A Fórmula 1 abandona (temporariamente) o continente asiático e ruma até ao continente americano para o aguardado Grande Prémio dos Estados Unidos. Entre 17 e 19 de outubro, todos os caminhos vão dar ao Circuito das Américas (COTA), em Austin, no Texas, que será palco da 19.ª de um total de 24 provas previstas no calendário de 2025, assim como do regresso das corridas sprint. Depois de um Grande Prémio de Singapura disputado à noite, voltam as tradicionais corridas à tarde (já noite em Portugal continental), sendo esperadas no Texas temperaturas elevadas ao longo do evento.
O Grande Prémio dos Estados Unidos é sinónimo de espírito grandioso e festivo, tipicamente americano, numa celebração de espetáculo e intensidade que vai muito para além da simples corrida de domingo. Presente no calendário da Fórmula 1 desde 1959, esta prova percorreu várias regiões icónicas do país, das memoráveis corridas em Watkins Glen e Indianápolis, até aterrar em Austin, onde tem lugar desde 2012.
O Circuito das Américas (COTA) é um dos traçados mais modernos da atualidade, repleto de desafios técnicos que colocam à prova tanto os pilotos como os carros. É especialmente conhecido pela famosa subida da reta principal que conduz à Curva 1, com uma elevação de 41 metros que se traduz num início dramático e desafiante que reflete bem o estilo grandioso da América.
Ao todo, o circuito tem 5,513 quilómetros de extensão, com um total de 56 voltas e duas zonas de DRS (Drag Reduction System). Das 20 curvas, 11 são à esquerda e 9 à direita, num traçado onde os pilotos circulam no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.
Em que horários se realiza o GP dos Estados Unidos?
Sexta-feira, 17 de outubro:
- Treinos Livres (FP1): 18:30 - 19:30
- Qualificação Sprint: 22:30 - 23:14
Sábado, 18 de outubro:
- Corrida Sprint: 18:00 - 18:30
- Qualificação: 22:00 - 23:00
Domingo, 19 de outubro:
- Corrida: 20:00
(Horário de Portugal Continental)
Austin, o coração americano da Fórmula 1
O Grande Prémio dos Estados Unidos é hoje um dos pontos altos do calendário do Campeonato do Mundo e símbolo do crescimento do desporto no mercado norte-americano.
Ao longo dos últimos anos, o GP dos EUA afirmou-se como um palco de celebração global da F1, num formato que reflete a aposta da Liberty Media em transformar cada fim de semana de Grande Prémio num espetáculo completo. Austin consolidou-se não só como a verdadeira “casa americana” da Fórmula 1, mas também como ponto de partida de uma nova era de entusiasmo do público norte-americano pelo campeonato.
A era Liberty Media e a americanização da F1
Nos últimos anos, a Fórmula 1 tornou-se cada vez mais norte-americana. Nas pistas, mas principalmente fora delas. Desde que a Liberty Media, grupo sediado em Denver, adquiriu os direitos comerciais do campeonato mundial, em 2017, a presença dos Estados Unidos na estrutura e na estratégia da modalidade cresceu de forma visível. A nova administração trouxe uma abordagem centrada no entretenimento e no marketing global, numa aposta clara em transformar a Fórmula 1 num produto de massas, mais acessível e mais apelativo para o público jovem.
Essa viragem traduziu-se numa expansão sem precedentes no mercado norte-americano. O país, que durante décadas acolheu apenas uma corrida por temporada, conta agora com três Grandes Prémios: Austin, Miami e Las Vegas.
O sucesso da série documental Drive to Survive, lançada pela Netflix em 2019 com o apoio da Liberty Media, desempenhou um papel determinante nessa transformação: aproximou os fãs do lado mais humano dos pilotos e gerou uma nova vaga de interesse nos Estados Unidos, sobretudo entre as gerações mais novas.
A influência norte-americana sente-se também no modelo de negócio e na comunicação da Fórmula 1. A marca intensificou a aposta nas redes sociais, nas parcerias com grandes plataformas digitais e em eventos recheados de entretenimento, pirotecnia e celebridades, mais próximos do formato do desporto norte-americano. Este novo capítulo trouxe ganhos expressivos em audiência e receitas, mas também críticas de quem teme que o lado comercial se sobreponha ao espírito purista da modalidade-rainha do desporto motorizado.
Do insólito ao inédito: o dia em que Tiago Monteiro fez história na Fórmula 1
Indianápolis, 19 de junho de 2005. Um dia que ficará para sempre marcado como uma das páginas mais controversas da história da Fórmula 1 e mais douradas para o desporto motorizado português.
O fim de semana começou com expectativas elevadas, que rapidamente se inverteram quando começaram a surgir problemas graves com os pneus Michelin, utilizados por sete das dez equipas do grid. Os engenheiros da marca francesa detetaram falhas de segurança depois de um acidente grave de Ralf Schumacher (Toyota) na curva 13 do circuito, durante a segunda sessão de treinos livres, e concluíram que os pneus não garantiam segurança para mais do que 10 voltas naquela zona da pista.
No domingo, os mais de 100 mil espetadores assistiram incrédulos a uma cena inimaginável: após a volta de formação, apenas seis carros alinharam na grelha de partida: os da Ferrari, Jordan e Minardi, equipados com pneus Bridgestone. As restantes equipas retiraram-se da corrida antes da luz verde, temendo pela integridade física dos pilotos. O ambiente nas bancadas oscilou entre a perplexidade e a fúria, com assobios e objetos a voar para a pista.
Michael Schumacher venceu a prova, seguido do companheiro de equipa Rubens Barrichello, mas foi Tiago Monteiro quem protagonizou um momento histórico para Portugal. Ao volante do seu modesto Jordan, manteve-se firme e levou o EJ15 até ao terceiro lugar, no primeiro (e único) pódio de um piloto português na Fórmula 1.
