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Rui Costa: “O presidente ser remunerado nem é assunto para mim, estive cinco anos sem salário”

Com as eleições do Benfica marcadas para 25 de outubro e seis candidatos na corrida, a possibilidade de o presidente do clube ser remunerado tem gerado debate. Os novos estatutos, ao contrário dos anteriores, permitem que o líder encarnado receba salário pelo exercício das suas funções.

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O tema tem marcado a atual campanha eleitoral, sobretudo depois de João Noronha Lopes ter afirmado que não prescindirá desse direito, considerando que se trata de uma prática “mais transparente”.

Rui Costa, por sua vez, desvaloriza completamente a questão: “O presidente ser remunerado nem é assunto para mim. Não estou no Benfica por causa disso. Nunca estive”, garante.

O atual presidente lembra que está “há cinco anos sem salário” e assegura que, mesmo em caso de reeleição, a situação se manterá.

“Não sou um benfiquista de ocasião e os benfiquistas sabem disso. Não cheguei ao Benfica ontem. Não me interessa a remuneração. Caso contrário, nem tinha voltado ao Benfica para jogar futebol, quanto mais para ser dirigente. A parte da remuneração nem sequer está em agenda.”

"Quem me dera ter jogadores a ganhar 8 milhões por ano. O nosso teto salarial é de 4 milhões brutos”

À margem da última gala da FPF, o presidente do FC Porto, André Villas-Boas, afirmou que o Benfica tinha vários jogadores com salários superiores a oito milhões de euros por ano. Rui Costa reagiu de imediato, classificando as declarações como falsas, e voltou agora a esclarecer o tema:

“Quem me dera ter jogadores a ganhar esse valor por ano. Era bom sinal”, afirmou o presidente encarnado.

Rui Costa garantiu que a realidade financeira do clube está longe desses números.

“Temos um teto salarial de quatro milhões brutos e, com prémios, pode subir no máximo mais 500 mil euros. E isso já é muito bom para nós. Só conseguimos chegar a esse patamar porque reduzimos o número de jogadores emprestados, aos quais continuávamos a pagar salário, libertando margem para o plantel principal.”

O dirigente sublinha que a limitação salarial é um reflexo da realidade do futebol português, que continua a perder talento para mercados mais competitivos:

“Se alguém disser que não vai vender este jogador, que vai amarrar aquele, está a mentir. Sei que os benfiquistas não gostam de ouvir isto, mas em todos os mercados é natural que existam saídas.”

Rui Costa aponta dois motivos principais para essas vendas.

“Primeiro, há negócios impossíveis de rejeitar para um clube do campeonato português. Tivemos agora o exemplo do Carreras, com o Real Madrid a pagar o valor da cláusula [50 milhões de euros] . Além disso, há o lado do próprio jogador.”

O presidente das águias reconhece a dificuldade de competir com a força financeira dos grandes clubes europeus: “É muito difícil convencer um jogador a ficar quando aparece um colosso financeiro a oferecer o dobro ou o triplo, por maior que seja a vontade do clube em mantê-lo.”

Ainda assim, Rui Costa prefere olhar para o lado positivo da evolução do mercado.

“É de elogiar que o Benfica e outros clubes, como o FC Porto, já consigam investir valores elevados em transferências para garantir um jogador. Esse é um sinal de crescimento. Onde não podemos mesmo competir é nos salários. O Benfica é um colosso europeu, mas não está no top 5 da Europa e não consegue acompanhar essas ofertas.”

“Quando contactei Mourinho, não sabia se ele queria regressar já a Portugal, mas ao Benfica disse logo que sim”

Pela segunda época consecutiva, o Benfica muda de treinador após o fecho do mercado e numa fase inicial da temporada. Depois da saída de Roger Schmidt no ano passado, o cenário repetiu-se esta época com a saída de Bruno Lage.

Rui Costa admite que não gostaria de ver tanta instabilidade, mas sublinha que os dois casos foram distintos.

“Schmidt vinha de uma grande época, em que foi campeão, e de uma não tão boa. Apostámos na terceira pelo trabalho que tinha sido desenvolvido no primeiro ano. Em relação a Bruno Lage, o Benfica não iria ter pré-época. Não podia mudar de treinador antes do Mundial de Clubes, sem tempo para treinar, quando ele já conhecia o plantel. E o mesmo se aplicava ao arranque da Supertaça e da Liga dos Campeões, que eram muito importantes para nós.”

O presidente das águias reconhece que as trocas de treinador têm sido decisões difíceis, mas inevitáveis: “No Benfica há uma tremenda pressão, de todos os lados. Nunca é nossa intenção deixar sair um treinador no início da época, mas nestes dois casos foi necessário.”

Com a saída de Lage, o Benfica avançou rapidamente para José Mourinho, que se encontrava livre depois de ter deixado o Fenerbahçe, precisamente após uma eliminação europeia frente aos encarnados. Rui Costa recorda como o processo se desenrolou.

“Quando o contactei, não sabia se ele queria regressar já a Portugal, se não considerava ser ainda demasiado cedo. Tinha essa dúvida. Mas ao Benfica ele disse logo que sim.”

A partir desse momento, garante o presidente das águias, o acordo tornou-se simples: “Foi uma operação rápida, porque foi muito fácil. Houve vontade do Benfica em trazer Mourinho e uma vontade férrea de Mourinho em treinar o Benfica. Agora, com o passar do tempo, vejo um treinador feliz por estar nesta casa e isso também me deixa muito contente.”