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Locais de execuções públicas na Coreia do Norte identificados

Jason Lee / Reuters

Uma organização de direitos humanos da Coreia do Sul afirma ter identificado centenas de locais onde o regime de Pyongyang executa os seus opositores para "instigar o medo.

A ONG Transitional Justice Working Group entrevistou 610 desertores norte-coreanos nos últimos quatro anos que ajudaram a identificar, através de imagens satélite, 318 locais onde têm sido feitas execuções públicas há várias décadas.

No relatório publicado esta terça-feira, a ONG documenta décadas de condenações à morte por ofensas que vão desde roubar uma vaca a assistir à televisão sul-coreana.

A ONG não identifica com exactidão os locais, mas situa a maioria em duas províncias do nordeste, perto da China, a área de origem da maioria dos desertores entrevistados.

São sítios perto de rios, campos e colinas, mas também em mercados públicos ou recreios de escolas - onde os familiares dos condenados, incluindo crianças, são obrigados a assistir.

Há também execuções dentro das prisões e campos de trabalho - onde os presos políticos são obrigados a trabalhos forçados, geralmente extração mineira e de madeira.

Um desertor contou como no campo de trabalho, onde estava no início dos anos 2000, cerca de 80 reclusos foram obrigados a assistir à execução de três mulheres acusadas de tentar fugir para a China. Estava presente o ministro da Segurança do Povo que disse: "isto pode acontecer a todos vocês".

O relatório afirma que as execuções públicas são "o principal método para incitar o medo e dissuadir os cidadãos de se envolverem em atividades consideradas indesejáveis pelo regime".

Pelotões de fuzilamento e enforcamentos públicos

A maioria das execuções são feitas por um pelotão de fuzilamento, contou uma testemunha. Geralmente são três atiradores que disparam três vezes sobre o condenado.

Há relatos de enforcamentos públicos, embora a ONG refira que este método parece não ser usado desde 2005.

Sabe-se que altas patentes norte-coreanas foram executadas no passado. Em 2013, o tio do líder norte-coreano Kim Jong-un foi condenado por traição. Também nesse ano houve relatos de que a cantora Hyon Song-wol tinha sido executada publicamente. No entanto ela apareceu em 2018, integrado a comitiva norte-coreana em Seul para os Jogos Olímpicos de Inverno.

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A agência de notícias Associated Press (AP) sublinha que não pôde verificar o relatório de forma independente e a ONG reconhece que as suas conclusões não podem ser definitivas porque não tem acesso direto à Coreia do Norte e não conseguiu visitar os sítios que os desertores relataram.

Um dos autores do relatório, Ethan Hee-Seok Shin, diz que as entrevistas com os desertores sugerem que as execuções públicas na Coreia do Norte estão a tornar-se menos frequentes. Mas tal pode dever-se ao facto de mais pessoas estarem a ser executadas em segredo e não de forma pública como antes.

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O Transitional Justice Working Group, com sede em Seul, é uma organização não governamental fundada por um grupo de ativistas dos direitos humanos da Coreia do Sul e outros quatro países.

Este mais recente relatório foi possível graças ao financiamento do National Endowment for Democracy, com sede em Washington, que é financiado pelo Congresso dos Estados Unidos.

A Coreia do Norte não reagiu ainda ao relatório, mas o regime de Kim Jong-un costuma irritar-se com as críticas ao seu historial sobre direitos humanos e retalia afirmando que as avaliações negativas fazem parte de campanhas lideradas pelos Estados Unidos para manchar a imagem da sua liderança e destruir o sistema político do país.

Num relatório para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, em maio, a Coreia do Norte disse que "mantém consistentemente o princípio de garantir precisão científica, objetividade e imparcialidade, bem como proteger os direitos humanos para lidar com casos criminais".

Um relatório das Nações Unidas de 2014 sobre os direitos humanos na Coreia do Norte afirmava que as autoridades promoviam execuções "com ou sem julgamento, pública ou secretamente", em resposta a crimes políticos e a outros crimes que não estão entre os mais graves.