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Paralisia do sono. “Às vezes os vultos sentavam-se na minha cama ou deitavam-se ao meu lado”

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Já alguma vez acordou de um sonho com o corpo paralisado, sem se conseguir mexer? Tentou gritar por ajuda e não conseguiu? A paralisia do sono é um distúrbio do sono comum e normal, relatado desde a antiguidade, que se pode tornar assustador quando, em alguns casos, provoca alucinações. Na cultura popular está associado à presença de demónios ou extraterrestres. À conversa com especialistas do sono fomos perceber, afinal, o que é este distúrbio.

“Comecei a ver vultos. Não conseguia virar a cara para olhar para eles. Às vezes, os vultos sentavam-se na minha cama ou deitavam-se ao meu lado. Às vezes, sentia peso no peito como se alguém estivesse sentado em cima de mim.”

A experiência de Diana - nome fictício - é semelhante à relatada por muitas outras pessoas que, em algum momento da vida, já tiveram um episódio de paralisia do sono. É um distúrbio mais comum do que se imagina, mas para quem o vive pode provocar verdadeiros momentos de pânico.

Diana era uma adolescente quando começou a ter estes episódios. Durante três anos, dos 13 aos 16, acordava de noite, sem se conseguir mexer ou falar. Por muito que tentasse, o corpo não reagia. Queria pedir ajuda e não conseguia.

“Acordava a meio da noite e não me conseguia mexer, nem falar, nem gritar. Por muito que me tentasse mexer, sentia o corpo rígido e não conseguia. No início, só via o quarto meio às escuras”, contou à SIC Notícias.

Estava acordada e lúcida, mas o corpo tinha ficado preso no sono. Mais tarde, começou a ver vultos. Os episódios de paralisia do sono não a deixavam apenas paralisada, mas provocavam-lhe também o que são as chamadas ‘alucinações do sono’. Via vultos, sentia presenças no quarto e ouvia vozes.

“Senti medo e pânico. Tentava-me mexer o tempo todo e no dia seguinte tinha muitas dores musculares e sentia muito cansaço. Comecei a dormir muito mal e a sofrer de ansiedade. Estava muito cansada na escola e dormia à tarde quando chegava a casa. Depois, à noite, não conseguia dormir.”

“Eu tinha muito medo”

Fernando, à semelhança de Diana, teve o primeiro episódio de paralisia do sono na adolescência. Tinha 15 anos quando, pela primeira vez, acordou sem se conseguir mexer.

Tinha a perceção do ambiente exterior, mas não me conseguia movimentar. Eu ouvia vozes, tinha medo, muito pânico. Até que chegava o momento em que conseguia ‘acordar’.

Estes episódios ocorreram com frequência até aos seus 25 anos. Seguiram-no até à faculdade e aconteciam várias vezes por semana. Fernando começou a ir para a cama apenas quando tinha muito sono, para evitar que acontecessem, e as consequências começaram a fazer-se sentir no quotidiano.

Dormia mal e, por isso, sofreu “grandes oscilações de humor, um quadro depressivo, falta de vontade de fazer as coisas, de encontrar pessoas, de trabalhar”, revelou.

Demónios ou extraterrestres? As explicações da cultura popular

"O Pesadelo" (1781), pintura de Henry Fuseli, é uma representação da paralisia do sono.

"O Pesadelo" (1781), pintura de Henry Fuseli, é uma representação da paralisia do sono.

Henry Fuseli, Domínio Público

A paralisia do sono é a doença do sono mais conhecida desde a antiguidade, explicou a neurologista Teresa Paiva em entrevista à SIC Notícias. Está descrita em quase todas as culturas, mesmo as mais primitivas, e as suas interpretações variam de indivíduo para indivíduo.

Há quem veja demónios, fantasmas, outros descrevem extraterrestres, animais escuros e peludos. Na cultura portuguesa, a paralisia do sono era, até o século XX, associada ao ‘Fradinho da Mão Furada’, uma personagem de folclore. Sentava-se em cima das pessoas durante a noite e mexia em objetos da casa, tirando-os do sítio.

“A paralisia do sono foi sempre dada como uma coisa esquisita - era uma bruxa que estava em cima do peito e não deixava respirar, um demónio em cima do peito. Antigamente eram os demónios, as bruxas que se dava como interpretação, atualmente são os extraterrestres, é um extraterrestre que paralisa a pessoa. As explicações culturais são diferentes das fisiológicas. Há sempre algo um bocadinho estranho nisto de não sermos capaz de nos mexermos”, explica a neurologista.

