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O que se passa em Hong Kong?

Desde abril, milhões de pessoas saíram às ruas de Hong Kong para protestar contra a lei de extradição.

Só no domingo terão sido dois milhões de manifestantes a pedir a anulação total da proposta de lei, mas, afinal, o que se passa no país?

EXTRADIÇÃO PARA A CHINA

A proposta de lei apresentada pelo Governo de Hong Kong ao Conselho Legislativo autoriza a extradição de condenados em fuga para vários países com os quais o território não tem atualmente acordos de extradição, incluindo a China continental.

Os defensores da lei argumentam que, caso se mantenha a impossibilidade de extraditar suspeitos de crimes para países como a China, tal poderá transformar Hong Kong num "refúgio para criminosos internacionais".

O Governo considera esta proposta um instrumento vital para combater o crime transnacional e manter o Estado de direito, mas a proposta gerou controvérsia nas ruas. Nas últimas semanas circularam várias petições para a travar e foram organizadas manifestações.

Os manifestantes dizem temer que Hong Kong fique à mercê do sistema judicial chinês como qualquer outra cidade da China continental e de uma justiça politizada que não garanta a salvaguarda dos direitos humanos.

EM SUSPENSO

Depois de nos últimos dias o descontentamento ter tomado proporções gigantescas e ter originado momentos de violência entre os manifestantes e a polícia, a Chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam, anunciou no sábado a suspensão das alterações ao pacote legislativo e prometeu retomar o diálogo com “todos os setores da sociedade”.

A suspensão, apesar de ser por tempo indefinido, não agradou aos seus opositores, que mantiveram os apelos para que os cidadãos de Hong Kong não se resignem enquanto a Chefe do Executivo não retirar definitivamente a proposta.

Por essa razão, a insatisfação pública fez-se ouvir novamente no domingo, em massa, e as organizações cívicas garantem que não vão desistir. Exigem um recuo total das propostas e a demissão da Chefe do Executivo. Poderá ter sido o maior protesto de sempre da História da antiga colónia britânica.

Os protestos da última semana já fizeram dezenas de feridos. No sábado, um manifestante morreu depois de cair de um prédio onde estaria a afixar um cartaz de protesto.

O PAPEL DE JOSHUA WONG

Um dos principais rostos do movimento pró-democracia do outono de 2014, que juntou milhares na “revolução dos guarda-chuvas" para exigir um verdadeiro sufrágio universal, foi libertado no domingo. O ativista de 22 anos cumpria desde maio uma sentença de dois meses de prisão por desobediência civil.

Tyrone Siu/ Reuters

Joshua Wong fundou com outros militantes o partido Demosisto, que defende a autodeterminação da antiga colónia britânica. Agora, prometeu juntar-se aos protestos contra a lei de extradição e pede a demissão de Carrie Lam na sequência das manifestações maciças.

O líder estudantil, que anteriormente foi capaz de mobilizar milhares pela democracia, poderá tornar-se o rosto da luta.

"Ela já não tem qualificações para ser a líder de Hong Kong".

REGRESSO À NORMALIDADE?

As principais ruas de acesso ao parlamento e ao quartel-general do Governo de Hong Kong foram reabertas esta segunda-feira e o trânsito voltou a circular normalmente na zona, depois de os últimos manifestantes terem dispersado voluntariamente.

Cerca de dois milhões de pessoas, quase um terço da população da região administrativa especial chinesa, saiu às ruas da cidade no domingo, de acordo com os organizadores, depois da polícia estimar uma adesão de 338 mil.

O aparente regresso à normalidade não reflete, ainda assim, as exigências dos manifestantes, que pretendem fazer desta luta uma missão a longo prazo. Segundo o ex-deputado e ativista Lee Cheuk-yan, se o Executivo não responder a estes pedidos, incluindo o de demissão, o “povo voltará e a luta continuará”.

Thomas Peter

Numa declaração divulgada na noite de domingo, apenas em chinês por um porta-voz do Governo, quando centenas de milhares de pessoas enchiam ainda as ruas da antiga colónia britânica, Carrie Lam pediu desculpa à população.

"Nos últimos dois domingos, um grande número de pessoas expressou os seus pontos de vista através de marchas (...) o Governo entende que a marcha pública é por preocupação e amor por Hong Kong".

A governante acrescentou que "o Governo reitera não existir um calendário para reiniciar o processo".

“UM PAÍS, DOIS SISTEMAS”

A transferência de Hong Kong e Macau para a República Popular da China, em 1997 e 1999, respetivamente, decorreu sob o princípio "um país, dois sistemas", precisamente o que os opositores às alterações da lei garantem estar agora em causa.

Para as duas regiões administrativas especiais da China foi acordado um período de 50 anos com elevado grau de autonomia, a nível executivo, legislativo e judiciário, sendo o Governo central chinês responsável pelas relações externas e defesa.

Com Lusa