Leiria foi o concelho mais afetado pela tempestade Kristin em todo o país. A vista de cima faz lembrar cenários de guerra. À entrada da cidade, o pinhal da terra foi mandado plantar pelo rei D. Afonso III, no século XIII, um símbolo da Região Centro.
São 11 mil hectares de floresta que, em 2017, quase arderam na totalidade. Vinha a recuperar até entrar por ele dentro esta depressão. Certos locais parecem atingidos por explosões, mas foi só a chuva que amoleceu a terra e o vento que destruiu o resto.
Para se chegar ou partir de autocarro à cidade, vão haver mais dificuldades nos próximos tempos. O terminal ficou neste estado, bombardeado por chuva torrencial e ventos de 150 km/h. Toneladas de ferros e chapas retorcidas estão agora apoiadas nos próprios veículos de transporte de passageiros.
O rio Lis está mais virado do avesso do que durante toda a sua história. Sempre foi dos poucos em Portugal que corre no sentido sul-norte, mas tem corrido cheio de mais. Tem levado à frente o que tem encontrado, tem visitado as ruas da cidade, transformado estradas e passeios em mais braços e afluentes.
Há imagens que nem fazem muito sentido, objetos que não se percebe bem de onde vieram e como ficaram aqui. Aquela bancada não é certamente do estádio municipal, apesar de ele estar ali bem perto, porque os 24 mil lugares já vamos perceber que estão lá todos no mesmo sítio.
Mas pouco mais que isso ficou quieto durante a noite de temporal. Construído para o Euro 2004, tinha estado sossegado até de mais nos últimos anos. Foi esventrado pela depressão.
Tudo o que se juntou naquela noite foi forte de mais para o Dr. Magalhães Pessoa. Indo lá acima, percebemos que a cobertura deixou de existir em grande parte. Se viermos cá abaixo, percebemos que até gruas se deitaram.
Leiria ficou sem norte. Parece de outro planeta. Parece que deixou de rodar à volta do sol. Por todos os cantos, baixos e altos, há coisas destruídas, ainda que algumas sejam difíceis de encontrar.
Muito mais alto, nem se percebe que já se reconstrói, que já se luta. Visto mais de perto, Leiria tenta colocar a cabeça de fora. A martelada foi grande. Tenta tapar a chuva com o que pode, como pode.
O Santuário de Nossa Senhora da Encarnação sempre viu Leiria crescer a seus pés, lá no alto dos seus 162 degraus, mas nem ele escapou às rajadas de vento.
Diz a lenda que a ermida situada neste local era dedicada ao anjo São Gabriel, até que, em 1588, um milagre levou à construção da atual capela. A depressão destruiu-a a 28 de janeiro de 2026, colocou a nu o altar, virou os assentos e deixou a céu aberto as pinturas votivas à Virgem e a São Gabriel.
Quando o tempo nos parece dar um sinal que obriga a parar, porque valeu quase tudo, porque nos arrancaram pela raiz e até cortaram em vários pedaços, é tempo de seguir. Seguir em frente.
