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Tornar a moda sustentável: "Estamos habituados a preços que não deviam existir"

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Tornar a moda sustentável: "Estamos habituados a preços que não deviam existir"
Ana Isabel Pinto

Objetivo: alcançar o desperdício zero na indústria da moda. Aslaug Magnusdottir, fundadora da marca sustentável Katla, defende que é preciso “repensar a confeção” de roupa, para reduzir o impacto no ambiente e melhorar as condições trabalhadores - que são na maioria mulheres.

O “bichinho do empreendedorismo” chegou em 2009. Depois de ter criado uma plataforma de moda de alta costura, Aslaug Magnusdottir decidiu fazer algo a pensar no ambiente. Para isso fundou a Katla, uma empresa que defende uma confeção de roupa com desperdício zero, utilizando materiais naturais - como algas marítimas. As peças são inspiradas na natureza da Islândia, terra natal de Aslaug Magnusdottir.

A indústria da moda está associada à produção em massa e a problemas laborais e ambientais. A sua companhia - a Katla - pretende reduzir o desperdício de roupa. Como podemos atingir esse objetivo?

Esse é um problema absolutamente crítico e penso que é um pouco ignorado na conversa sobre a moda sustentável. Atualmente, há muitas discussões - felizmente, há cada vez mais - sobre o impacto que a moda tem no nosso mundo. E os números são assombrosos: nós criamos mais 100 mil milhões de roupas todos os anos. Desse, mais de 50 mil milhões acabam em aterros ao fim de 12 meses. O que é chocante é que 30 ou 40 mil milhões desses não precisavam de ser produzidos porque ou não chegam a ser vendidos de todo ou apenas vendem a um enorme desconto. Significa que a indústria está a produzir a mais, itens em que o consumidor não está interessado.

Nós somos uma empresa que quer ter maior impacto, queremos mostrar uma forma diferente de trabalhar na indústria da moda. O que nós fazemos é repensar a confeção e toda a cadeia de fornecimento à sua volta. Isso impacta o que nós criamos: são coleções sem estação, intemporais e que podem manter-se mais tempo. Nós temos tecidos que podem ser usado em vários estilos.

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Sobre a forma como encaramos a confeção: chamamos-lhe política de confeção de desperdício zero. Isso significa que produzimos apenas o que os consumidores estão a comprar - a maior parte da nossa produção é literalmente feita a pedido do cliente. Recebemos um pedido do cliente - nós vendemos diretamente para o consumidor - e produzimos esse item em três a cinco dias. O nosso objetivo é reduzir para um ou dois dias nos próximos seis meses.

Ao ter uma baixa produção e seguindo uma política de confeção por pedido, essa questão reflete-se nos preços da marca. Acredita que a moda sustentável pode ter preços acessíveis para todos? E no futuro?

Acho que há várias questões. Eu acho que os consumidores têm de repensar a sua abordagem perante a moda. Nós estamos habituados a comprar moda a preços que provavelmente não deviam existir, porque a única forma de os atingir é provocando danos ao ambiente e através de condições de trabalho muito más - e 80% dos trabalhadores são mulheres, esta é uma indústria que tem um imenso impacto na vida das mulheres. Os consumidores precisam de escolher estilos que duram, que são de qualidade suficiente para durar, para que comprarem menos. Isto é fácil dizer, mas difícil de alcançar - e este é um componente crucial.

Por outro lado, nós enquanto indústria temos de repensar a forma como lidamos com a confeção. Temos de usar mais dados, temos de ter melhor conhecimento e previsões para as nossas vendas e temos de alcançar um equilíbrio entre oferta e procura. Ao fazer isso, ao remover todo este desperdício para fora da cadeia de abastecimento, irão, na verdade, criar negócios mais lucrativos. A indústria tem-se focado muito em como as empresa alcançam minimizo o custo de produção por unidade, para poder oferecer um preço baixo. Mas, em vez de criar todos estes itens ao mais baixo preço por unidade e depois deitar fora 30 a 40% disso, que tal produzir apenas o que vamos vender na verdade? E termos uma poupança significativa aí. Isso pode ser usado para providenciar melhores preços por roupas de qualidade. Pode-se usar melhores tecidos, proporcionar melhores condições aos trabalhadores e, mesmo assim, ter um negócio lucrativo - ou até mais lucrativo - pelos mesmos preços.

