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Detetada possibilidade de vida em Vénus

Representação de moléculas de fosfina detetadas na atmosfera de Vénus.

ESO / M. Kornmesser / L. Calçada & NASA / JPL / Caltech

Há uma molécula nas nuvens do planeta que só pode ser produzida por organismos vivos.

É uma descoberta extraordinária e tem assinatura portuguesa. Uma equipa internacional de astrónomos anunciou hoje que foi detetada uma molécula rara - a fosfina - na atmosfera de Vénus, indicadora da existência de vida.

Há décadas que os cientistas especulam sobre a possibilidade da existência de vida nas nuvens altas de Vénus. Um ambiente que, apesar da elevada acidez, tem uns agradáveis 30ºC que poderiam oferecer um lar aos micróbios, longe da superfície escaldante do planeta. A descoberta de fosfina pode apontar para essa vida extraterrestre "aérea".

Clara Sousa Silva, cientista no MIT, deu um grande contributo para a investigação, uma vez que a fosfina é a molécula que tem estudado desde o seu doutoramento e que continuará a estudar.

Clara Sousa Silva com um modelo tridimensional da fosfina

Clara Sousa Silva com um modelo tridimensional da fosfina

Melanie Gonick, MIT

Fosfina, um marcador de vida

A fosfina ou fosfamina (PH3), consituída por hidrogénio e fósforo, é um gás incolor, muito tóxico e com um "odor extremamente fedorento", como explica Clara Sousa Silva num artigo publicado na revista Scientific American.

É rara na Terra e é tóxica para os organismos que vivem de óxigénio - como nós seres humanos. Mas para a vida anaeróbica, que vive sem oxigénio, em pântanos e nos intestinos da maioria dos animais, a fosfina não representa problema.

Na Terra, este gás é produzido por estes organismos vivos que prosperam nesses ambientes livres de oxigénio e também é produzido pela indústria.

O que significa a existência de fosfina na atmosfera de Vénus?

Este gás está presente em planestas gasoso como Júpiter e Saturno - mas aqui não significa existência de vida porque a fosfina é produzida de forma espontânea nas atmosferas destes planetas onde as temperaturas são muito altas e onde há muita pressão de hidrogénio.

Mas em planetas terrestres ou telúricos - como a Terra e Vénus - que não têm estes ambientes para que a fosfina se produza espontaneamente, "a fosfina só pode ser produzida por vida", explica Clara Sousa Silva.

Numa entrevista à SIC Notícias, esta segunda-feira, Clara Sousa e Silva explica como é que a descoberta da molécula foi feita.

Mas já se poderá afirmar "há vida em Vénus"?

A cientista portuguesa explica que há duas dúvidas, salientando que este estudo aparece ao fim de um ano e meio de aprofundadas investigações.

"Será mesmo fosfina ou outra molécula exótica que nós não reconhecemos?".

Clara Sousa Silva reforça que o sinal da existência de fosfina na atmosfera de Vénus "é bastante forte e é a explicação mais plausível".

"O próximo passo é confirmar sem ambiguidade que o que detetámos em Vénus é realmente fosfina. São necessárias mais observações, utilizando outras frequências da luz, observações noutras zonas do espectro da luz de Vénus, onde a fosfina está ativa".

"Se é de facto fosfina, o que é que isso quer dizer?"

Vénus costumava ser habitável, o que não quer dizer que tenha sido habitada . Atualmente, após um efeito de estufa descontrolado, o planeta ficou verdadeiramente hostil: é extremamente quente (em média 462ºC), tem vulcões ativos e uma atmosfera maioritariamente constituída por dióxido de carbono.

Assim, para a existência de vida, a superficie não dá, mas há partes da atmosfera em que isso será possível.

"Conforme a superfície ficou mais não habitável, partes da atmosfera conseguiram manter-se mais ou menos confortáveis. Há uma camada, cada vez menos espessa, que continua a ser teoricamente habitável. E foi nessa camada que descobrimos fosfina".

"SE for fosfina e SE for vida, quer dizer que a vida é muito mais comum do que o que nós pensávamos. Se a vida consegue aparecer na Terra e em Vénus, ambientes tão diferentes, então quer dizer que a vida é inevitável e vai aparecer em qualquer sítio em que possa aparecer".

"Esta descoberta poderá querer dizer que, se houver possibilidades de vida, então provavelmente há vida", em qualquer planeta, conclui a cientista portuguesa que se tem dedicado ao estudo da fosfina como um marcador de vida em exoplanetas.

Pistas para a vida em Vénus obtidas a partir da Terra

Vénus é o planeta mais quente do nosso sistema solar, apesar de ser o segundo mais perto do Sol, é o planeta que tem uma atmosfera mais densa que retém o calor, num fenómeno de efeito estufa mais violento que o da Terra.

Essa é uma das principais razões porque é tão difícil enviar instrumentos para estudar Vénus. Nos anos 80 ainda se enviaram várias sondas, mas todas acabaram por derreter mal atravessavam a atmosfera.

As atuais observações da equipa internacional de 15 cientistas dos EUA, Reino Unido e Japão foram feitas com o telescópio James Clerk Maxwell Telescope (JCMT), que se situa no Havai, e posteriormente confirmadas usando as 45 antenas do radiotelescópio ALMA, Atacama Large Millimeter/submillimeter Array, que está no Chile.

A descoberta foi publicada hoje na revista Nature Astronomy.

Planeta Vénus visto pelo observatório ALMA, Atacama Large Millimeter/submillimeter Array

Planeta Vénus visto pelo observatório ALMA, Atacama Large Millimeter/submillimeter Array

SO/NAOJ/NRAO

Vénus já terá sido igual à Terra e teve vida

Hoje em dia, o segundo planeta a contar do Sol é verdadeiramente hostil: é extremamente quente (em média 462ºC), tem vulcões ativos e uma atmosfera maioritariamente constituída por dióxido de carbono. Mas nem sempre terá sido assim, revelava um estudo em 2016.

Partindo da ideia de que Vénus e Marte terão sido semelhantes há milhares de milhões de anos - numa altura em que a atmosfera terrestre também era maioritariamente constituída por dióxido de carbono - cientistas da NASA, Universidade Uppsala, Universidade Columbia e Planetary Science Institute criaram quatro simulações de possíveis cenários do que aconteceu a Vénus desde então.

Com base nos modelos utilizados para estudar a evolução do clima na Terra, as variáveis de cada simulação de clima para Vénus eram ligeiramente alteradas - como por exemplo, a energia recebido do Sol ou a duração dos dias. Deixaram os modelos evoluir durante aproximadamente dois mil milhões de anos.

Uma das simulações resultou num planeta com temperaturas suficientemente baixas para a existência de vida que terá durado até há cerca de 715 milhões de anos - altura em que já havia vida na Terra.

Um zoom in ao planeta Vénus numa animação feita a partir dos dados obtidos com o telescópio James Clerk Maxwell e do radiotelescópio ALMA.