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Organização critica atuação da polícia brasileira na megaoperação no Rio de Janeiro

Esta semana, cerca de 2.500 policias militares e civis fortemente armados, apoiados por veículos blindados e helicópteros, entraram em bairros dos complexos do Alemão e da Penha numa operação contra uma das mais poderosas fações criminosas do Brasil.

Organização critica atuação da polícia brasileira na megaoperação no Rio de Janeiro
Aline Massuca

A Human Rights Watch (HRW) criticou, este sábado, a atuação da polícia brasileira nas investigações sobre a morte de mais de 100 pessoas durante uma operação policial na terça-feira em favelas do Rio de Janeiro.

Segundo a HRW, a polícia não preservou o local dos tiroteios para análise, uma medida considerada importante para determinar as circunstâncias das mortes.

Um perito do Rio de Janeiro disse à organização internacional que, pelo que sabe, não houve perícia em nenhuma das mortes.

Já um promotor terá acrescentado que o Ministério Público está a aguardar a confirmação se foi de facto essa a forma de atuar da polícia.

"As famílias das pessoas mortas na operação de 28 de outubro [terça-feira], incluindo as dos polícias, merecem saber as circunstâncias da morte dos seus entes queridos. Estamos muito preocupados porque etapas cruciais da investigação não foram realizadas e provas importantes podem já ter sido perdidas", disse o representante da Human Rights Watch no Brasil, César Muñoz.

Cerca de 2.500 policias militares e civis fortemente armados, apoiados por veículos blindados e helicópteros, entraram em bairros dos complexos do Alemão e da Penha numa operação contra uma das mais poderosas fações criminosas do Brasil.

Seguiram-se tiroteios que duraram horas.

Dezenas de corpos encontrados em zona de mata

As autoridades informaram nesse dia que 64 pessoas morreram, incluindo quatro policias. No dia seguinte, os moradores encontraram dezenas de outros corpos numa área de mata. 

O secretário da polícia militar disse que a policia empurrou os membros do grupo criminoso em direção à área de mata que eles usavam como rota de fuga.

Ao que tudo indica, a unidade de elite da polícia militar, o BOPE, estabeleceu um "muro", com agentes à espera pelos supostos membros da fação em fuga.

Uma moradora, cujo corpo do filho foi encontrado na mata, disse à imprensa que este lhe enviou a sua localização e disse que se queria entregar, mas tinha medo de que a polícia o matasse.

Já o perito consultado pela HRW acredita que os polícias recuperaram as armas que estavam nas mãos das pessoas mortas no local e foram-se embora.

Na manhã de quarta-feira, moradores foram até à área de mata e recuperaram dezenas de corpos, que foram levados para uma praça no bairro da Penha.

Também jornalistas terão encontrado nessa área provas como manchas de sangue, cápsulas de balas e roupas.

"Reconhecemos as dificuldades inerentes a uma área de mata, mas causa estranheza a ausência de controlo sobre o isolamento do local", disse o procurador-geral do estado do Rio de Janeiro.

Aberta investigação a moradores que retiraram corpos

O secretário de polícia civil, chefe da força estadual encarregada de investigar crime, disse que abriu uma investigação sobre os moradores que removeram os corpos por possível adulteração de provas, acusando-os de tirar as roupas dos mortos.

Mas para a Human Rights Watch, os moradores só conseguiram chegar aos corpos porque a polícia não protegeu o local do tiroteio.

A organização também questiona o facto de os peritos criminais não terem ido à praça para onde os moradores removeram dezenas de corpos, disse o perito.

"Essa foi uma importante falha adicional da investigação", afirmou a organização, considerando que peritos criminais deveriam ter ido à praça para tirar fotografias e recolher provas, incluindo amostras de resíduos de pólvora.

Coube aos bombeiros recolher os corpos da praça e levá-los para o Instituto de Medicina Legal (IML), onde peritos estão a realizar autopsias, mas há preocupações com a limitação de pessoal e da infraestrutura, além do subinvestimento crónico na perícia do estado.

Algumas organizações da sociedade civil, incluindo a Human Rights Watch, solicitaram ao procurador-geral do Rio de Janeiro que garantisse a presença de um representante das vítimas nas autópsias, mas o pedido não terá sido atendido.

A polícia afirmou ter apreendido 118 armas, tendo-as apresentado à imprensa, aspeto que a HRW também questiona, uma vez que o procedimento habitual passa por manter as armas numa cadeia de custódia rigorosa, em sacos lacrados, e enviadas para a perícia para análise de impressões digitais e balística.

Reportagens de televisão mostram polícias e até jornalistas a mexer nas armas e outros equipamentos apreendidos sem luvas.

 Com Lusa