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Uso terapêutico de psicadélicos: promessas e riscos no tratamento de doenças mentais

Investigadores, clínicos e especialistas em ética reuniram-se na Fundação Champalimaud para debater o uso terapêutico de substâncias psicadélicas na saúde mental. Em Portugal, já decorrem experiências com cetamina e psilocibina, com resultados encorajadores, mas os especialistas alertam para a necessidade de cautela, estrutura de apoio adequada e enquadramento regulamentar rigoroso.

Uso terapêutico de psicadélicos: promessas e riscos no tratamento de doenças mentais
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Entre o entusiasmo da ciência e a cautela da ética, cresce o interesse pelo uso terapêutico de psicadélicos. Na Fundação Champalimaud, investigadores, clínicos e filósofos debateram como estas substâncias, que prometem tratar depressão, ansiedade e trauma, podem ser integradas na medicina moderna sem perder de vista a segurança, o enquadramento legal e a dimensão humana.

No evento Psychedelic Therapy: From Evidence to Equity, que decorreu a 1 de outubro na Fundação Champalimaud em Lisboa, clínicos, investigadores, representantes de doentes, decisores políticos e especialistas em ética reuniram-se para discutir as fronteiras de uma área que promete revolucionar a saúde mental.

“O objetivo foi discutir o uso terapêutico de substâncias psicadélicas e refletir sobre o enquadramento ético, regulatório e social do seu potencial clínico”, explicou à SIC Notícias Albino Oliveira Maia, diretor da Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud.

A iniciativa surgiu no contexto do consórcio europeu PsyPal, financiado pela União Europeia, que estuda a utilização da psilocibina - o composto ativo de certos cogumelos - para aliviar sintomas depressivos em doentes com doenças graves.

“A Fundação Champalimaud tem a responsabilidade de implementar o ensaio com psilocibina em pessoas com Doença de Parkinson. Este encontro foi também uma oportunidade para reunir os parceiros europeus e envolver o público português num debate que se está a tornar cada vez mais relevante”, acrescentou o psiquiatra.
Ilustração de "cogumelos mágicos"
KATERYNA KON/SCIENCE PHOTO LIBRA

As experiências e os riscos

Entre os oradores convidados esteve Jules Evans, filósofo e investigador britânico, conhecido pelo estudo das experiências difíceis associadas ao uso de psicadélicos. Diretor do Challenging Psychedelic Experiences Project, Evans dedica-se a compreender os efeitos menos explorados destas substâncias - os que podem deixar marcas psicológicas ou espirituais duradouras.

“Interessei-me por psicadélicos na adolescência. Estava fascinado por estados alterados de consciência, misticismo e também por hedonismo. Mas tive uma experiência que me deixou com PTSD (perturbação de stress pós-traumático). Recuperei graças à terapia cognitivo-comportamental e à filosofia estóica, por isso escrevi o meu primeiro livro Philosophy for Life and Other Dangerous Situations”, contou à SIC Notícias.

Desde então, escreveu mais dois livros sobre estados alterados de consciência e criou, em 2022, um projeto dedicado a apoiar pessoas que enfrentam dificuldades após experiências psicadélicas. “Não havia investigação nem apoio suficiente para essas pessoas. Este é o nicho em que me concentro, mas é apenas uma pequena parte de um cenário psicadélico muito mais vasto”.

O que são psicadélicos

Os psicadélicos — como o LSD, a psilocibina, a DMT ou a mescalina “alteram temporariamente a perceção, a cognição e o sentido de identidade. Atuam sobre os recetores da serotonina 2A, aumentando a plasticidade neuronal e reduzindo os filtros habituais de previsão do cérebro", descreveu Evans.

A mescalina é um alucinogénio natural encontrado no cacto peiote
vainillaychile

Essa alteração torna a mente “mais aberta e flexível, mas também mais vulnerável”. Durante a experiência, a chamada “rede de modo padrão”, que sustenta o pensamento sobre o eu, “torna-se menos dominante, o que pode levar a sentimentos de unidade ou de dissolução do ego”.

Essa expansão da consciência explica parte do fascínio moderno pelas terapias psicadélicas, mas também o perigo de simplificação.

“Os psicadélicos são amplificadores. Intensificam o presente - estados psicológicos, emoções, expectativas e ambiente. Em condições favoráveis, podem conduzir a avanços emocionais e mudanças positivas duradouras. Mas, em contextos stressantes ou inseguros, a experiência pode tornar-se avassaladora, aterradora ou desorganizadora”, sublinhou Evans.

