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Direitos humanos: "A democracia é algo pelo qual temos de lutar todos os dias"

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Direitos humanos: "A democracia é algo pelo qual temos de lutar todos os dias"
Ana Isabel Pinto

A atualidade tem vindo a destacar movimentos de luta pelos direitos humanos. Deborah Archer, presidente da ACLU, lembra que a democracia “é frágil” e que é preciso continuar a lutar para manter os direitos que já foram alcançados. O sonho de um mundo com direitos iguais é o que a move nesta demanda.

Desde o início do século XX que a American Civil Liberties Union (ACLU) luta pela igualdade e pela defesa dos direitos humanos. Deborah Archer, presidente da ACLU, lembra que os direitos alcançados não são garantidos e que é necessário lutar sempre. Num mundo mais radicalizado, mas também mais consciente para os problemas da desigualdade, é o sonho por um mundo sem desigualdade que motiva a luta diária.

Parece que atualmente a luta pelos direitos iguais tem sido mais intensa. O movimento Black Lives Matter é um exemplo. O mundo está mais consciente destes problemas?

Eu acredito que o mundo está agora, certamente, mais consciente dos problemas. A luta por justiça racial e contra a discriminação tem ocorrido nos Estados Unidos desde que os primeiros escravos chegaram aos EUA e reivindicaram a sua liberdade. Mas, agora, com as redes sociais, com os vídeos e com os meios de comunicação social, as pessoas estão a ter mais conhecimento sobre os desafios que existem nos EUA. Não só ao nível da violência policial motivada pela raça, mas na educação, na igualdade, na economia, na justiça, nos direitos das mulheres e nos direitos LGBTQ.

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Como atua a ACLU na proteção das minorias? Em que assuntos se estão a focar mais atualmente?

A ACLU é uma das maiores e mais antigas organização pelos direitos civis e liberdades civis. Nós estamos a lutar para proteger os direitos inscritos na Constituição [norte-americana], para garantir que todas as promessas que a América faz são uma realidade para as pessoas, que merecem a proteção desses direitos. Nós lutamos nos tribunais, através da mudança da narrativa nos media, com as redes sociais, procuramos alterações nas políticas.

Os assuntos mais urgentes mudam de tempos a tempos. Nós entramos em ação para proteger as comunidades que estão a ser atacadas. Atualmente, identificaria o ataque ao direito ao voto, na nossa democracia, como uma verdadeira prioridade. O ataque à liberdade de expressão, a protestar e a exigir correções ao nosso Governo são criticamente importantes. Os direitos das mulheres e das pessoas grávidas de decidir o que fazer com o seu próprio corpo e ter acesso a cuidados de saúde reprodutiva são também outra crise.

Recentemente vimos o Roe vs Wade a ser revogado nos Estados Unidos, acabando com o direto ao aborto, que já tinha sido alcançado pela mulheres. Quer isto dizer que a luta pelos direito nunca chega ao fim?

Nunca chega ao fim. A democracia é algo pelo qual temos de lutar todos os dias, é frágil. Temos de continuar essa luta. O mesmo se aplica a todos os outros direitos pelos quais lutamos - direitos das mulheres, justiça racial. Todas essas lutas, são lutas que precisamos de continuar a proteger. Em muitas áreas, as pessoas ficam confortáveis por terem os direitos e não se apercebem que esse direito podem ser tirados. Agora sabemos isso. Em muitos estados dos EUA, mulheres e pessoas grávidas perderam o direito de tomar decisões sobre o seu próprio corpo. Iremos continuar a lutar para ter este direito restaurado, ao mesmo tempo que estamos a lutar por manter outros direitos que já vencemos.

É sempre uma luta dupla para continuar a proteger as vitórias que já tivemos, mas também para avançar, porque o que temos não é suficiente. O Roe vs Wade não era suficiente. Havia milhões de mulheres e pessoas grávidas que não puderam ter esse direito por razões raciais e de justiça económica. Na verdade, nunca foi uma realidade para toda a gente, nós estávamos a lutar contra isso e agora demos um passo atrás.

Ana Isabel Pinto

Temos assistido a uma maior radicalização, tanto nos Estados Unidos como em vários países da Europa. Na sua opinião, como poderemos resolver o problema da radicalização?

Eu acredito que parte do desafio nos Estados Unidos seja denunciar os comportamentos que vemos: o perpetuar da desinformação que alimenta os que se radicalizaram, o não responder à real ameaça que a radicalização representa para a nossa democracia. Estamos num ponto de crise, por isso espero que todos nós nos juntemos para descobrir a forma de resolver a crise em que estamos.

Acredita que algum dia iremos alcançar um mundo em que há direitos iguais para todos e não há segregação?

Eu tenho de acreditar nisso. É isso que me faz levantar todos os dias, que mantém organizações como ACLU a lutar. Acreditamos que essa América é possível e iremos continuar a lutar por essa América. Acreditamos que é possível não haver segregação, haver igualdade racial, que toda a gente viva uma vida digna, com escolhas livres. Nós levantamo-nos todos os dias para lutar por isso.

É preciso que todos os membros da comunidade lutem. Não é só o trabalho que a ACLU faz, é o trabalho que a ACLU irá fazer em conjunto com outros parceiros. Na ACLU, iremos continuar a lutar usando o contencioso, a educação pública, vamos lutar com legislação, com mudança de narrativa, usando todas as ferramentas que temos. Porque esta luta precisa de todas as ferramentas.

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