O porta-voz da região de Lázio levou toda a oposição italiana a exigir a sua demissão à primeira-ministra Giorgia Meloni, após defender membros de uma organização neofascista condenados pelo atentado terrorista de 1980 em Bolonha, que causou 85 mortos.
Na semana passada, Marcello de Angelis, antigo senador e agora responsável pela comunicação da região de Lázio (centro, cuja capital é Roma), escreveu na sua conta na rede social Facebook que tem a certeza da inocência de três membros do grupo terrorista de inspiração neofascista Núcleo Armado Revolucionário (NAR) condenados pelo maior atentado em Itália desde a II Guerra Mundial, que provocou, além de 85 mortos, mais de 200 feridos.
Luigi Ciavardini, Valério Fioravanti, Francesca Mambro e Gilberto Cavallini, todos membros do grupo terrorista de extrema-direita, assim como Paolo Bellini, foram declarados os autores materiais do atentado de 2 de agosto de 1980 na estação ferroviária de Bolonha, e condenados a 30 anos de prisão.
Depois da publicação de Marcello de Angelis, que é cunhado de Luigi Civardini e tem ele próprio um passado ligado a movimentos de extrema-direita nas décadas de 1970 e 80, toda a oposição e associações de familiares das vítimas manifestaram a sua indignação por o porta-voz da região de Lázio colocar em causa a natureza neofascista do atentado, e exigiram a sua demissão, quer ao presidente da região, o conservador Francesco Rocca, quer à primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni.
"Não aceitamos mais mentiras e tentativas de reescrever a história, negando as provas do julgamento pelas quais a associação das famílias das vítimas tanto lutou e pelas quais a acusação e a polícia tanto trabalharam nos últimos anos", comentou esta segunda-feira a líder da oposição, Elly Schlein, do Partido Democrático (centro-esquerda).
Meloni em silêncio
De acordo com a imprensa italiana, Meloni não quis intervir diretamente, mas pediu a Rocca que afaste do cargo De Angelis, algo que ainda não é certo que aconteça, até porque o presidente da região da Lázio já disse que o porta-voz "falou a título pessoal" e anunciou que só tomará uma decisão depois de ambos conversarem.
A polémica publicação de De Angelis ocorreu na sequência da comemoração do 43.º aniversário do massacre, a 2 de agosto, que já ficara marcado pela polémica, dado a primeira-ministra Giorgia Meloni, líder do partido de extrema-direita Irmãos de Itália, não ter comparecido e, na mensagem divulgada por ocasião da efeméride, ter-se escusado a mencionar a motivação neofascista do atentado e ter defendido a busca da "verdade sobre os massacres que marcaram a Itália no pós-guerra".
As palavras de Meloni, consideradas ambíguas, contrastaram com as do Presidente de Itália, Sergio Matarella, que na ocasião sublinhou que "a matriz neofascista do massacre foi apurada nos processos e foram descobertos encobrimentos e enganos desprezíveis, nos quais participaram associações secretas e agentes desleais dos aparelhos do Estado".
