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Lulas e vermes a caminho do espaço

Estas jovens lulas (Euprymna scolopes) fazem parte do UMAMI, uma investigação que vai examinar se o espaço altera a relação simbiótica entre a lula e a bactéria Vibrio fischeri.

Jamie S. Foster, University of Florida / NASA

Para experiências científicas a bordo da Estação Espacial Internacional.

Em nome da ciência, lulas, vermes e tardígrados partiram esta quinta-feira para a Estação Espacial Internacional (ISS) a bordo de um foguetão da SpaceX. Estes viajantes espaciais fora do comum fazem parte de uma série de experiências conduzidas por laboratórios de vários pontos do mundo.

O foguetão Falcon 9 da SpaceX, cujos serviços são contratados pela NASA, foi lançado a partir da Florida na quinta-feira à tarde. Cerca de 12 minutos depois da descolagem, a cápsula Dragon separou-se e deverá atracar na Estação Espacial no sábado (a NASA transmitirá em direto).

Experiências com lulas e bactérias em microgravidade

Espécimes jovens de lula (Euprymna scolopes) vão nesta viagem para que seja possível estudar o efeito da gravidade zero nas interações entre as bactérias e os seus hospedeiros.

Nesta experiência a bordo da ISS, uma parte das lulas ficará exposta a bactérias, outra parte será mantida intacta. Ao fim de 12 horas, todas serão congeladas para mais tarde regressarem à Terra, onde serão estudadas.

As lulas de 3 mm de comprimento têm um órgão especial de produção de luz onde existem bactérias bioluminescentes que dão o brilho emanado pelas lulas. Os cientistas querem investigar essa relação simbiótica entre bactérias e lulas para ver como os micróbios benéficos interagem com o tecido animal no espaço.

"Os animais, incluindo os seres humanos, dependem de micróbios para manter os sistemas digestivo e imunitário saudáveis", explica o responsável por esta experiência, Jamie Foster, da Universidade da Florida, citado no comunicado da NASA. "Ainda não compreendemos totalmente como os voos espaciais alteram essas interações."

Esta experiência poderá ajudar, no futuro, a desenvolver técnicas para proteger a saúde dos astronautas que participam de missões de longo prazo no espaço.

Caenorhabditis elegans

Caenorhabditis elegans

STEVE GSCHMEISSNER/SCIENCE PHOTO/ GETTY

Missão dos vermes para estudar músculos humanos

Os milhares de vermes Caenorhabditis elegans enviados para o espaço fazem parte de uma investigação que já decorre há alguns anos nas universidades britânicas de Nottingham e Exeter sobre a perda muscular nos seres humanos.

A investigação tem como objetivo ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos para distrofias musculares - um grupo de doenças genéticas herdadas que gradualmente causa o enfraquecimento dos músculos, explica a BBC..

Nos voos espaciais, os astronautas perdem até 40% dos músculos ao fim de seis meses em órbita e esta experiência terá como objetivo identificar as moléculas precisas que causam esses problemas e também testar novas terapias para prevenir a perda muscular em gravidade zero.

E porquê enviar vermes para o espaço?

Estes vermes Caenorhabditis elegans, que têm cerca de 1 mm, partilham muitas das características biológicas dos seres humanos. Também são afetados pelas mudanças biológicas causadas pela vida no espaço - que incluem alterações na massa muscular e na capacidade de usar energia.

Esta pesquisa "terá implicações não apenas para os astronautas, mas também para muitas situações na Terra", disse à BBC Bethan Philips, professora associada de fisiologia clínica, metabólica e molecular.

A experiência Cell Science-04 visa identificar os genes envolvidos na adaptação e sobrevivência dos tardígrados em ambientes de alto stress.

A experiência Cell Science-04 visa identificar os genes envolvidos na adaptação e sobrevivência dos tardígrados em ambientes de alto stress.

Cultura RM Exclusive/Gregory S. / Getty Images

Experiência com tardígrados, os animais mais indestrutíveis da Terra

Os tardígrados, os animais mais resistentes da Terra - criaturas com um milímetro de comprimento que podem sobreviver a 150ºC ou congeladas até quase zero absoluto - são de extremo interesse para os cientistas que querem estudar como se adaptam no espaço.

Estes seres microscópicos são capazes de sobreviver à radiação extrema; a pressões seis vezes maiores que as encontradas nas partes mais profundas do oceano e ao vácuo total do espaço.

“Uma das coisas que realmente queremos fazer é compreender como os tardígrados sobrevivem e se reproduzem nesse ambiente e se podemos aprender alguma coisa sobre os estratagemas que usam e adaptá-los para proteger os astronautas", explicou o cientista responsável por esta experiência, Thomas Boothby, da Universidade de Wyoming.

Estas habilidades tornam os tardígrados um organismo de pesquisa muito útil a bordo da ISS, onde os astronautas esperam identificar os genes específicos responsáveis pela notável capacidade de adaptação das pequenas criatura em ambientes de alto stress e assim obter dados vitais sobre os impactos na saúde dos astronautas nas viagens espaciais de longa duração.

Estes são só alguns exemplos das várias e extraordinárias experiências científicas que são feitas a bordo da ISS e que têm impacto na Terra.

Entre mantimentos para a tripulação da Estação Espacial, plantas de algodão, aparelho científicos, como um ultrassom portátil, painéis solares, e muito mais, esta missão de reabastecimento transporta mais de 3.300 kg de carga.

Estação Espacial Internacional, o posto avançado da Terra no espaço

A Estação Espacial Internacional (ISS) é o maior laboratório científico construído fora da Terra. Está em órbita há 23 anos a cerca de 400 km de altitude. O primeiro módulo foi lançado a 20 de novembro de 1998, mas a evolução é contínua. É a maior construção que o Homem fez fora da Terra numa parceria que junta nações "rivais".

A 23 de abril, o astronauta da ESA Thomas Pesquet partiu para a Estação para uma missão de seis meses, acompanhado pelos astronautas da NASA Shane Kimbrough e Megan McArthur e pelo astronauta da agência espacial japonesa JAXA Akihiko Hoshide. É o quarto europeu a comandar a Estação e o primeiro a voar no foguetão Crew Dragon da SpaceX.

A próxima missão será comandada pela primeira vez por uma europeia, Samantha Cristoforetti, a primeira mulher europeia a comandar estação espacial.