Jorge Sampaio 1939-2021

Jorge Sampaio: um homem discreto e solidário que teve quase todos os cargos políticos possíveis

Lutou contra a ditadura. Defendeu presos políticos. Assumiu várias funções no Partido Socialista e foi Presidente da República em 1996 e 2001. Viveu bem de perto com a dureza da política, mas nunca perdeu a capacidade de se emocionar. Era um homem sensível. Escreveu em jornais e publicou vários livros, jogava golfe e era sócio do Sporting, mas a sua grande paixão era a música.

Jorge Sampaio com a mãe (Arquivo SIC)

Jorge Sampaio com a mãe (Arquivo SIC)

O filho mais velho de Fernanda Bensaúde Branco, natural de Lisboa, professora de Inglês, e do médico António Arnaldo de Carvalho Sampaio, natural de Gémeos, Guimarães, nasceu a 18 de setembro de 1939.

Sete anos depois, no dia 8 do mesmo mês, nasceu o segundo filho do casal, Daniel Sampaio, que seguiu as pisadas do pai. É psiquiatra, professor e escritor.

Durante a infância, Jorge Fernando Branco de Sampaio viveu em Sintra, em Lisboa, nos Estados Unidos e em Inglaterra. Umas vezes com os pais outras com a avó. Nem sempre viveu com o irmão.

Sobre a mãe disse numa entrevista ao jornal Público, em 2010, que "era uma grande professora, severa. Era um rochedo", mas confessa que "foi uma referência imensa". "Falávamos metade em português, metade em inglês. Por vício", recordou.

Discutia literatura com a mãe e política com o pai

Em 2019, voltou a falar publicamente sobre os pais, numa entrevista à TVI. Disse na altura que teve muita sorte. "A minha mãe era mais eficaz, mais pragmática, o meu pai era mais amante da discussão pela discussão, amante da discussão livre. Nunca havia silêncios nas refeições na minha casa".

Parte da infância foi passada em Sintra. Muitas vezes na Praia das Maçãs. Mais tarde, foi para a casa da avó em Lisboa, onde, entre 1949 e 1956, fez o ensino secundário nos liceus Pedro Nunes e Passos Manuel. "Quando andava no liceu, só ao fim de semana estava com os meus pais e o meu irmão. Vivia em casa da minha avó em Campo de Ourique. O meu irmão vivia em Sintra com os meus pais".

O dia em que foi explulso de uma aula

Os tempos do liceu deixaram memórias para sempre. E quando regressa, anos mais tarde, ao local "onde se desenrolou um dos momentos mais importantes da vida como cidadão", Jorge Sampaio não resiste a confessar que um dia foi expulso de uma aula. Tudo por causa de uma caneta.

O jovem Sampaio passou ainda longos períodos nos Estados Unidos e em Inglaterra, devido à profissão do pai. Talvez influenciado pelas frequentes discussões sobre política em casa, acaba por estudar Direito. Em 1961, termina o curso, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Oposição à ditadura: a primeira grande luta

Durante o percurso académico, é eleito presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito e secretário-geral da Reunião Inter Associações Académicas (RIA).

Nesta altura inicia uma ação política de oposição à ditadura. Ainda no início da década de 60, militou no Movimento de Ação Revolucionária (MAR) e começou a colaborar com as revistas de oposição: Seara Nova e O Tempo e o Modo.

Protagonista da crise académica dos anos 60

Jorge Sampaio foi um dos protagonistas da crise académica do início dos anos 60, que esteve na origem do movimento de contestação estudantil, que durou até ao 25 de Abril de 1974, e que abalou o regime.

Quando lidera a decisiva revolta estudantil de Lisboa, em 1962, Sampaio já não era aluno, pois tinha terminado o seu curso no ano anterior.

Era, na altura, um dos mais importantes dirigentes associativos. Logo, tinha de estar presente quando os alunos da Universidade de Lisboa desafiaram o poder político com a celebração do Dia do Estudante, apesar da proibição decretada pelo regime.

A resposta foi uma carga policial que correu a academia do Campo Grande ao Estádio Universitário. Os acontecimentos marcaram o jovem de 22 anos.

Jorge Sampaio durante a luta estudantil (Arquivo SIC)

Jorge Sampaio durante a luta estudantil (Arquivo SIC)

Nos tempos de estudante (Arquivo SIC)

Nos tempos de estudante (Arquivo SIC)

Sampaio chegou a estar preso durante três dias com mais 30 ativistas de uma greve de fome organizada na cantina da Universidade de Lisboa. "Todo o processo fez com que nunca mais fossemos os mesmos. Quem passou por esse processo, quem o viveu, quem o dirigiu", disse Jorge Sampaio em entrevista à RTP em 2012.

A luta académica acabou por empurrá-lo para a vida política ativa.

"Tem muito a ver com o ambiente que vivi nas manifestações, grande banho de uma atitude cívica atuante. Foi com as associações académicas e com a crise académica, onde tive um papel significativo - acho eu - na academia de Lisboa, na ligação a Coimbra e ao Porto. Foi esse acervo de associações de estudantes, que deu luta", disse numa entrevista à TVI, em 2019.

