Ano em revista

Descarrilamento mortal do elevador da Glória marcou 2025 e fez parar ascensores de Lisboa

Foi um dos acontecimentos que mais marcou o último ano.  O acidente levou à suspensão de todos os ascensores históricos de Lisboa, que se mantém três meses depois. As investigações revelaram que o cabo que cedeu não respeitava especificações para transporte de pessoas.

Descarrilamento mortal do elevador da Glória marcou 2025 e fez parar ascensores de Lisboa
Pedro Nunes/Reuters

O histórico elevador da Glória, em Lisboa, descarrilou a 3 de setembro, numa tragédia com 16 mortos e 22 feridos, sobretudo turistas estrangeiros, que fez parar todos os ascensores da capital, mantendo-se ainda hoje a interrupção, sem previsão de retoma.

"Lisboa está de luto e é um momento trágico para a nossa cidade", afirmou o presidente da Câmara Municipal, Carlos Moedas (PSD), no local do acidente.
Loading...

Em 140 anos de história, este foi o pior sinistro com o ascensor da Glória, que liga a Praça dos Restauradores ao Jardim de São Pedro de Alcântara, num percurso de 276 metros, com um desnível acentuado.

Classificado como Monumento Nacional, o elevador era muito procurado por turistas, transportando "cerca de três milhões de passageiros por ano", segundo a Câmara de Lisboa, acionista única da empresa municipal Carris, responsável pela gestão deste equipamento de transporte público.

Perante a tragédia, que foi notícia a nível internacional, o Governo decretou um dia de luto nacional e a autarquia três dias de luto municipal.

Enquanto se prestava apoio aos 22 feridos, maioritariamente turistas estrangeiros, foram homenageadas as 16 vítimas mortais: oito homens e oito mulheres, com idades entre 36 e 82 anos, e que eram de nacionalidade portuguesa (cinco), britânica (três), sul-coreana (duas), canadiana (duas), suíça (uma), francesa (uma), ucraniana (uma) e norte-americana (uma).

A segurança deste tipo de equipamentos foi posta em causa e, além da inoperacionalidade do elevador da Glória, foi suspensa "de imediato" a atividade dos ascensores da Bica e do Lavra e do funicular da Graça, para vistorias técnicas. Três meses depois, as inspeções ainda decorrem, segundo a Câmara de Lisboa, e "após a conclusão dos relatórios técnicos será definido o calendário" para a retoma da operação.

Em representação dos trabalhadores da Carris, o dirigente sindical Manuel Leal, da Fectrans e do STRUP, relatou "queixas sucessivas" quanto à manutenção dos ascensores, inclusive o da Glória, associando os problemas à externalização deste serviço, contratualizado com a MNTC - Serviços Técnicos de Engenharia.

No entanto, Carlos Moedas garantiu que "nunca" recebeu qualquer alerta e afirmou que "nesta tragédia não há nenhum erro que possa ser imputado a uma decisão do presidente da Câmara", considerando que "seria uma cobardia" demitir-se, mas prometendo fazê-lo se alguém provasse que o acidente resultou da sua ação, em particular na Carris.

Loading...

Depois de participar numa reunião do Conselho de Ministros, a convite do Governo, o autarca convocou uma reunião do executivo municipal para 8 de setembro, em que foram aprovadas várias medidas, desde a criação de um fundo de apoio às vítimas ao desenvolvimento de um novo sistema tecnológico para garantir a segurança dos ascensores, que ainda estão em curso.

O processo de apoio às vítimas e às suas famílias está a ser assegurado pela Fidelidade, seguradora que disse à Lusa ser ainda "prematura a identificação de um valor global" quanto à atribuição de apoios, inclusive indemnizações.

O acidente ocorreu a um mês das eleições autárquicas, com Carlos Moedas a recandidatar-se a presidente da Câmara de Lisboa, e os partidos políticos exigiram o apuramento de responsabilidades com celeridade. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, defendeu que "o juízo sobre a responsabilidade política" de Moedas era "dos eleitores".

Loading...

Em 12 de outubro, o social-democrata foi reeleito, pela coligação PSD/CDS-PP/IL, com 41,69% dos votos, e até reforçou o resultado de 2021 (34,25%), derrotando a socialista Alexandra Leitão (PS/Livre/BE/PAN), que teve 33,95%.

Várias entidades investigam o acidente, incluindo o Ministério Público, com os órgãos de polícia criminal, e o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários, que em outubro revelou que o cabo de união das duas cabinas do elevador da Glória, o qual cedeu, não respeitava especificações nem estava certificado para transporte de pessoas.

Na sequência dessas conclusões, a administração da Carris, presidida por Pedro de Brito Bogas, demitiu-se. Recentemente, Moedas indicou Rui Lopo, atual administrador na Transportes Metropolitanos de Lisboa, para liderar a futura administração da Carris.