentimento existe em muitas pessoas que perderam familiares. E o som do sismo e da destruição permanece-lhes na memória.”
A MSF está a fornecer sessões de acompanhamento psicológico individual e em grupos para as comunidades afetadas, com cerca de 250 participantes por semana. Para além das consequências emocionais de perder família, amigos, casas e bens, os sobreviventes enfrentam agora outro desafio: o inverno. As noites já se sentem frias e, em breve, as temperaturas cairão para abaixo de zero. Em algumas zonas, deve mesmo cair neve.
“O inverno aproxima-se desta região montanhosa e vai nevar. Viver nestas tendas é impossível. Há uns dias caiu chuva e granizo e as nossas crianças e mulheres sofreram muito”, frisa Sayed Jalala, um dos deslocados no campo de Ari Gamba. “Tudo o que tínhamos ficou soterrado nos escombros, incluindo os nossos lençóis. Recebemos algumas mantas, mas não servem para combater este frio absurdo. As tendas também não fazem muito.”
Com a chegada do tempo mais rigoroso, espera-se um aumento da prevalência de doenças sazonais, como as infeções respiratórias, incluindo a pneumonia, e doenças transmissíveis, como o sarampo e a tosse convulsa.
As pessoas nos campos dispõem apenas de abrigos temporários, sem aquecimento ou eletricidade, numa área rodeada de montanhas. “Será preciso fazer mais para garantir que os sobreviventes podem viver com dignidade até que uma solução permanente seja encontrada, ou que eles possam regressar a casa”, conclui o responsável médico do projeto da MSF em Kunar, Esmatullah Esmat.