Da advocacia à política

A partir de 1961, começou a exercer advocacia, destacando-se na defesa de presos políticos no Tribunal Plenário. Desempenhou também funções diretivas na Ordem dos Advogados.

Em 1969, foi candidato às eleições para a Assembleia Nacional, pela Comissão Democrática Eleitoral, mas, em 1973, por considerar que não havia condições para a disputa nas novas eleições, não se candidata.

Depois do 25 de Abril de 1974, Sampaio foi um dos impulsionadores do Movimento de Esquerda Socialista, mas sai oito meses depois, no congresso fundador, por incompatibilidade com a orientação ideológica adotada.

Neste mesmo mês casou com Maria José Ritta com quem tem dois filhos: Vera, em 1975, e André, em 1980. O seu primeiro casamento, com Karin Dias, durou quatro anos e terminou em 1971.

Com a mulher, Maria José Ritta

Com a mulher, Maria José Ritta

2007 - Jorge Sampaio coloca o voto da filha na urna, durante o Referendo à despenalização do aborto

2007 - Jorge Sampaio coloca o voto da filha na urna, durante o Referendo à despenalização do aborto

Marcos Borga

Ainda em 1974, foi, com João Cravinho, a Nova Iorque para dar a conhecer à Organização das Nações Unidas e a vários Estados-membros os progressos do Governo português relativamente à descolonização.

No IV Governo Provisório, a convite de Melo Antunes, foi secretário de Estado da Cooperação Externa, entre março e julho de 1975, tendo participado nas negociações para a independência de Moçambique.

Os seguintes governos provisórios não contaram com Jorge Sampaio, que preferiu dialogar com a ala moderada do Movimento das Forças Armadas, assumindo a sua proximidade político-ideológica ao "Grupo dos Nove".

A entrada no Partido Socialista

Logo a seguir ao 25 de Novembro de 1975, e com o fim do Processo Revolucionário em Curso (PREC), funda o Grupo de Intervenção Socialista (GIS), que procurava uma aliança entre os socialistas e as forças comunistas.

Em 1978, aderiu ao Partido Socialista e, nesse mesmo ano, foi eleito deputado à Assembleia da República pelo círculo de Lisboa e reeleito sucessivamente até 1991.

Sampaio entra para o PS em 1978 (Arquivo SIC)

Sampaio entra para o PS em 1978 (Arquivo SIC)

De 1979 a 1984, é membro da Comissão Europeia dos Direitos do Homem no Conselho da Europa. Durante esse período, assumiu várias funções na vida política e partidária, nacional e internacional:

  • chefiou a delegação portuguesa nas conversações para a cooperação com Moçambique, em 1978;
  • integrou o Secretariado Nacional do PS entre 1979 e 1980;
  • foi membro da Comissão Europeia dos Direitos do Homem, no Conselho da Europa entre 1979 e 1984;
  • foi responsável pelas Relações Internacionais do PS de 1986 a 1987;
  • liderou a Bancada Parlamentar do PS de 1987 a 1988.

O terceiro secretário-geral do PS

Em março de 1988, assume funções no Conselho de Estado, por designação da Assembleia da República, durante a Presidência de Mário Soares.

Em janeiro do ano seguinte, com a demissão de Vítor Constâncio, é eleito secretário-geral do PS, o terceiro na história do partido. Desempenha também as funções de copresidente do Comité África da Internacional Socialista.

O mau resultado do PS nas eleições legislativas de 1991, com uma derrota frente ao PSD de Aníbal Cavaco Silva, gera uma forte contestação interna à sua liderança. No congresso extraordinário de 23 de fevereiro de 1992, Jorge Sampaio é substituído por António Guterres no cargo de secretário-geral.

As vitórias em Lisboa

Restava-lhe Lisboa. Nas eleições autárquicas de 1989, Sampaio tinha apresentado a candidatura à frente da coligação "Por Lisboa", resultante de um acordo do PS com o PCP, que contava também com Os Verdes, o MDP/CDE, a UDP e o PSR.

Ganhou, com maioria absoluta, contra a coligação PSD/CDS/PPM, liderada por Marcelo Rebelo de Sousa. Jorge Sampaio tomou posse como presidente da Câmara Municipal de Lisboa a 22 de janeiro de 1990.

No ano seguinte, em agosto, interrompeu as funções autárquicas para se candidatar às eleições legislativas, por inerência do cargo de secretário-geral do Partido Socialista, mas saiu derrotado e reassumiu a presidência da Câmara de Lisboa.

Cumprido o primeiro mandato, Sampaio recandidatou-se nas eleições autárquicas de 12 de dezembro de 1993, novamente com uma coligação de esquerda, obtendo uma maioria absoluta, ainda mais expressiva.

No período em que presidiu à autarquia (1990-1995), Sampaio assumiu diversos cargos em organizações internacionais:

  • presidente da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa);
  • vice-presidente da UCCI (União das Cidades Capitais Ibero-Americanas);
  • presidente do Movimento das Eurocidades;
  • presidente da Federação Mundial das Cidades Unidas;
  • dirigente do Comité das Regiões da União Europeia e vice-presidente da Junta Metropolitana de Lisboa, entre 1992 e 1994.