Home, (bitter)sweet home
Apesar de integrar o calendário da Fórmula 1 desde 1959, nunca um piloto norte-americano venceu o Grande Prémio dos EUA. É certo que houve vitórias de pilotos dos Estados Unidos em provas disputadas em solo americano, mas aconteceram noutra era e sob outras regras.
Entre 1950 e 1960, as 500 Milhas de Indianápolis integraram oficialmente o Mundial de Fórmula 1, embora fossem uma competição completamente distinta, com carros, equipas e regulamentos alheios ao campeonato. Nessa altura, nomes como Bill Vukovich ou Sam Hanks venceram a icónica prova da “tripla coroa” do desporto motorizado - a par das 24 Horas de Le Mans e do GP do Mónaco -, mas essas corridas pouco tinham a ver com a Fórmula 1 como a conhecemos.
Desde que o Grande Prémio dos Estados Unidos passou a ser uma prova regular do campeonato, nenhum americano conseguiu alcançar o lugar mais alto do pódio. Mario Andretti, campeão do mundo em 1978, foi quem mais perto esteve, terminando em segundo lugar na edição de 1977.
Múltiplos palcos ao longo da história
Nas últimas décadas, o Grande Prémio dos Estados Unidos conheceu as mais diversas moradas, num reflexo da relação outrora instável entre o país e a Fórmula 1. Desde a estreia oficial em Sebring (1959), a corrida passou por locais como Riverside, Watkins Glen, Long Beach, Las Vegas, Detroit, Phoenix e, mais recentemente, Indianápolis e Austin.
Durante décadas, essa itinerância traduziu as dificuldades da Fórmula 1 em firmar raízes nos Estados Unidos, um mercado ainda dominado por competições como a NASCAR e a IndyCar. Só com a chegada do Circuito das Américas, em 2012, o campeonato encontrou nos EUA um palco capaz de conjugar qualidade técnica, segurança e identidade própria.
Lewis Hamilton, o fim de uma era (e o início da hegemonia)
O Circuito das Américas guarda um momento marcante na carreira de Lewis Hamilton, piloto mais vitorioso na história do GP dos EUA com seis triunfos. Em novembro de 2012, o britânico conquistou a última vitória ao serviço da McLaren antes de trocar a equipa inglesa pela Mercedes. Um triunfo que encerrou uma era e antecipou o período hegemónico que estava prestes a construir nos anos seguintes.
Nessa prova, Hamilton partiu do segundo lugar, atrás do então bicampeão mundial Sebastian Vettel (Red Bull), mas conseguiu alcançar a 21.ª vitória da carreira, com uma vantagem de meros seis décimos de segundo para Vettel, num dos finais mais renhidos de sempre no GP dos EUA.
Poucos meses depois, Hamilton assinou com a Mercedes, numa mudança inicialmente vista com ceticismo. O que se seguiu foi um dos capítulos mais dominantes da história do desporto: seis títulos mundiais de pilotos, oito de construtores, num total de 84 vitórias e 78 pole positions.
Quem venceu no ano passado?
Parece que já foi noutra vida, mas a última 'dobradinha' da Ferrari, na altura com Charles Leclerc e Carlos Sainz, aconteceu no ano passado, precisamente no COTA. A liderança da corrida ficou nas mãos do monegasco, que continua a representar a escuderia italiana. Já o piloto espanhol, agora ao serviço da Williams, cruzou a linha de meta a 8,562 segundos de distância.
O pódio foi completado por Max Verstappen, que partiu da segunda posição, mas acabou por perder terreno para Charles Leclerc após ser empurrado para fora da pista por Lando Norris, da McLaren. O britânico, que havia conquistado a pole position, acabou por ser penalizado com cinco segundos e viu a vitória escapar-lhe mais uma vez.
Quem lidera os Campeonatos de Pilotos e Construtores?
O último Grande Prémio, realizado em Singapura, ficou marcado por um pódio animado: George Russell, da Mercedes, conquistou o primeiro lugar, seguido do tetracampeão Max Verstappen, da Red Bull, que tradicionalmente não se costuma destacar neste circuito urbano, e de Lando Norris, da McLaren, que continua firme na luta pelo Campeonato Mundial de Pilotos.
Com o avançar da temporada, a luta pela liderança do Campeonato de Pilotos intensifica-se, com os principais candidatos cada vez mais próximos entre si. A rivalidade mais acesa continua a ser protagonizada pelos dois pilotos da McLaren, separados por apenas 22 pontos. No entanto, Max Verstappen tem vindo a encurtar distâncias de forma consistente e começa agora a perfilar-se como uma ameaça real à disputa interna da equipa britânica que reúne Oscar Piastri e Lando Norris.
Outro dos momentos altos da corrida em Singapura foi a conquista, pela McLaren, do seu 10.º Campeonato Mundial de Construtores. Após terem adiado a consagração em Baku, no Azerbaijão, devido ao abandono do atual líder do campeonato, Oscar Piastri, a equipa britânica conseguiu finalmente levantar o troféu. Com esta vitória, igualaram o recorde da Red Bull de 2023, ao garantirem o título com seis corridas ainda por disputar nesta temporada.
Nesta fase do campeonato, a principal disputa centra-se no ambicionado 2.º lugar da classificação geral. A Mercedes mantém, para já, essa posição com 325 pontos, seguida de perto pela Ferrari, que soma 300. Logo atrás surge a Red Bull, com 290 pontos, estando a apenas 10 da equipa de Maranello, o que promete uma reta final de temporada bastante renhida.

