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O que é o "quiet quitting"? Conheça a nova tendência para trabalhar menos

O que é o "quiet quitting"? Conheça a nova tendência para trabalhar menos
Westend61
A tendência que se tornou viral nas redes sociais quer acabar com a ideia de que o trabalho é a vida.

Imagine que sempre que chegasse o final do seu turno parava de trabalhar. Não havia horas extra nem aqueles 10 minutos para acabar a tarefa que não quer deixar pendente. Ou imagine que o seu trabalho não ia além das suas funções, sem o chamado “amor à camisola” ou aquele extra só para agradar ao chefe. “Quiet quitting” é a nova tendência que pretende acabar com a ideia de que a vida gira em torno do trabalho.

A tendência tornou-se viral através da rede social Tik Tok. A frase “quiet quitting” – que em português significa “demissão silenciosa” – começou por ser partilhada num vídeo do utilizador @zkchillin. O “quiet quitting” é apresentado como uma forma das pessoas se demitirem “da ideia de ir mais além no trabalho”. Segundo esta onda de pensamento, o trabalhador mantém o seu emprego, mas irá apenas “realizar os deveres, deixando de subscrever a cultura agressiva de mentalidade de que o trabalho tem de ser a sua vida”.

O “quiet quitting” pode ser entendido como uma demissão passiva e consiste em realizar o mínimo, básico e essencial do trabalho, sem fazer horas a mais ou esforçar-se além do necessário. Esta tendência não é nova e já teve diferentes nomes em várias gerações de trabalhadores. Para uns é conhecida como “coasting”, outros referem-se a esta modalidade como “slacking off”. Para muitos trata-se simplesmente de “impor limites” no trabalho.

Anthony Klotz, professor da Faculdade de Gestão da Universidade de Londres sublinha, em declarações à BBC, que este tipo de não envolvimento já tem vindo a ser estudado: “Embora isso tenha vindo de uma geração mais jovem e em novas embalagens, esta tendência foi estudada sob diferentes nomes por décadas: não envolvimento, negligência, retirada.”

Há muitas pessoas que não estão em condições de deixar o seu cargo: podem ter habilidades intransferíveis, flexibilidade acumulada e benefícios que não podem ter em outro lugar ou viver numa pequena comunidade com escassez de outras oportunidades”, prossegue o professor.

A insatisfação profissional pode também contribuir para que os funcionários acabem por se juntar ao movimento “quiet quitting”: objetivos frustrados ou a falta de reconhecimento por parte dos superiores podem provocar desânimo ou ansiedade. O desejo de progressão de carreira pode conduzir a um aumento da carga de trabalho, que acaba por levar a um ciclo vicioso com consequências graves para a saúde mental.

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Os limites entre a vida pessoal e a vida profissional ganharam novo destaque nos últimos tempos – principalmente desde a pandemia. Com o teletrabalho, muitos profissionais passaram a estar permanentemente ligados ao trabalho – fosse através de e-mails ou chamadas do chefe fora de horas, fosse através daquela hora extra só para terminar o serviço.

Por essa razão, em dezembro de 2021, Portugal destacou-se pela positiva ao aprovar o “direito a desligar”, uma lei que prevê consequências para as empresas que contactassem os trabalhadores em teletrabalho fora dos horários de serviço. Na lei n.º 83/2021, está definindo “o empregador tem o dever de se abster de contactar o trabalhador no período de descanso, ressalvadas as situações de força maior”, constituindo “contraordenação grave a violação” deste artigo. No entanto, esta medida apenas se aplica ao funcionários em teletrabalho.

Depois da pandemia, muitos trabalhadores procuraram novas oportunidades no mercado do trabalho. Essa tendência é muito visível no Reino Unido, que registou em 2021 um aumento acentuado de pessoas a demitirem-se do trabalho. Um quinto dos funcionários britânicos planeia demitir-se no próximo ano, seja por insatisfação profissional ou por procurarem melhores salários.

E para os empregadores: “quiet quitting” traz vantagens ou problemas?

Apesar do “quiet quitting” parecer um problema para os empregadores – uma vez que os funcionários trabalham menos e estão menos disponíveis para horas extra –, na verdade esta tendência pode ser vantajosa para os patrões. Isto porque a saúde mental dos trabalhadores tem um forte impacto financeiro nas empresas.

Um funcionário feliz produz mais e é mais empenhado no seu trabalho. Ao ter mais tempo para a dedicar à vida pessoal, familiar, aos amigos e aos hobbies, os trabalhadores podem passar a estar menos distraídos no trabalho e podem tornar-se mais empenhados nas suas funções, afirma Nilufar Ahmed, professora de Ciências Sociais na Universidade de Bristol, num artigo do The Conversation.

Quando a saúde mental não é tida em conta, os trabalhadores podem entrar em situações de burnouts ou esgotamentos. Estas condições implicam gastos avultados tanto para o trabalhador, como para a empresa. Um funcionário que esteja em burnout não irá conseguir realizar as suas funções no total das suas capacidades e, em casos mais graves, pode mesmo ter de recorrer a baixa médica.

A Organização Mundial de Saúde reconheceu, em 2019, que o burnout é um “fenómeno ocupacional” que se caracteriza por três dimensões principais: “sentimentos de esgotamento ou exaustão energética; aumento de distância mental do trabalho, sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados com o trabalho; e eficácia profissional reduzida”.

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