Durante o seu mandato, em 1994, Lisboa foi Capital Europeia da Cultura e foram criados os pilares para a realização da EXPO’98.

A chegada a Belém

Em 1995, Jorge Sampaio apresenta a candidatura às eleições presidenciais. Recebe o apoio de inúmeras personalidades, independentes e de outras áreas políticas, com destaque na vida política, cultural, económica e social, e do Partido Socialista.

Foi eleito Presidente da República em 14 de janeiro de 1996 e reeleito em 2001.

No início do primeiro mandato foi operado ao coração. A chefia do Estado foi assegurada pelo presidente do Parlamento, Almeida Santos.

O Presidente das emoções

O quinto Presidente da República português depois da ditadura marcou pelos longos discursos onde as suas palavras exaltavam a liberdade e a cidadania.

Jorge Sampaio entusiasmava-se com a mensagem que transmitia, da mesma maneira que vibrava com os afetos que recebia.

Em 2004, na final do Euro de futebol, em Lisboa, também foram dele as lágrimas dos jogadores derrotados.

"As lágrimas que ontem vi nos vossos rostos confirmaram o vosso patriotismo, por isso parabéns", disse Sampaio.

Partilhar dessa forma a dor de uma seleção de futebol não apanhou de surpresa um país que, desde 1996, ano em que foi eleito, se habituou ao Presidente que não escondia a emoção.

Em 2019, Sampaio disse que o programa do Presidente é a Constituição da República", por isso procurou sempre ter uma relação de proximidade grande com as pessoas.” “Visitei todos os concelhos do País, fui o primeiro a fazer isso na altura", disse em entrevista à TVI.

Conviveu com quatro primeiros-ministros diferentes: António Guterres, José Manuel Durão Barroso, Pedro Santana Lopes e José Sócrates. A sua presidência viria a conhecer momentos conturbados na fase final do segundo mandato, que o levaram a tomar decisões polémicas.

Os livros, as condecorações e as distinções

Jorge Sampaio manteve, ao longo dos anos, uma constante intervenção político-cultural através da presença assídua em jornais e revistas (Seara Nova, O Tempo e o Modo, República, Jornal Novo, Opção, Expresso, O Jornal, Diário de Notícias e Público, entre outros).

Em 1991, publicou, sob o título A Festa de Um Sonho, uma coletânea dos seus textos políticos.

Em 1995, é editado o seu livro Um Olhar sobre Portugal, no qual responde a personalidades de vários setores da vida nacional, configurando a sua perspetiva dos problemas do País.

Em 2000, publica o livro Quero Dizer-vos, em que expõe a sua visão dos desafios que se põem à sociedade portuguesa. As suas intervenções presidenciais têm sido reunidas nos livros Portugueses I, II, III, IV, V e VI.

Foi agraciado com várias condecorações e tem recebido diversas distinções nacionais e estrangeiras.

O Presidente timorense Taur Ruak e o antigo Presidente português Jorge Sampaio.

O Presidente timorense Taur Ruak e o antigo Presidente português Jorge Sampaio.

Manuel Almeida / Lusa

Depois da Presidência

Em Abril de 2006, tomou posse como Conselheiro de Estado, na qualidade de antigo Presidente da República.

No mês seguinte, foi nomeado enviado especial do secretário-geral da ONU para a luta contra a tuberculose.

Museu da Presidência

Museu da Presidência

Em 2007, tornou-se presidente do Conselho Consultivo da Universidade de Lisboa. No mesmo ano, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, endereçou um convite ao ex-Presidente português para ser o primeiro representante da ONU para o Diálogo da Civilizações, um cargo equiparável a subsecretário-geral da organização.

Exerceu estas funções até fevereiro de 2013. Promoveu iniciativas políticas com vista a fomentar o diálogo e compreensão entre os povos, procurando contribuir para uma abordagem concertada dos desequilíbrios mundiais.

Sampaio continuou sempre atento à vida política em Portugal e, em 2012, em entrevista à SIC Notícias, o antigo chefe de Estado não poupou críticas à situação política e económica do País.

O apoio aos estudantes sírios

Na sequência da guerra civil na Síria, criou, para o ano académico 2013/2014, a Plataforma Global de Assistência Académica de Emergência a Estudantes Sírios.

Em 2016, o Presidente da República elogiou o trabalho da Plataforma liderada por Jorge Sampaio.

Marcelo Rebelo de Sousa defendeu a importância de os jovens refugiados poderem prosseguir os seus estudos, e referiu que aquela plataforma já permitiu integrar "muitos, muitos estudantes sírios em universidades de dez países".

Hugo Correia

A homenagem aos 80 anos

A última grande homenagem aconteceu na sede do PS em 2019. Jorge Sampaio fazia 80 anos e teve várias paixões de uma vida em palco. A música clássica, a defesa dos direritos dos refugiados e a política, onde se notabilizou e desempenhou quase todos os cargos possíveis.

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