“Quando surgem alucinações as pessoas ficam terrificadas, mas é um fenómeno cultural, sobretudo em pessoas mais tendentes a pensar em coisas paranormais”, esclarece Miguel Meira e Cruz, diretor do Centro Europeu do Sono e da Unidade de Sono do Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa.

A paralisia do sono é um fenómeno decorrente de uma alteração do estado do sono e, de forma simples, explica-se como a experiência de acordar e não ser capaz de se mexer ou de falar. Mas a explicação fisiológica vai muito mais além.

O sono é constituído por ciclos que, geralmente, duram 90 minutos. Adormecemos e durante cerca de 15 minutos passamos por uma primeira fase: o sono inicial, muito leve. Se não acordarmos, o corpo entra no sono intermédio, que representa cerca de 45% deste ciclo de 90 minutos. Depois, de repente, entramos numa “fase paradoxal”: o chamado sono R.E.M. (Rapid Eye Movement, em inglês), e é aqui que sonhamos de forma vívida.

Durante o sono R.E.M., a respiração acelera, a frequência cardíaca também e a nossa atividade cerebral, que nas outras fases do sono era lenta, passa a ser rápida, “indistinguível do que acontece na vigília, quando acordamos” explica Joaquim Moita, pneumologista e Presidente da Associação Portuguesa do Sono.

O interruptor que é desligado

São estas ondas cerebrais rápidas que nos permitem sonhar. Mas, para que o cérebro esteja ativo nessa fase sem que a componente motora também o esteja, existe um interruptor que é desligado - os nossos músculos.

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Se transformarmos em movimento o que estamos a sonhar, pode ser desagradável. Por isso, existe um travão dos músculos. Se correr tudo bem, existe atonia muscular, todos os músculos param exceto os oculares e o diafragma, para respirarmos, tudo o resto fica paralisado”, explica Joaquim Moita.

A paralisia acontece quando, subitamente, o corpo sai do sono R.E.M. para a vigília, o acordar, mas o ‘interruptor’ dos músculos continua desligado.

“Quando passamos de um sono R.E.M. para o despertar e tomamos consciência do que está à nossa volta, mas o interruptor ainda não ativou os músculos, acontece a paralisia. A pessoa está acordada, mas não se consegue mexer”, clarifica Miguel Meira e Cruz.

Estes episódios podem ter uma duração que varia entre alguns segundos a poucos minutos. É um “processo benigno, que não precisa de medicação nem tratamento” e tem tendência a afetar pessoas mais ansiosas e com sono irregular.

“Há quem tenha esporadicamente e há quem tenha com mais regularidade. É esperar que termine - acalmar, não agitar”, diz Teresa Paiva.

Quando ficar alerta: a paralisia pode ser um sintoma de uma doença rara

A paralisia do sono, quando acontece de forma recorrente, pode estar associada a estados de ansiedade e medo e, por isso, ter alguns efeitos no dia-a-dia, como a diminuição da qualidade do sono, insónias, cansaço e sonolência. No entanto, é preciso estar atento. Em conjunto com outros sintomas, a paralisia do sono pode ser um sinal de narcolepsia, uma doença rara e debilitante.

Em Portugal, existem cerca de 400 pacientes com narcolepsia. É uma doença “altamente incapacitante” que se explica por ataques repentinos de sono, mesmo durante o dia, associados à perda de força muscular.

Aprender a lidar com a paralisia do sono

A experiência pode ser traumática e, para quem a vive de forma recorrente, pode mesmo gerar ansiedade e medo de dormir, mas deve saber que a paralisia do sono é um fenómeno comum e perfeitamente normal.

“As pessoas aprendem estratégias para lidar. É chato porque nem se consegue gritar a pedir ajuda. Pode ser aflitivo. Há pessoas que aprendem estratégias, outras habituam-se, outras continuam a ter sempre algum receio”, afirma Teresa Paiva.

Para tentar evitar que aconteçam, pode implementar alguns hábitos na sua vida. A chamada ‘higiene do sono’ contribui para que durmamos mais e melhor e, por isso, tenhamos menos distúrbios durante o sono.

“Praticar exercício físico, evitar excesso de peso, evitar reflexões copiosas, evitar alimentos e bebidas estimulantes, procurar locais para dormir calmos, com pouca luz, confortáveis e ter um horário regular de sono”, enumera Miguel Meira e Cruz.

No limite, procure ajuda. Não sofra em silêncio. “Há maneiras de se tratar, há remédios, não é preciso continuar a ter sem se tratar”, diz a neurologista Teresa Paiva.

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