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Promessas de casamento que acabavam em crime: o “modus operandi” de Andrew Tate

Promessas de casamento que acabavam em crime: o “modus operandi” de Andrew Tate
Alexandru Dobre

Duas jovens e um guarda-costas de Andrew Tate revelaram os métodos que o influencer utilizaria para atrair as alegadas vítimas. Simples mensagens nas redes sociais ou encontros com promessas de casamento: era assim que tudo começava.

Promessas de relações românticas e casamento que alegadamente acabavam em sequestro, tráfico humano e violação. Seria este o ‘modus operandi’ de Andrew Tate, o famoso influencer - que se autoproclama como misógino - detido na Roménia por suspeitas de pertencer a um grupo criminoso.

Como Andrew Tate atraía as vítimas

Tudo começava com uma simples mensagem nas redes sociais. A revelação é feita por duas jovens à BBC, que mostraram e contaram como o influencer as abordou. Mas a ‘fórmula’ para atrair as alegadas vítimas chegou a ser revelada pelo próprio em vários vídeos que publicava nas suas contas nas redes sociais.

Num desses vídeos, Andrew Tate ensinava aos seguidores como abordar mulheres nas redes sociais.

“Pela minha experiência, o que gera interesse e as impele a responder é perguntar-lhes onde estão. (...) Às vezes, para gerar intriga, coloco um emoji qualquer no fim: umas cerejas, uma laranja ou um morango”, contava.

A história bate certo com a que revela Daria Gusa. Tinha 16 anos e ainda andava na escola quando recebeu uma mensagem privada no Instagram do influencer, cerca de 20 anos mais velho que a então adolescente.

“A mensagem dizia apenas ‘rapariga romena’ e no final tinha um emoji de um morango. Fiquei confusa porque eu tinha apenas 200 seguidores e a minha conta era privada”, conta à BBC, mostrando um screenshot da mensagem que recebeu.

“Era óbvio que eu andava na escola. Tinha o nome da minha escola no perfil e tudo. Acho que ele estava a tentar encontrar as raparigas mais inocentes ou ingénuas”, disse.

Daria nunca chegou a responder à mensagem, mas Gabriela [nome fictício] respondeu. De acordo com a BBC, a jovem tinha apenas 17 anos na altura que Andrew Tate a contactou por mensagem: “És linda”, escrevia apenas.

“Eu sabia que ele estava a usar a mesma abordagem com várias raparigas. Usava sempre a mesma frase”, conta, revelando que o influencer chegou a contactar também amigas dela.

No suposto vídeo em que Tate instruía os seguidores a abordar mulheres e jovens nas redes sociais, o influencer terá dito que a frase “és linda” era um “exemplo perfeito” de como iniciar uma conversa.

Gabriela chegou a manter a conversa com Andrew Tate, mas a troca de mensagens terminou abruptamente, contou à BBC, depois de ter partilhado um vídeo sobre ele. Uma das últimas mensagens que diz ter recebido do influencer dizia o seguinte: “Pessoas importantes não vão querer falar contigo se fazes coisas destas. É apenas um aviso amigável”.

As revelações do guarda-costas

Bogdan Stancu, guarda-costas do influencer anglo-americano, revelou também à BBC que mais de 100 mulheres “passaram” pela luxuosa casa de Tate em Bucareste, na Roménia, nos dois anos em que este lá esteve, até ser detido recentemente.

A maioria destas mulheres teria menos de 25 anos e, de acordo com o guarda-costas, todas as suas despesas seriam pagas por Andrew Tate.

“Algumas acreditavam que iam casar com ele. Quando se apercebiam da realidade, era fácil ele passar de bestial a besta e fazerem queixa na polícia”, conta Bogdan.

O “negócio” de Andrew Tate

As autoridades suspeitam que Andrew Tate e o irmão façam parte de uma organização criminosa que recruta e explora mulheres, obrigando-as a criar conteúdo pornográfico para posterior distribuição.

O próprio influencer chegou a revelar detalhes sobre o seu negócio:

“Tenho um estúdio de webcam há mais de uma década. A maioria das minhas funcionárias foram minhas namoradas e nenhuma tinha entrado na indústria de entretenimento para adultos até me conhecer”, contou.

Para chegar a esse ponto, Tate dizia que “conhecia raparigas, tinha alguns encontros, dormia com elas e fazia com que se apaixonassem ao ponto de fazerem tudo” por ele. Depois, “convencia-as a aparecer na webcam para enriquecermos juntos”.

Na versão das autoridades, as mulheres acabavam por ser alvo de violência física, mental e sexual.

“Propriedade” dos irmãos Tate

Durante as investigações, pelo menos seis mulheres terão sido identificadas como potenciais vítimas deste ‘modus operandi’ do influenciador. No entanto, duas delas já vieram negar publicamente terem sofrido abusos por parte dos irmãos Tate.

As duas mulheres - que tatuaram no corpo as frases “propriedade de Tate” ou “rapariga de Tate” - trabalhariam para os dois irmãos no negócio das webcam. Uma delas, que se identificou como Beatrice, afirmou mesmo que era “amiga próxima” e que tinha feito a tatuagem “por respeito”.

“Nunca fui ameaçada. Se isso tivesse acontecido, não teria sido estúpida e ficado naquela casa. Não podem descrever-me como vítima porque não o sou”, afirmou, citada pela BBC.

Porquê a Roménia?

Andrew Tate mudou-se para a Roménia em 2017 e num vídeo nas redes sociais explicou que o motivo da escolha se prendia com a forma como as autoridades romenas lidavam com casos de violação.

“As pessoas dizem que eu sou um violador. Não, não sou, mas gosto da ideia de poder fazer o que quiser, ser livre”, afirmou, acrescentando que se uma mulher “for à polícia [romena] e disser ‘ele violou-me ontem’, eles vão pedir provas”.

O ponto de situação da investigação

Esta sexta-feira, Andrew Tate e o irmão, Tristan, ficaram a saber que vão continuar detidos pelo menos até 27 de fevereiro, depois de um tribunal romeno ter estendido o período de detenção.

Os irmãos encontram-se detidos desde 29 de dezembro, enquanto as autoridades romenas investigam as alegações de sequestro, tráfico humano e violação, algo que ambos negam.

A informação inicial partiu da embaixada dos Estados Unidos na Roménia, que alertou as autoridades locais para o sequestro de uma norte-americana de 21 anos na casa dos irmãos Tate.

Além dos irmãos Tate, as autoridades suspeitam que mais dois cidadãos romenos façam parte da organização criminosa.