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Nobel da Química atribuído a Carolyn Bertozzi, Morten Meldal e Barry Sharpless

Nobel da Química atribuído a Carolyn Bertozzi, Morten Meldal e Barry Sharpless
TT NEWS AGENCY
Os três cientistas “criaram uma engenhosa ferramenta para construir moléculas”

O prémio Nobel da Química foi hoje atribuído aos norte-americanos Carolyn Bertozzi, Barry Sharpless e ao dinamarquês Morten Meldal, "pelo desenvolvimento da química de cliques e química 'bioorthogonal', anunciou a Real Academia Sueca de Ciências.

Barry Sharpless, de 81 anos, recebe o Nobel pela segunda vez, a primeira foi em 2001. É a quinta pessoa a receber o prémio duas vezes na vida.

Carolyn Bertozzi é a primeira mulher a vencer um Nobel esta temporada.

De acordo com Hans Ellegren, secretário-geral da Real Academia Sueca de Ciências, que anunciou os laureados deste ano, os três cientistas criaram uma engenhosa ferramenta para construir moléculas.

O termo química 'bioorthogonal' refere-se a qualquer reação química que pode ocorrer dentro de sistemas vivos sem interferir nos processos bioquímicos nativos. O termo foi cunhado por Carolyn R. Bertozzi em 2003.

O Nobel foi também atribuído pelo desenvolvimento da química de cliques, uma classe de reações químicas que se juntam (clicam) para formar uma biomolécula específica, uma forma de criar “produtos” que se inspira em exemplos da natureza.

O conceito tem sido usado para aplicações farmacológicas e de rotulagem, como por exemplo, a rotulagem de carbono-11 e flúor-18, e várias aplicações biomiméticas.

Nobel da Química melhora medicamentos contra o cancro

O trabalho dos premiados deste ano contribuiu para melhorar os medicamentos contra o cancro, avançou a Real Academia de Ciências da Suécia, acrescentando que a investigação “ultrapassa as fronteiras [da química] e tem um grande impacto na ciência e na sociedade”.

“A química do clique é usada no desenvolvimento farmacêutico, para mapear o DNA e criar materiais mais adequados à finalidade. Usando reações ‘bioorthogonais’, os investigadores melhoraram o direcionamento dos fármacos anticancerígenos”, explicou a academia sueca.

O prémio recompensa trabalhos que “facilitam processos difíceis. A química do clique e as reações ‘bioorthogonais’ trouxeram a química para a era do funcionalismo”, acrescentou.

Segundo a mesma fonte, os vencedores deste ano “estabeleceram as bases para uma forma funcional de química, a química do clique, na qual os blocos de construção molecular são unidos de forma rápida e eficiente”.

Bertozzi, em particular, “levou a química do clique para uma nova dimensão e começou a usá-la em organismos vivos. As suas reações ‘bioorthogonais’ ocorrem sem perturbar a química normal da célula”.

A academia sueca lembrou que “já há muito tempo que os químicos são movidos pelo desejo de construir moléculas cada vez mais complicadas” e, “na pesquisa farmacêutica, isso envolveu, muitas vezes, a recriação artificial de moléculas naturais com propriedades medicinais”.

Isso deu origem a muitas construções moleculares admiráveis, mas geralmente são demoradas e têm uma produção muito cara, referiu a academia, em comunicado.

Sharpless, que agora está a receber o seu segundo Prémio Nobel de Química, começou a “dar o pontapé inicial”, alegou a academia, lembrando que este cientista criou o conceito de química do clique, uma forma simples e confiável de química, na qual as reações ocorrem rapidamente e os subprodutos indesejados são evitados.

Pouco tempo depois, Meldal e Sharpless, independentemente um do outro, apresentaram o que é agora a joia da coroa da química do clique: a cicloadição azida-alcino catalisada por cobre.

“Esta é uma reação química elegante e eficiente que é agora de uso generalizado. Entre muitos outros usos, permite o desenvolvimento de produtos farmacêuticos, para mapear DNA e criar materiais mais adequados para o objetivo final”, explicou a academia.