O que se chama vulgarmente uma "má trip" pode, no entanto, ser também um momento de transformação.

“O termo é enganador. Experiências desafiantes podem ser profundamente significativas - desde que haja estrutura e apoio para as integrar".

A vulnerabilidade de quem se sujeita ao tratamento e a necessidade de estrutura preocupa investigadores e clínicos.

“A terapia psicadélica implica uma abertura extrema. Levanta questões éticas sobre poder, consentimento e risco de abuso", há o perigo da comercialização excessiva, de transformar algo profundamente humano e espiritual num produto", alerto Evans.

Oliveira Maia concorda: “Há um enorme entusiasmo em torno dos resultados preliminares, mas é preciso cautela. Estas substâncias, fora de um contexto clínico controlado, podem causar dano. É fundamental garantir segurança, acompanhamento e uma base científica sólida".

O que já se faz em Portugal

Em Portugal, algumas experiências clínicas já estão em curso.

“A cetamina, um medicamento anestésico por vezes considerado um psicadélico atípico, tem sido usada em clínicas e em alguns serviços públicos de psiquiatria para tratar depressão em doentes sem resposta satisfatória a outros medicamentos. Essa utilização é designada ‘off-label’, porque a cetamina não tem aprovação regulamentar para esse fim”, explica o psiquiatra.
“Já a escetamina, semelhante à cetamina, foi aprovada para tratamento de depressão e o estudo em que participámos mostrou bons resultados: cerca de metade dos doentes atingiu a resolução completa de sintomas ao fim de 32 semanas".

A psilocibina também já foi testada em ensaios clínicos realizados na Fundação Champalimaud. “Um terço dos doentes registou uma resolução completa de sintomas três semanas depois do tratamento. A substância está agora a ser testada em doentes com Doença de Parkinson”, adiantou Oliveira Maia.

Jules Evans vê nesses resultados sinais de esperança, mas também de responsabilidade.

“Existem dados promissores da sua utilização em casos de depressão resistente, PTSD, ansiedade do fim de vida, dependência de drogas e muitos outros problemas, desde dor e anorexia a Parkinson. Mas o desafio é garantir que o uso ocorre dentro de uma estrutura terapêutica ou comunitária segura. Caso contrário, os riscos podem superar os benefícios".
Preparação de Ayahuasca
Mark Fox

Os riscos de uma "má trip"

“Quando as coisas correm mal, as pessoas podem sentir pânico, paranóia, confusão espiritual, ressurgimento de traumas ou desestabilização psicológica duradoura. A recuperação depende de integração cuidadosa - 'ligação à terra', apoio social e, por vezes, ajuda profissional”, explicou Evans.

Uma das maiores lacunas, acrescentou, é a falta de acompanhamento estruturado e informado pelo trauma. “A recuperação é possível, mas requer o reconhecimento de que o uso de psicadélicos pode causar danos - e de que é preciso criar apoios reais e realistas".

O futuro das terapias psicadélicas

Enquanto a ciência avança, a sociedade debate-se com o papel destas substâncias. Estará Portugal preparado para aceitá-las como ferramentas clínicas?

“Para discutir o tema, sim, sem dúvida. Mas ainda não é o momento de falar em aceitação plena", segundo Oliveira Maia.

O país, sublinhou, “confia nas instituições que avaliam a segurança das intervenções em saúde. Até termos avaliações conclusivas das autoridades europeias, os psicadélicos clássicos devem ser vistos como tratamentos experimentais".

Evans defende um caminho intermédio entre proibição e liberalização.

“A proibição não funcionou - empurrou o uso para a clandestinidade. Mas a liberdade sem regulação seria imprudente. Precisamos de normas de segurança claras, licenciamento para facilitadores, educação pública e enquadramentos legais que reconheçam o uso terapêutico e espiritual, protegendo ao mesmo tempo as pessoas do abuso e da exploração".

Responsabilidade e prudência

Para ambos, a palavra-chave é responsabilidade.

“Sabemos que há pessoas sem boas alternativas terapêuticas e é difícil pedir-lhes que esperem. Mas é esse tempo que garante segurança e justiça no acesso”, disse Oliveira Maia.

Se não formos cautelosos, corremos o risco de empurrar pessoas vulneráveis e frágeis pela sua doença para contextos informais e perigosos, alertou o psiquiatra.

Os psicadélicos podem abrir portas - à cura, à criatividade, à espiritualidade -, mas também podem abalar profundamente quem não está preparado. O desafio é atravessar essas portas com sabedoria e cuidado, concluiu Jules Evans.