Foi há um ano, a 20 de janeiro de 2025, que a paisagem de migrações na América Latina mudou subitamente. Com uma simples assinatura feita em Washington, nos Estados Unidos, o sistema de processamento de requerimentos de asilo conhecido por CBP One chegou ao fim.
Aquela assinatura mudou o rumo de centenas de milhares de vidas. Com o anúncio do fim da CBP One (aplicação digital para requerer agendamento junto dos serviços norte-americanos de Alfândega e Proteção de Fronteiras, CBP na sigla em inglês), 300 mil pessoas passaram da burocracia à incerteza, de um promissor projeto de vida a ruínas. Passaram de caminhar em direção aos Estados Unidos para um recomeço do zero no México, em alguns casos por opção própria, mas na maioria das vezes por não haver alternativa.
Os fluxos migratórios e as deslocações internas continuam silenciosamente no México, ao mesmo tempo que as passagens de fronteira para os Estados Unidos atingem níveis historicamente baixos. Mas é preciso compreender que menos chegadas à fronteira norte-americana não quer dizer que a crise de migrações tenha chegado ao fim. Antes, virou para o interior, agravando o estado de vulnerabilidade das pessoas em locais onde essa vulnerabilidade é muitas vezes invisível. As pessoas que estão agora presas num limbo jurídico enfrentam riscos e uma falta de proteção que lhes limitam o acesso a cuidados de saúde e a serviços básicos.
“Enfrento muito racismo”, conta Ricardo, um migrante haitiano oriundo de Port au Prince que agora conduz em Tláhuac uma mototáxi com duas bandeiras: uma do Haiti e outra do México. “Os passageiros ignoram-me frequentemente e ficam à espera de um condutor mexicano. Eu nunca planeei ir para os Estados Unidos. Espero regressar a casa um dia, mas agora a minha companheira é mexicana e é aqui que vou continuar a trabalhar.”

