A parábola da Espada de Dâmocles, do historiador grego Timeu de Tauromênio (c. 356 – 260 a.C) tem vindo a adquirir vários significados desde a sua composição. Para Cícero (c. 106-43 a.C), esta demonstrava que qualquer posição de poder e luxo implica uma ameaça permanente daqueles que desejam apossar-se do mesmo estatuto, enquanto outros argumentam que a sua interpretação poderá ser algo mais semelhante a almejarmos uma vida realizada, apesar do terror constante da morte. Para efeitos do que aqui pretendo abordar, a metafórica “espada suspensa sob o pescoço de Dâmocles por um fio” representa a precária continuidade do nosso projeto civilizacional, um que poderá colapsar a qualquer momento, devido a crescentes ameaças.
Nos últimos meses, tenho vindo a explorar tópicos como os limites da sustentabilidade, a história ambiental e o complexo processo de colapso civilizacional. Com os olhos do mundo colocados na atual ofensiva russa perante a soberania ucraniana, nas vagas de refugiados que se deslocam para a Europa, e nas admiráveis narrativas de resiliência e altruísmo que se elevam desta impiedosa conflagração, também há um receio revigorado relativamente à crescente realização de transitoriedade e vulnerabilidade do nosso projeto civilizacional.
A incursão expansionista de Putin veio evidenciar a profunda interdependência entre países no que concerne a energia; economia global e ‘supply chains’; demografia e estabilidade social; segurança alimentar e obviamente, a insegurança global ligada ao recente assalto bélico a uma central nuclear. Adicionalmente, também o perigoso cenário de um agravamento inadvertido de tensões que poderia arrastar grande parte do globo para uma guerra, sem precedentes na breve história da nossa espécie, torna-se mais admissível a cada dia que passa. Contudo, nem só o espectro de um conflito nuclear que reduziria a habitabilidade do planeta, dizimando a nossa – e muitas outras – espécies, paira sob as nossas cabeças.
Paralelamente à guerra na Ucrânia temos um planeta que está progressivamente a ser industrializado e transformado para satisfazer outra agenda expansionista, a que diz respeito à manutenção e prolongamento do nosso modelo civilizacional e dos estilos de vida a que nos viemos a habituar. Entre as consequências mais evidentes deste assalto ao meio natural estão não só a degradação e simplificação dos sistemas ecológicos, mas também a desorganização do complexo sistema climático da Terra.
Especificamente, a 28 de fevereiro, o IPCC publicou o seu mais recente e funesto relatório, onde declaram que o clima harmonioso e na sua generalidade invariável (na escala geológica do Holoceno, pelo menos), está rapidamente a deteriorar-se, e que a capacidade humana de adaptação está prestes a ser eclipsada. Este relatório foi globalmente uma nota de rodapé face aos eventos que decorrem de momento na Ucrânia, podendo suscitar a impressão de uma seriedade irrisória.
Acompanhando este fenómeno, também outras linhas de investigação inquietantes e ligadas ao ambiente, foram quase completamente ofuscadas desde o início das hostilidades na Ucrânia. Entre as mesmas temos a corroboração que o impacto humano na floresta tropical da Amazónia está a ultrapassar o ponto de não retorno para que esta se transforme numa savana (Vaughan 2022) e que partículas aerossolizadas de pequenas dimensões (resultantes ou de processos naturais como vulcões, ou de origem antropogénica, por exemplo, pela queima de combustíveis fósseis) estão não só a serem responsáveis por uma fração crescente de mortalidade, como a sua presença na atmosfera está a criar um manto que arrefece o planeta, levando ao imbróglio de que a sua redução (por exemplo, pela supressão de uso de combustíveis fósseis) provocará um aquecimento (de proporções incertas) que escapará do controlo de qualquer tipo de adaptação (Fox, 2022).
Finalmente, temos o impacto crescente no ambiente de operações de mineração, uma componente medular de uma alegada transição verde e de promessas vácuas de sustentabilidade. Em particular, desde 24 de Fevereiro que artigos têm evidenciado não só a poluição e destruição de ecossistemas ligadas a estas operações (Cannon 2022), mas também o aumento de resistência e hostilidades daqueles que resistem tais projetos (Ismi & Wijaya 2022).
Para todos os efeitos, a humanidade requer um fornecimento em expansão de metais raros e minerais para perpetuar a nossa sociedade profundamente industrializada do século XXI. A cada dia que passa torna-se, no entanto, mais conspícuo que não há fronteira que escape a este apetite metálico voraz, quer estejamos a falar de florestas tropicais, zonas áridas e desertos (o que linguisticamente tem vindo a ser visto como um consentimento de exploração – por considerarmos que as zonas estão desprovidas de vida ou de ecossistemas vibrantes, o que é errado), no mar profundo ou mesmo em asteroides.
