Acidente no Elevador da Glória

Carris deu informação errada sobre "cabo irregular"? Empresa defende que não

Informação inicial era de que cabo era utilizado "há cerca de seis anos", mas foi corrigida no relatório preliminar do GPIAAF. Carris alega que "nunca prestou informação" errada como descreve a notícia do Expresso.

Carris deu informação errada sobre "cabo irregular"? Empresa defende que não
Pedro Nunes/Reuters

O cabo do elevador da Glória, em Lisboa, que não respeitava especificações exigidas, era usado desde 2022, segundo o relatório do preliminar do GPIAAF. No entanto, a informação inicial indicada pela Carris, segundo o jornal Expresso, era de que este era utilizado "há cerca de seis anos".

A notícia foi avançada esta sexta-feira pelo Expresso indicava que a empresa municipal "deu informação errada à investigação do acidente com o elevador da Glória", fazendo uma análise entre a nota informativa do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), divulgada três dias após a tragédia, e o relatório do preliminar do GPIAAF, concluído no prazo de 45 dias e divulgado na segunda-feira.

A primeira nota informativa do GPIAAF referia que o tipo de cabo presente neste ascensor era usado "há cerca de seis anos", mas a informação foi clarificada no relatório preliminar, com a indicação de que esse tipo de cabo era utilizado desde "dezembro de 2022", acrescentando que o mesmo não respeitava as especificações da Carris, nem estava certificado para uso em transporte de pessoas.

A data inicialmente divulgada quanto ao uso deste tipo cabo apontava para 2019, o que responsabilizava a anterior gestão da Carris, assim como o anterior presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina (PS), uma vez que o município é o acionista único desta empresa de transporte público.

Perante a notícia do Expresso, a atual administração da Carris - sob liderança de Pedro de Brito Bogas, que apresentou a demissão na quarta-feira, renúncia que foi aceite pelo presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas (PSD) - esclareceu que "nunca prestou a informação aludida na notícia, desde logo porque na altura se encontrava a apurar a factualidade referente à aquisição do cabo".

"Os referidos dados não constam da vastíssima documentação que a Carris remeteu ao GPIAAF, no âmbito da investigação. O conselho de administração da Carris não foi, até à data, inquirido pelo GPIAAF no âmbito da investigação", indicou a empresa municipal, em comunicado.

A Lusa tentou uma reação por parte do gabinete do presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas (PSD), que remeteu para a Carris.

Dar informação errada é "muito grave"

Em declarações à agência Lusa, a recém-eleita vereadora do PS Alexandra Leitão disse, entretanto, que "prestar informações incorretas ao gabinete que faz a inspeção dos acidentes, seja deliberadamente ou não, é muito grave".

Alexandra Leitão considerou a alteração das datas quanto ao uso deste tipo cabo, passando de 2019 para 2022, é também relevante no plano político, realçando que o primeiro documento do GPIAAF foi divulgado antes das eleições autárquicas de 12 de outubro e "tinha uma data errada, porque, deliberadamente ou não, a Carris prestou essa informação errada".

"Informação errada essa que, também, deliberadamente ou não, obviamente que beneficiou, objetivamente, o na altura candidato Carlos Moedas, que utilizou isso para se desresponsabilizar, como, aliás, tem feito em todo este processo", declarou a socialista, lembrando que o atual e reeleito presidente da Câmara de Lisboa "foi muito rápido e muito lesto a, sem especular, sacudir a água do capote" quando saiu a nota informativa do GPIAAF, com a atribuição da responsabilidade ao anterior mandato municipal 2017-2021, liderado pelo PS.

Falando antes da reação da Carris à notícia do Expresso, Alexandra Leitão adiantou que a vereação do PS na Câmara de Lisboa vai apresentar um requerimento para esclarecer "quem prestou esta informação incorreta" e com base em que documentos: "Se se concluir que as informações foram incorretamente prestadas, se for deliberado, é gravíssimo, é inclusivamente crime. Se não foi deliberado, é na mesma muito grave, muito, muito grave."

Em comunicado, a vereadora do BE, Beatriz Gomes Dias, considerou, por seu turno, que "estas falhas são gravíssimas e revelam uma cultura de opacidade e irresponsabilidade na gestão da Carris e da Câmara Municipal de Lisboa", tendo avançado com um requerimento a exigir "explicações urgentes sobre as informações falsas prestadas pela Carris" ao GPIAAF.

Para o BE, a demissão da atual administração da Carris "é um primeiro passo, mas absolutamente insuficiente face à dimensão do problema".

A este propósito, o PCP lembrou o requerimento apresentado na quarta-feira em reunião extraordinária do executivo municipal a solicitar mais esclarecimentos na sequência do relatório preliminar do GPIAAF, mas que ainda não obteve resposta.

As questões do PCP são sobre as orientações e respetivo calendário para que a Carris cumpra as recomendações do relatório preliminar do GPIAAF e o que se prevê quanto à revisão da relação contratual com a empresa prestadora de serviços de manutenção, assim como qual o ponto de situação da auditoria interna e externa desencadeada pela Carris no âmbito do acidente.

O descarrilamento do elevador da Glória, sob gestão da empresa municipal Carris, ocorreu no dia 3 setembro e provocou 16 mortos e duas dezenas de feridos, entre portugueses e estrangeiros de várias nacionalidades.