O especialista em Proteção Civil André Morais defende que Portugal continua a falhar no essencial: preparar, capacitar e envolver as comunidades no conhecimento e gestão dos riscos. Sublinha que a resposta das autoridades não chega se a população não tiver formação para se proteger antes de cada evento extremo.
Para André Morais, aquilo que correu mal não se explica apenas pela intensidade da a depressão Cláudia, mas sobretudo por falhas estruturais na preparação da população. O especialista aponta que “continuamos a descurar aquilo que é importante, que é sensibilizar, informar e capacitar as pessoas”.
“Nós continuamos a protelar aquilo que é o planeamento e a capacitação comunitária. Continuamos a investir fortemente só na resposta. E enquanto investirmos na resposta e não investirmos naquilo que é a proteção civil na sua gênese, que é montante, é a análise de risco, é a prevenção, é a informação e sensibilização pública, vamos estar ano após ano a falar destes fenómenos que cada vez têm um ciclo mais curto e são cada vez mais impactantes para as comunidades e para os territórios, porque nós continuamos a protelar".
O especialista considera que falta integrar a literacia de risco no quotidiano da sociedade.
"Nós precisamos desta disciplina de cidadania ter uma componente para o risco, da análise de risco em cada território. E precisamos também, de uma vez por todas, de envolver as comunidades através das unidades locais de proteção civil no âmbito de freguesia".
A educação para o risco deve incluir simulacros, formação e participação ativa. Morais lembra que, em países como o Japão, “os primeiros a responderem a um evento catastrófico são as próprias comunidades”.
Em Portugal predomina ainda a ideia de que “têm que ser outros que nos socorrem”.
"Nas primeiras 72 horas após uma catástrofe estamos por nossa conta em risco. Por isso, conhecer conceitos como vulnerabilidade, suscetibilidade ou diferença entre aviso e alerta precisa de ser ensinado e praticado”.
O dia depois da tempestade - e o que devia ter sido feito antes
“Em vez de ‘o que é que eu faço hoje’, devíamos perguntar ‘o que é que eu devia ter feito ontem’.”
Entre as medidas preventivas, destaca:
- garantir que sarjetas, algerozes e sumidouros estão desobstruídos;
- verificar pisos subterrâneos, especialmente se houver veículos ou bens vulneráveis;
- preparar medidas de autoproteção logo após receber os avisos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), aproveitando as 24 a 72 horas de antecedência.
“É basicamente verificar se tudo aquilo que faz com que a limpeza à volta da habitação esteja desimpedida, para que uma precipitação intensa não seja novamente impactante”.