Por seu lado, Bertozzi conseguiu usar a química do clique para mapear biomoléculas importantes, mas evasivas, na superfície das células (glicanos), desenvolvendo reações de clique que funcionam dentro de organismos vivos.

As suas reações ‘bioorthogonais’ acontecem sem alterar a química normal da célula, acrescentaram os responsáveis da instituição do Nobel.

“O Prémio de Química deste ano tenta não complicar demais as coisas, mas trabalhar com o que é fácil e simples. Moléculas funcionais podem ser construídas mesmo seguindo um caminho direto”, afirmou o presidente do Comité Nobel de Química, Johan Åqvist.

Temporada Nobel 2022

Este é o terceiro dos Nobel a ser anunciado este ano.

Na segunda-feira foi entregue o da Medicina ao sueco Svante Pääbo.

Na terça-feira, o Nobel da Física foi atribuído a Alain Aspect, John F. Clauser e Anton Zeilinger.

Na quinta-feira, dia 6 de outubro, será atribuído o Nobel da Literatura e na sexta-feira será conhecido o nome do novo Nobel da Paz.

O último anúncio será feito no dia 10 de outubro com o vencedor do Nobel da Economia.

O prémio consiste numa medalha, um diploma e dez milhões de coroas suecas (mais de 953.000 euros).

Curiosidades sobre os Prémios Nobel

Os prémios Nobel nasceram da vontade do cientista e industrial sueco Alfred Nobel (1833-1896) em legar grande parte de sua fortuna a pessoas que trabalhem para “o benefício da humanidade”.

Um erro na origem dos prémios?

Em 12 de abril de 1888, o irmão mais velho de Alfred Nobel, Ludvig, morreu em Cannes, França. Mas o Le Figaro engana-se e anuncia na primeira página a morte de Alfred: "Um homem que dificilmente pode ser considerado um benfeitor da humanidade morreu ontem em Cannes. O senhor Nobel, inventor da dinamite".

Este obituário prematuro terá atormentado Alfred Nobel e terá sido a razão para a criação dos prémios. Talvez por isso Nobel tenha escrito que os prémios distinguiriam aqueles que trabalharam “em benefício da humanidade”.

Prémio apenas para pessoas vivas

Desde 1974, os estatutos da Fundação Nobel estipulam que um prémio não pode ser concedido postumamente, a menos que a morte ocorra após o anúncio do nome do vencedor.

Até então, apenas duas personalidades falecidas foram recompensadas: o poeta sueco Erik Axel Karlfeldt (literatura em 1931) e o secretário-geral da ONU Dag Hammarskjöld, que foi assassinado (Nobel da Paz em 1961).

Uma vez o Nobel não foi concedido em homenagem a um vencedor falecido. Foi em 1948, após a morte de Gandhi.

Uma fortuna em troca de uma medalha Nobel

Os Prémios Nobel consistem numa soma de dez milhões de coroas por categoria (cerca de 900.000 euros) e uma medalha de ouro de 18 quilates.

Mas o vencedor do Nobel da Paz de 2021, o jornalista russo Dmitry Muratov, conseguiu transformar ouro em fortuna, em benefício das crianças ucranianas. Em junho, a medalha de 196 gramas recebida pelo co-vencedor de 2021 foi vendida por 103,5 milhões de dólares a um filantropo anónimo, valor que foi doado à UNICEF.

Um Nobel pioneiro em 1903 sobre o aquecimento global

O físico e químico sueco Svante Arrhenius recebeu o Nobel da Química em 1903 pela sua "teoria eletrolítica da dissociação".

Mas foi outro trabalho que lhe valeu o estatuto de pioneiro: no final do século XIX, foi o primeiro a teorizar que a combustão de combustíveis fósseis - na época, especialmente o carvão - lançava CO2 para a atmosfera causando o aquecimento do planeta. Segundo os seus cálculos, a duplicação da concentração de dióxido de carbono aqueceria o planeta em 5°C - os modelos modernos preveem de 2,6 a 3,9°C. Longe de suspeitar as quantidades cada vez maiores de combustíveis fósseis que a humanidade viria a consumir, Arrhenius subestimou a velocidade a que esse nível será alcançado e previu que esse aquecimento ocorreria em 3.000 anos.

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