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Opositora bielorrussa pede fim dos protestos. Aliados alegam que vídeo foi "gravado sob pressão"

Vasily Fedosenko

Aliados da candidata da oposição nas eleições na Bielorrússia acreditam que "vídeo foi gravado sob pressão das forças de segurança", porque "qualquer pessoa que tivesse o marido na prisão teria gravado um vídeo assim".

A agência noticiosa estatal bielorrussa Belta difundiu esta terça-feira um vídeo da opositora Svetlana Tikhanovskaia a ler um papel e a pedir aos apoiantes que não se manifestassem, gravação que, segundo os defensores da candidata, foi feita "sob ameaças".

No vídeo, divulgado na conta da Belta na rede social Telegram, que não está datado e que parece ter sido gravado num gabinete, Tikhanovskaia lê, numa voz monocórdica, um texto em que apela "ao respeito pela lei" e para que "não se saia às ruas".

"Consideramos que este vídeo foi gravado sob pressão das forças de segurança", reagiu à imprensa Maria Kolesnikova, aliada próxima da opositora, que, entretanto, se refugiou na Lituânia.

Sentada em um sofá preto, com uma janela atrás tapada com persianas verticais, Tikhanovskaia, 37 anos, nunca chega a olhar para a câmara.

Antes da difusão do vídeo, Tikhanovskaia já tinha divulgado um outro, olhando diretamente para a câmara depois de ter deixado a Bielorrússia com destino à Lituânia, sem que tenha feito qualquer apelo para as pessoas juntarem aos protestos.

Svetlana Tikhanovskaia esteve retida na sede da Comissão Eleitoral Central

Segundo a equipa técnica da candidata da oposição nas eleições presidenciais de domingo, o vídeo divulgado pela Belta foi provavelmente gravado na noite de segunda-feira, quando a opositora foi retida durante várias horas da sede da Comissão Eleitoral Central (CEC).

"Esteve sozinha durante três horas com representantes das forças de segurança. Nessas condições, qualquer pessoa que tivesse o marido na prisão teria gravado um vídeo assim", frisou Kolesnikova.

Vasily Fedosenko

No primeiro vídeo, divulgado esta terça-feira pela própria opositora, Tikhanovskaia, que obteve cerca de 10% dos votos, referiu ter tomado a "decisão difícil" de abandonar a Bielorrússia, numa altura em que ocorre uma repressão a um movimento de protesto contra umas eleições presidenciais muito contestadas no país.

"Tomei a decisão sozinha e sei que muitos me condenam, muitos me compreendem, muitos me odeiam", afirmou Tikhanovskaia, candidata presidencial que, em várias semanas, mobilizou, para surpresa geral, multidões contra o regime de Alexander Lukashenko, vencedor da votação de domingo (cerca de 80% dos votos) e no poder há 26 anos.

"Penso que esta campanha me endureceu e deu-me a força toda para a conseguir suportar. Mas continuo a ser uma mulher frágil, tal como no início", prosseguiu Tikhanovskaia, que surge com uma cara cansada num vídeo publicado pelo órgão de comunicação social online bielorrusso Tut.by.

Na segunda-feira, Tikhanovskaia impugnou na Comissão Eleitoral Central (CEC) os resultados "fraudulentos" da votação, após o que abandonou o país e se refugiou na Lituânia.

"Svetlana Tikhanovskaia está a salvo, está na Lituânia", escreveu esta terça-feira no Twitter o ministro dos Negócios Estrangeiros lituano, Linas Linkevicius.

Fonte do gabinete do Presidente lituano, Gitanas Nauseda, disse, por seu lado, que Tikhanovskaia "está a descansar".

"O Gabinete do Presidente está em contacto permanente com Svetlana Tikhanovskaia, que chegou à Lituânia. Está atualmente a repousar", declarou à agência noticiosa France-Presse (AFP) Antanas Bubnelis, porta-voz de Nauseda.

Protestos na Bielorrússia fizeram pelo menos um morto

A Lituânia, Estado membro da União Europeia (UE) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), integrou a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e é frequentemente refúgio de figuras da oposição bielorrussa e russa.

A recusa dos resultados eleitorais está a traduzir-se numa onde de protestos contra o regime de Lukashenko, no poder desde 1994 (há 26 anos).

Os protestos fizeram pelo menos um morto e um número indeterminado de feridos.

As autoridades de Minsk admitiram que os protestos se estenderam a 33 cidades e localidades da Bielorrússia e que mais de 3.000 pessoas foram detidas.

Lukashenko, que defendeu a atuação das forças da polícia antimotim, acusou a oposição de planear tomar o controlo de edifícios públicos e denunciou que os protestos estão a ser patrocinados por países estrangeiros, como a República Checa e a Polónia.

Nas redes sociais bielorrussas foi publicado um apelo à realização de uma greve geral no país a partir do meio-dia local, enquanto os Estados Unidos e vários países europeus pediram às autoridades de Minsk para se absterem de recorrer à força contra os manifestantes.

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