Poderá ainda ser prematuro, mas não é além do reino da possibilidade que a própria invasão russa tenha como um dos principais motivos a expugnação dos vastos recursos minerais presentes em território Ucraniano. Na verdade, antes da guerra, minérios como o ferro estavam entre as maiores exportações do país, para não falar de metais preciosos como o titânio e o infame lítio que muitos portugueses se têm vindo a inteirar nos últimos tempos (SIC Notícias 2022). Coincidentemente, os territórios considerados a 21 de Fevereiro como ‘separatistas’ – particularmente Donetsk – são detentores de consideráveis reservas deste metal, um que é determinadamente indispensável para a descarbonização da economia, aumentando ainda mais a sua importância geoestratégica.
A fim de ablactar a dependência da União Europeia dos recursos fósseis russos, não se fazem tardar os pareceres de especialistas de energia (Yale Environment, 14 Março) que exortam a UE para acelerar a sua transição energética. Mas painéis solares, turbinas eólicas e Teslas não irrompem naturalmente do solo europeu, estes são fruto de cadeias industriais à escala global. É certamente plausível que Vladimir Putin esteja ciente disto, querendo assim controlar os materiais escassos e imprescindíveis à manutenção do nosso projeto civilizacional.
A ironia é que a própria civilização que possibilita o ciclo de ‘vida’ destes equipamentos (desde a sua prospeção até ao seu provável fim num aterro, devido a baixas taxas de reciclagem dos materiais), está visceralmente vinculada à sua contínua produção para que possa perdurar. Em virtude da própria existência de uma sociedade moderna, industrial e globalizada, a humanidade elevou um outro problema ao nível de um risco existencial, as alterações climáticas com influência antropogénica (atenção que distingo aqui entre alterações climáticas antropogénicas e as mudanças naturais climáticas do planeta, visto que estudo história ambiental e como sociedades do passado lidaram com tais variações climáticas).
Para todos os efeitos, não é errado alegar que manter este modelo de civilização que conhecemos irá requerer um tremendo complexo industrial e um fluxo ininterrupto de recursos naturais. E é exatamente aqui que o verdadeiro problema reside. Esta civilização é insustentável, e a sua preservação irá gerar muitos outros conflitos pelo monopólio de recursos que são vistos como imprescindíveis para a sua continuidade, produzindo enormes riquezas para os seus detentores no processo. Se se vier a verificar que a guerra na Ucrânia está a ser fortemente induzida pelo controlo de ditos recursos, então não será certamente a última com tal finalidade, visto que esse é um dos pretextos mais antigos que movem a nossa espécie para confrontos bélicos.
Todavia, enquanto a humanidade cria cenários atrozes de guerra, em segundo plano temos um planeta com um clima cada vez mais imprevisível e instável, uma fundação ecológica cada vez mais degradada, e uma população que não para de crescer, onde cada indivíduo tenta maximizar o seu nível de conforto e afluência, requisitando cada vez mais de um planeta finito. Qualquer um destes eventos é uma tragédia a desenrolar-se em câmara lenta, ou várias espadas de Dâmocles suspensas de forma duvidosa sob os nossos pescoços.
Não sou analista geopolítico nem entendido na matéria de guerra. Passo os meus dias a ler artigos científicos sobre como os nossos antepassados lidaram com mudanças ambientais naturais e aquelas que aceleraram (deflorestação, pesca e caça intensiva, salinização dos solos, mineração, entre outras). Por sua vez, estas iniciam séries de eventos interligados como o aumento da temperatura social, conflitos, quebra de relações comerciais, vagas de refugiados, propagação de doenças, abandono de zonas agrícolas, fome e por fim o colapso de sociedades complexas.
O meu objetivo é mostrar que ao contrário do que o ser humano moderno presume, não só continuamos reféns destas mesmas condições, como o nosso projeto civilizacional se torna mais vulnerável a cada dia que passa (Abegão 2022). A pandemia de Covid-19 revelou que a nossa espécie permanece uma parte integrante da biosfera, negando presunções que nos elevámos acima da mesma; enquanto a guerra na Ucrânia – e a resposta humanitária à mesma – evidenciam não só a discrepante dualidade da natureza humana, como patenteia a interdependência e fragilidade do nosso projeto civilizacional.
A espada permanece suspensa sob as nossas cabeças. Podemos fazer como no filme Don’t Look Up (2021), e não olharmos para cima, ignorando uma realidade que se aproxima, aquela de que esta civilização é insustentável e que o seu colapso se torna mais admissível a cada dia que passa. O maior problema, contudo, é o que foi enunciado por John F. Kennedy há mais de 60 anos. O de que este colapso seja acompanhado de um terror nuclear que reduza a habitabilidade deste planeta, negando a possibilidade de que após a espada caia, outra civilização humana mais sustentável se possa erguer das cinzas.
Esperemos que não, mas o fio que segura a Espada de Dâmocles já pareceu mais inabalável.

