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Advogado de vítimas de padre abusador chama mentiroso a cardeal suspeito de encobrimento

Philippe Barbarin

Emmanuel Foudrot

Philippe Barbarin e cinco outras pessoas são acusadas de não ter denunciado agressões sexuais do padre Bernard Preynatum a um grupo de jovens escuteiros.

Um dos advogados das vítimas de um padre francês que terá abusado de um grupo de menores nos anos 90 chamou esta quarta-feira mentiroso ao cardeal Philippe Barbarin, que está a ser julgado desde segunda-feira por encobrimento dos abusos.

Philippe Barbarin e cinco outras pessoas são acusadas de não ter denunciado agressões sexuais do padre Bernard Preynatum a um grupo de jovens escuteiros, respondendo agora em tribunal num processo de citação direta iniciado pelas vítimas.

"Você é um mentiroso. Cardeal Barbarin, você é um mentiroso quando diz que apenas percebeu em 2014 da extensão dos danos", disse o advogado Jean Boudot.

"Uma coisa é certa, é que em 2010, sabia perfeitamente", declarou.

O cardeal e arcebispo de Lyon, Philippe Barbarin, afirma ter tido conhecimento dos abusos cometidos pelo padre Bernard Preynat aos escuteiros da diocese apenas em 2014, quando se encontrou com uma das vítimas.

Anteriormente, no ano 2000, assegurou, teria ouvido apenas "rumores".

O advogado Boudot está convencido do contrário, considerando que isso é evidenciado pelas declarações do padre Preynat à polícia.

Segundo o advogado, o padre Preynat disse nos depoimentos à polícia que teve um encontro com o cardeal, durante o qual responde a perguntas o que para os defensores das vítimas, quer dizer que sabia de tudo sobre seu passado sexual.

Para a acusação, estes factos estão, de qualquer modo, prescritos.

Na segunda-feira, dia da primeira audiência do julgamento, o cardeal francês Philippe Barbarin disse que nunca tentou encobrir o que qualifica de "factos horríveis" antes de depor no Tribunal Criminal de Lyon.

"Eu nunca tentei esconder", disse Barbarin em comunicado antes da primeira audiência do julgamento.

Inicialmente marcado para abril de 2018, o julgamento acabou por ser remarcado para 7 a 8 de janeiro de 2019, mas na última audiência foi decidido prolongar até dia 10.

Este caso surgiu a público a 23 de outubro de 2015, dia em que a diocese de Lyon revelou que tinha recebido queixas contra o padre Bernard Preynat por "agressão sexual a menores" cometida 25 anos antes.

A 12 de janeiro de 2016, várias vítimas criaram uma associação chamada "La parole libéreé" e a 27 de janeiro o padre Bernard Preynat, que reconhece os factos, foi acusado de agressão sexual a jovens escuteiros entre 1986 e o final de 1991.

A 4 de marco de 2016, o Ministério Público de Lyon abriu uma investigação preliminar a vários líderes da diocese, incluindo o cardeal Barbarin, por "não denúncia do crime" considerando que "colocou em risco a vida de outros", mas foi arquivada meses depois por decisão da procuradoria de Lyon.

O processo foi retomado posteriormente por citação direta iniciada pelas vítimas, sendo agora o caso julgado pelo que é chamada "a justiça dos homens", embora o cardeal tenha recentemente dito: "Só tenho um juiz que é o Senhor".

Até o momento, dois bispos foram condenados na França em casos semelhantes, o ex-bispo de Bayeux-Lisieux em 2001 e o ex-bispo de Orleans em 2018.

O cardeal Barbarin, 68 anos, personifica em França a crise que a Igreja enfrenta em todo o mundo com diversos casos de abusos silenciados, um silêncio que o papa Francisco já disse que tem de ser quebrado, tendo convocado para fevereiro os presidentes de todas as conferências episcopais para uma cimeira no Vaticano sobre o assunto.

Lusa