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Os anúncios da primeira-ministra britânica após demissão de ministro das Finanças

Os anúncios da primeira-ministra britânica após demissão de ministro das Finanças
Daniel Leal/AP
A primeira-ministra britânica Liz Truss invocou o "interesse nacional" e a necessidade de estabilidade económica no Reino Unido para demitir o ministro das Finanças.

A semana terminou de forma tensa no Reino Unido. Pela manhã, o jornal The Times anunciava a saída do ministro das Finanças de Liz Truss. Para as 14:00 foi agendada uma conferência de imprensa sem ser revelado o assunto. Mas, entretanto, a demissão de Kwasi Kwarteng confirmou-se, bem como, o nome do seu sucessor.

Falhando a pontualidade britânica, já passavam vários minutos das 14:00 quando Liz Truss se dirigiu ao país. Chegou a ser avançado que iria anunciar um recuo ao controverso “mini-orçamento” apresentado há três semanas, mas não. A chefe do Governo britânico confirmou as mudanças no elenco governativo e reafirmou que a estratégia vai manter-se.

"A minha prioridade é garantir a estabilidade económica que o nosso país necessita. Foi por isso que tive de tomar as decisões difíceis que tomei hoje. (…) Os britânicos querem estabilidade [e] eu estou determinada a cumprir o que prometi", afirmou Liz Truss vincando, várias vezes, que agirá "sempre pelo interesse nacional”.

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A primeira-ministra britânica confirmou a saída do elenco governativa do seu “grande amigo” Kwasi Kwarteng, que “partilha a minha visão para colocar o país no rumo do crescimento", e confirmou a nomeação de Jeremy Hunt, “um dos mais experientes e respeitados entre os membros do governo e parlamentares”.

Apesar dos elogios ao ministro demissionário, Truss reconheceu que parte do mini-orçamento “foi mais longe e mais depressa do que os mercados estavam à espera".

“A forma como estamos a comunicar a nossa mensagem tem de mudar. Temos de agir já para tranquilizar os mercados sobre a nossa disciplina orçamental. Decidi então aumentar o IRC de 19% para 25% (…). Isso irá aumentar a receita anual em 18 mil milhões de libras (21 mil milhões de euros no câmbio atual)”

Truss já tinha sido forçada antes a abandonar a abolição do escalão máximo de 45% do imposto sobre os rendimentos, aplicado a ganhos superiores a 150 mil libras (172 mil euros) por ano, poupando também 2.000 milhões de libras (2.300 milhões de euros).

“Vou ser honesta, a situação é difícil mas enfrentaremos a tempestade e iremos conseguir um crescimento forte e sustentável que pode transformar a prosperidade do nosso país para as próximas gerações. (…) Estou absolutamente determinada em cumprir o que prometi, a proporcionar um maior crescimento, um Reino Unido mais próspero para nos ajudar a enfrentar a tempestade”, declarou.

Através do Twitter, o editor de política do jornal Times revelou os acontecimentos que iriam marcar o dia. A primeira-ministra britânica iria demitir e anunciar, esta sexta-feira, o sucessor de Kwasi Kwarteng. E, ainda antes da conferência de imprensa, tudo se confirmou.

Na sequência da nomeação do novo ministro Jeremy Hunt, o gabinete de Truss informou que Edward Argar vai substituir Chris Philp como secretário de Estado das Finanças, que foi transferido para secretário de Estado do Conselho de Ministros.

As primeiras reações

A deputada Trabalhista e ministra sombra das Finanças, Rachel Reeves, considerou esta inversão de marcha "humilhante", mas necessária.

"Os verdadeiros danos já foram causados a milhões de pessoas normais que agora pagam hipotecas muito mais elevadas e lutam para conseguir pagar as contas", lamentou.

O partido Liberal Democrata foi mais longe e pediu eleições legislativas antecipadas, acusando Liz Truss de ter "destruído a economia" britânica, com o líder, Ed Davey, a sugerir que está na "altura de o povo ter uma palavra a dizer".

Quem é Jeremy Hunt

Hunt foi ministro dos Negócios Estrangeiros durante um ano no governo de Theresa May e, antes disso, foi ministro da Saúde e da Cultura no governo de David Cameron.

JON SUPER/AP

O deputado foi o finalista vencido à liderança em 2019, contra Boris Johnson, e foi derrotado na primeira volta na eleição deste verão, tornando-se dos mais proeminentes apoiantes de Rishi Sunak contra Liz Truss.

A nomeação de Hunt é vista por comentadores políticos como uma forma de a líder dos 'tories' apaziguar os mercados financeiros e a ala centrista do partido, origem de grande parte das críticas internas dos últimos dias à estratégia económica do executivo.

Pressão obriga Truss a agir

A pressão dentro do Partido Conservador para o Governo recuar em algumas das medidas anunciadas, nomeadamente cortes fiscais, terá levado Truss a agir.

Na origem da crise está um plano para estimular a economia que, juntamente com medidas para congelar os preços da energia, incluiu um grande pacote de cortes fiscais totalmente financiados por endividamento.

O risco de um aumento insustentável da dívida pública foi mal recebido pelos mercados financeiros, o que resultou na desvalorização da libra e subida dos juros sobre a dívida britânica e do crédito à habitação.

O Banco de Inglaterra foi forçado a intervir no mercado obrigacionista, o que ajudou a estabilizar a libra e a dívida, mas o plano do governo britânico foi criticado pelo FMI devido ao risco de agravar a inflação, e as agências Fitch e Standard and Poor's reduziram de estável para negativo o 'rating' do Reino Unido.

O ministro já tinha sido obrigado a antecipar a apresentação do "plano fiscal a médio prazo" para 31 de outubro, mas vários deputados do Partido Conservador continuaram a pressionar para que fossem anunciadas medidas mais cedo para acalmar os mercados financeiros.

Kwarteng, o segundo ministro mais curto da história

Foi empossado a 6 de setembro, logo após a entrada de Liz Truss, mas hoje, dia 14 de outubro entrou para história. Kwasi Kwarteng tornou-se no ministro das Finanças com o segundo mandato mais curto na história: apenas 38 dias.

O Conservador Iain Macleod foi aquele que esteve menos tempo no posto porque morreu de ataque ataque cardíaco 30 dias depois de ter assumido o cargo, em 1970.

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