Na Katla usa-se materiais vegan, mas também fibras produzidas através de algas marítimas. Qual é a origem dos tecidos produzidos com algas? Qual é a textura destas peças na pele?

Eu estou muito entusiasmada com as algas marinhas, eu acho que é um tecido mágico. Há várias coisas que eu adoro nas algas. A primeira é que tem ótimos benefícios para a saúde da pele, mesmo quando vestida. Têm sido muito usadas em produtos de beleza, mas, agora, cada vez mais pessoas estão a usá-la em roupa também. Mas o que nos entusiasma mesmo é o impacto das algas no ambiente. As algas são 20 vezes mais eficientes do que as árvores a sequestrar carbono. Por isso são uma ferramenta importante na luta contra as alterações climáticas.

O tecido de algas tem uma sensação fantástica, é extraordinariamente suave. Tipicamente, mistura-se com outros materiais, mas também se pode fazer 100% algas marítimas. Na Katla, vemos isto como uma grande parte do nosso futuro. Eu adorava que um dia todos os nossos produtos tivessem algas [na sua composição].

O nosso objetivo é termos uma marca regenerante, termos uma marca que está a fazer bem ao ambiente em vez de fazer mal. Eu acho que não é suficiente ser uma marca de moda sustentável hoje em dia, é preciso ser uma marca regenerante. A indústria tem vindo a causar danos ao nosso planeta há muito tempo e nós temos de dar a volta a isso. Nós pedimos aos consumidores para comprarem menos, infelizmente eles não estão a comprar menos. Então temos de repensar como se faz a moda. E eu acredito que as algas são um desses componentes mágicos que podemos usar para alcançar esse objetivo.

Qual é o próximo passo na indústria da moda para se tornar um setor sustentável? O que devem as marcas e os estilistas fazer?

Eu penso que todos temos de nos juntar. Este é um problema que todos enfrentamos, como humanidade. Temos de não guardar os nossos segredos do negócio só para nós, temos de espalhar o conhecimento. Precisamos de educar os consumidores para as boas escolhas. É muito confuso o que é sustentável, o que é bom para o mundo, o que é regenerante. Acho que é difícil fazer sentido porque existem muitas reivindicações por aí.

Como indústria, temos de partilhar informação, temos de mostrar uma forma diferente de trabalhar, um modelo diferente para a indústria funcionar. Na Katla estamos muito entusiasmados por fazer parte de um projeto de investigação que está a decorrer atualmente com a Internacional Trade Center, em Genebra, que pretende mostrar um modelo diferente para a moda, um modelo de desperdício zero que pode ter impacto positivo na vida dos trabalhadores do setor. Estamos muito orgulhosos de fazer parte desta iniciativa, porque vemos como uma forma de fazer mais, de participar num movimento maior. Nós podemos criar negócios lucráveis sem todo este comportamento de desperdício prejudicial que temos hoje.

Ana Isabel Pinto

Na sua empresa oferece também um programa de reciclagem das peças. Acredita que a reciclagem e o mercado de roupa em segunda mão é um bom primeiro passo para a moda sustentável? Como podemos abraçar esta ideia enquanto consumidores?

Eu acho que é um componente crítico. Nós esperamos que as pessoas queiram manter as suas roupas o maior tempo possível e que queiram usá-las uma e outra vez. Nós tentamos desenhar roupas que sejam intemporais, artigos para o dia-a-dia, não para ocasiões especiais. Mas se as pessoas decidirem que não querem usá-las mais, a última coisa que queremos é que as deitem fora e que acabem em aterros. Nós pedimos que não façam isso: nós pagamos os portes de envios para devolver e damos um valor de crédito para uma próxima compra no site, como incentivo.

Penso que mais e mais companhias estão a oferecer estes programas de retorno. Mais e mais empresas estão também a oferecer plataformas de revenda. Eu acho que isso é uma das ferramentas que temos para reduzir a quantidade de roupas que está a ser produzida todos os anos. Claro que há os envios de um lado para o outro, todo o tipo de complexidades quando se fala disto… Mas penso que é uma parte importante da equação para construir uma indústria mais sustentável.

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