Guerra no Médio Oriente

Análise

“Trump está a fazer tudo por isso, mas o Nobel da Paz é tecnicamente impossível”

O cessar-fogo entre Israel e o Hamas, mediado pelos Estados Unidos, Turquia, Qatar e Arábia Saudita, está a ser visto como um possível ponto de viragem na guerra que já dura há mais de dois anos. Maria João Tomás reconhece que “há razões para alguma esperança”, mas alerta que o sucesso do acordo dependerá de quem o garante e de quem o implementa.

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A comentadora da SIC defende que a presença da Turquia, país onde a causa palestiniana está “muito presente nas ruas”, é um sinal positivo e “um garante de confiança para o Hamas”. Maria João Tomás destaca ainda o papel do Qatar e da Arábia Saudita, que têm exercido pressão para que o entendimento seja cumprido e sublinha o envolvimento inédito da Indonésia, que “já admitiu enviar tropas” para uma eventual força de manutenção da paz.

Do lado israelita, o cenário é mais complexo. “Netanyahu enfrenta a oposição da extrema-direita e dos partidos ultraortodoxos que não aceitam a solução dos dois Estados”, lembra Maria João Tomás, acrescentando que o primeiro-ministro israelita procura “sobreviver politicamente”, já que enfrenta um julgamento por corrupção.

A comentadora alerta também para as “más memórias” da intervenção britânica na região, evocando a figura de Tony Blair e o papel histórico do Reino Unido na divisão do Médio Oriente. “É essencial que o governo de transição não tenha Blair à frente”, defende, referindo as consequências da invasão do Iraque e o peso simbólico da Declaração Balfour.

Quanto ao papel dos Estados Unidos, Maria João Tomás afasta a possibilidade de Donald Trump vir a receber o Prémio Nobel da Paz.

“Tecnicamente é impossível, porque as candidaturas fecharam em janeiro”, explicou. Apesar disso, admite que o Presidente dos EUA “tem feito tudo para se colocar nesse papel”, num momento em que o anúncio do Nobel coincide com o calendário do cessar-fogo.

A especialista lembra, contudo, que a atual política norte-americana “não abona a favor da pacificação mundial”, citando a mudança do Departamento de Defesa para “Departamento de Guerra”, a perseguição a jornalistas e os discursos sobre anexações territoriais. “Quem é que pode dar um Nobel da Paz a alguém que diz isso?”, questiona.