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Tudo o precisa saber sobre o Estreito de Ormuz que "divide" EUA e Irão

Azin Haghighi

Canal onde o Irão abateu um drone dos EUA é um ponto de passagem estratégico para o comércio mundial de petróleo e tem estado no centro das tensões regionais há décadas

O Irão advertiu hoje que defenderá o seu território contra eventuais represálias dos Estados Unidos, enquanto as companhias aéreas KLM, British Airways, Lufthansa, Qantas, Singapura Airlines, Emirates, Malaysia Airlines, entre outras, decidiam evitar ou mesmo suspender a partir de agora sobrevoar o estreito de Ormuz.

Porta de entrada no Golfo

O estreito de Ormuz, que liga o Golfo ao mar de Omã, situa-se entre o Irão e o sultanato de Omã.

É particularmente vulnerável devido à sua pouca largura, cerca de 50 quilómetros, e à sua profundidade, que não excede os 60 metros.

É pontilhado por ilhas desertas ou pouco habitadas, mas de grande importância estratégica: as ilhas iranianas de Ormuz e de Qeshm e Larak, frente à costa iraniana de Bandar Abbas.

Ali Mohammadi

Via crucial para o petróleo

O estreito de Ormuz é a rota de navegação quase exclusiva ligando os produtores de hidrocarbonetos do Médio Oriente (Arábia Saudita, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Irão) aos mercados da Ásia, Europa e América do Norte.

Em 2018, cerca de 21 milhões de barris de petróleo circulavam diariamente pelo estreito, segundo a Agência de Energia norte-americana (EIA), o que representa cerca de 21% do consumo mundial daquele hidrocarboneto e um terço do que transita por via marítima no mundo.

1/4 do comércio mundial de gás natural liquefeito passa também por Ormuz

Cerca de 76% das exportações de petróleo que passam pelo estratégico estreito destinaram-se o ano passado a países asiáticos (China, Índia, Japão e Coreia do Sul), segundo a EIA.

Embora a Arábia Saudita e os Emirados tenham criado uma rede de oleodutos para evitar o estreito, estas vias alternativas têm limites de distribuição (3 milhões de barris por dia em 2018, para uma capacidade total de 6,8 milhões) e também podem ser afetadas, como mostrou o ataque em maio de um oleoduto saudita pelos rebeldes iemenitas.

O recente ataque de dois petroleiros no mar de Omã, seguido do derrube do 'drone' norte-americano, suscitam a ameaça de perturbações significativas do tráfego e de desestabilização do mercado petrolífero, com aumento do preço deste hidrocarboneto.

Para os países consumidores parece difícil encontrar uma alternativa, em termos de quantidade e qualidade, ao petróleo da região do Golfo.

Os Estados Unidos, ainda que sejam o primeiro produtor mundial e exportador líquido de petróleo, importaram em 2018 cerca de 1,4 milhões de barris por dia que passaram pelo estreito de Ormuz, ou seja, 7% do seu consumo.

Palco de tensões e conflitos

O Irão, que se considera o guardião do Golfo, critica regularmente a presença de forças estrangeiras na região, nomeadamente a V frota norte-americana estacionada no Bahrein, e ameaçou várias vezes bloquear o estreito de Ormuz em caso de ação militar dos Estados Unidos na zona.

Os Guardiães da Revolução, tropa de elite da República Islâmica, controlam as operações navais no Golfo.

Uma das maiores perturbações do transporte petrolífero ocorreu em 1984, em pleno conflito Irão-Iraque (1980-1988), durante a designada "guerra dos petroleiros", quando mais de 500 navios foram destruídos ou danificados.

Em julho de 1988, um Airbus A-300 da companhia nacional Iran Air, que fazia a ligação entre Bandar Abbas e o Dubai, foi abatido por dois mísseis de uma fragata norte-americana que patrulhava o estreito: 290 pessoas foram mortas.

A tripulação do USS Vincennes afirmou ter tomado o Airbus por um caça iraniano com intenções hostis.

Reavivadas pela retirada dos Estados Unidos em maio de 2018 do acordo internacional sobre o nuclear iraniano e o restabelecimento de duras sanções norte-americanas, as tensões intensificaram-se recentemente com sabotagens e ataques contra petroleiros na região do Golfo atribuídas por Washington a Teerão, que desmente.

Com Lusa