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Princesa Latifa conta como em 2018 foi sequestrada pela família depois de tentar fugir pela segunda vez

A filha do emir do Dubai, que tentou fugir do país em 2018, enviou várias mensagens secretas em vídeo a amigos onde acusa o pai de a manter como "refém".

Latifa Al Maktoum, filha do governante do Dubai, em novos vídeos divulgados esta terça-feira pela BBC, conta como, em 2018, militares a drogaram e levaram do barco onde tentava fugir, acabando por perder a consciência. Só voltou a acordar já depois estar no Dubai, onde foi mantida isolada, sem acesso a ajuda médica ou jurídica, numa "villa" com janelas e portas trancadas e protegida pela polícia.

Este relato de Latifa foi revelado ao programa Panorama da BBC por uma amiga, Tiina Jauhiainen, por um primo, Marcus Essabri, e pelo ativista David Haigh, que estão por trás da campanha Latifa Livre. Eles explicam que tomaram a difícil decisão de divulgar as mensagens por preocupação com a segurança de Latifa.

Foram eles, segundo a BBC, que conseguiram estabelecer contacto com Latifa, já depois de ter sido isolada numa "villa" no Dubai. E a partir do momento em que as mensagens pararam de chegar, pediram a intervenção da ONU e revelaram os vídeos.

Os vídeos foram gravados ao longo de vários meses com um telemóvel, que Latifa recebeu secretamente em 2019, cerca de um ano depois da detenção. Gravava os vídeos dentro da casa de banho, o único local onde podia trancar a porta.

Desde 2018, altura em que regressou ao Dubai, que não havia novidades de Latifa. Mas tanto o Dubai como os Emirados Árabes asseguram que Latifa está bem e aos cuidados da família, de acordo com a BBC.

Latifa Al Maktoum explicou, através das mensagens e vídeos, que foram as restrições impostas pela família que a levaram a fugir em 2018, principalmente a austeridade do pai, o sheik Mohammed bin Rashid Al Maktoum.

Esta não foi a primeira vez que fugiu. Quando tinha 16 anos tentou, mas acabou por ser apanhada e durante o processo foi torturada e drogada, contou através de um vídeo, onde também disse: "Não sei o que o meu pai me pode fazer. Ele é pura maldade. É responsável pela morte de muitas pessoas. A sua imagem de homem de família é um mero exercício de relações públicas".

A antiga Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Mary Robinson, que descreveu Latifa como uma "jovem problemática" depois de a conhecer em 2018, diz agora que foi "terrivelmente enganada" pela família da princesa.

"Continuo muito preocupada com a Latifa. As coisas mudaram. Por isso, acho que deve ser investigado", diz.

O pai de Latifa, o xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, é um dos chefes de Estado mais ricos do mundo, governante do Dubai e vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos. Mas enfrenta duras criticas em relação à princesa Latifa e também à madrasta, a princesa Haya Bint Al Hussain, que fugiu para Londres em 2019 com os dois filhos, depois de se divorciar. Desde então, foi alvo de ameaças que a fizeram temer pela própria segurança e pela dos filhos, que poderiam ser sequestrados e devolvidos à força ao emir do Dubai.

Sabe-se que em maio de 2019, o xeque Mohammed Al-Maktoum disse: "Tu e as crianças nunca estarão a salvo na Inglaterra", num poema que publicou nas redes sociais, intitulado "Tu viveste, tu morreste". Utilizou ainda os contactos na imprensa britânica para gerar uma série de artigos negativos sobre a princesa Haya que, segundo o tribunal, se tornou-se numa campanha de "intimidação".

Em 2020, um tribunal do Reino Unido deu como provadas as ameaças do emir do Dubai, o xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, contra a princesa Haya e os seus planos de rapto de duas filhas de outro casamento.