As autoridades belgas suspeitam que vários eurodeputados receberam dinheiro para enviarem uma carta à Comissão Europeia favorável à empresa chinesa Huawei. Em causa estão milhares de euros que terão passado por duas contas portuguesas e pelo lobista Nuno Wahnon Martins. O português contesta todos os factos.
Depois do Qatargate, o Parlamento Europeu voltou a ser alvo de buscas e de suspeitas, desta vez a envolver a Huawei. No centro da investigação das autoridades belgas está uma carta que oito eurodeputados terão escrito à Comissão Europeia, em fevereiro de 2021, sobre a rede 5G e em que pedem maior abertura da União e a não discriminação de empresas só por não serem europeias.
A carta não inclui a palavra "Huawei", mas os investigadores suspeitam que foi escrita para influenciar a Comissão Europeia a favor da gigante chinesa e que os subscritores do documento podem ter sido pagos para isso.
O dinheiro terá alegadamente passado por duas contas portuguesas, e é aqui que entra Nuno Wahnon Martins. As autoridades acreditam que pode ter sido através do lobista, e de forma camuflada, que os signatários da carta foram pagos, nomeadamente o eurodeputado Fulvio Martusciello, de quem Wahnon Martins foi, em tempos, conselheiro.
O circuito do dinheiro é traçado no mandado de detenção de uma assistente de Martusciello, a que o jornal italiano La Repubblica teve acesso e partilhou com a SIC e o Expresso.
Nas buscas feitas na Bélgica e em Portugal, os investigadores consideram suspeitas as transferências feitas pela Huawei para duas empresas: uma britânica de eventos e outra belga, de design. Wahnon Martins terá passado duas faturas descritas como fictícias, num total de 45.950 euros.
De seguida, as autoridades descrevem várias transferências, incluindo uma de mil euros para a assistente de Martusciello e várias para o político italiano, num total de 6.700 euros.
São ainda mencionadas outras transferências, incluindo 14.800 euros para um assistente do Parlamento Europeu, cujo gabinete foi lacrado pela polícia no dia 13 de março.
No mesmo dia, Wahnon Martins foi detido em França, onde ainda se encontra à espera da extradição para a Bélgica.
Contactado pela SIC, o advogado do português, Christophe Ingrain respondeu que o cliente contesta os factos de que é suspeito e remete todas as explicações para o juiz de instrução.
Para além do dinheiro, os investigadores suspeitam ainda que o português ajudou um lobista da Huawei a escrever o conteúdo da carta que os eurodeputados enviaram à Comissão.
Confrontada com as suspeitas, a empresa chinesa responde e repete que leva a sério as alegações e que tem tolerância zero com a corrupção.
