Orçamento do Estado

Marcelo percebeu que "tentação" de eleições antecipadas "tem estado latente"

A jornalista do Expresso, Ângela Silva, analisa a situação política atual.

António Costa deu um "sinal claro" de que há um esforço da parte do Governo para conseguir um entendimento à esquerda que permita viabilizar o Orçamento do Estado para 2022, disse, esta quinta-feira, a jornalista do Expresso Ângela Silva.

Numa análise à situação atual, em que está em cima da mesa a possibilidade de uma crise política, Ângela Silva sublinhou que existem questões que a esquerda reivindica que não podem ser acolhidas no Orçamento, mas que poderão vir a ser aprofundadas ao mesmo tempo que se vai debater o OE na especialidade, nomeadamente, questões de matéria laborar e do estatuto do SNS.

"Parece que há um sinal positivo. (...) A ministra da Saúde diz que o orçamento pode ser melhorado na área da saúde", acrescentou.

António Costa quer eleições antecipadas?

"Há uma dúvida instalada na opinião pública se António Costa não estará a fazer uma encenação de que fez tudo para agradar à esquerda e que a malandra da esquerda chumbou o orçamento e, a partir daí, avançar para umas legislativas antecipadas em que teria imenso capital de queixa", referiu a jornalista.

Apesar de ser um cenário aliciante para António Costa, que poderá tentar alcançar o "sonho" de obter uma maioria absoluta, não deixa de ser também plano arriscado. "António Costa percebeu bem nas autárquicas que a teoria de ciclos é uma realidade, há uma altura em que o poder se desgasta", alertou Ângela Silva, fazendo referência ao que se passou na Câmara de Lisboa, onde o PS perdeu para o PSD.

Em caso de eleições antecipadas, o Bloco de Esquerda e o PCP poderão também ser penalizados nas urnas.

Os recados de Marcelo

O Presidente da República afirmou esta quinta-feira que "a faca e o queijo estão nas mãos dos partidos" e que quis ser preventivo ao avisar que um chumbo do Orçamento provavelmente conduzirá a eleições antecipadas.

"Marcelo é daqueles que, provavelmente, sentiu em determinados momentos que o primeiro-ministro tinha uma tentação de provocar uma crise", afirmou a jornalista do Expresso, lembrando que "há dois ou três anos, em entrevistas, era António Costa que agitava o papão das eleições antecipadas".

De acordo com Ângela Silva, o Presidente da República percebeu que este Orçamento seria muito mais difícil de negociar do que os anteriores, uma vez que os comunistas e os bloquistas têm perdido com a geringonça.

"Marcelo vem explicar ao país que a situação é muito clara: ou viabilizam o OE ou, com eleições antecipadas, o país perde seis meses. (...) É explicar à opinião pública que a crise política é prejudicial. Ele também conta que isso exerça pressão sobre os agentes políticos", referiu.

O Presidente da República irá receber esta sexta-feira os partidos com assento paramentar no Palácio de Belém. "Marcelo ouvirá os partidas mas quer, sobretudo, fazer à porta fechada a campanha que tem estado a fazer em público, dramatizando ao máximo", concluiu.

Oposição está preparada para uma crise política?

O líder do PSD, Rui Rio, pediu ao Conselho Nacional do partido para adiar as diretas para depois da votação do Orçamento do Estado, alegando que o PSD tinha que se preparar para umas eleições legislativas antecipadas.

Para Ângela Silva, o "entusiasmo" de Rio foi um "sinal de desespero". A jornalista do Expresso considera que normal seria se a disputa interna fosse acelerada para se perceber quem seria o candidato a primeiro-ministro.

"Aquilo que Rui Rio fez foi tentar fugir da disputa com Paulo Rangel", sublinhou.