Um grande volume de e-mails (cerca de 20.000 páginas de documentos) ligados a Jeffrey Epstein foi divulgado na quarta-feira passada pelo Comité de Supervisão da Câmara dos Representantes. Nestes documentos, há várias menções a Trump. No meio do frenesim mediático que estes causaram, o presidente dos EUA mudou a estratégia, cortou com aliados e optou pelo silêncio.
Os e-mails que têm deixado a Casa Branca em alvoroço fazem várias referências a Trump e à relação que mantinha com o empresário norte-americano acusado de tráfico de pessoas para abusos sexuais, que se suicidou na prisão em 2019. Por exemplo, num e-mail enviado por Epstein em abril de 2011 a Ghislaine Maxwell há uma frase que tem provocado muita especulação sobre o que significa: "Quero que perceba que aquele cão que não ladrou é Trump."
Num outro e-mail de fevereiro de 2017, Epstein descreve Trump como “a pessoa mais perigosa que já conheci” e, mais tarde, em 2019, Epstein afirma que Trump “sabia das raparigas" e que terá pedido a Ghislaine para parar.
Através dos documentos, ficou ainda a saber-se que Epstein acompanhava de perto os movimentos de Trump. Há trocas de mensagens em que o piloto de Epstein o informa sobre os voos do magnata.
Tudo isto terá inquietado o presidente e fê-lo mudar de ideias relativamente à posição que mantinha em relação à divulgação destes ficheiros. Mas antes, ordenou uma investigação.
Também procurou o silêncio, afastando-se do olhar público e fugindo, tanto quanto possível, das perguntas dos jornalistas.
Uma investigação sobre as ligações de Epstein
Após a divulgação de novos e-mails pelo Congresso, Donald Trump ordenou à procuradora-geral norte-americana, Pam Bondi, que iniciasse uma investigação sobre supostas ligações de Jeffrey Epstein a grandes bancos e a vários democratas como o ex-Presidente Bill Clinton. Foi acusado pelos democratas de tentar desviar a atenção da proximidade com o empresário.
O departamento de Justiça confirmou as investigações e garantiu que iriam ser feitas com urgência e integridade.
Clinton negou ter qualquer ligação com os crimes de Epstein.
Nas ruas próximas da Casa Branca, há quem proteste contra as políticas de Trump e a ligação a escândalos. Num ato simbólico, os manifestantes isolaram a área com uma fita "Cena do crime".
O Presidente dos Estados Unidos continua a alegar distância ao caso Epstein e vai até avançar com um processo contra a BBC, por alegada difamação. Por sua vez, a BBC está "determinada" a defender-se das acusações de Trump.
A mudança de estratégia e promessas de campanha furadas
Durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais, Trump chegou a prometer "grandes revelações" sobre o caso Epstein. Mas, desde que tomou posse, em janeiro de 2024, o líder norte-americano tem insistido que o processo judicial e mediático sobre Epstein é "uma manipulação política destinada a enfraquecer" a administração republicana.
Depois de meses a opor-se à divulgação total dos ficheiros Epstein, Trump muda agora de posição e pediu aos congressistas republicanos para que aprovassem a divulgação dos documentos numa votação que está prevista para terça-feira.
"Os republicanos da Câmara [dos Representantes] devem votar a favor da divulgação dos arquivos de Epstein porque não temos nada a esconder, e é hora de superar esse embuste democrata perpetrado por lunáticos da esquerda radical para desviar a atenção do grande sucesso do Partido Republicano", escreveu Trump, no domingo, na rede social que detém, Truth Social.
A publicação ocorreu esta segunda-feira, horas depois de os meios de comunicação norte-americanos terem noticiado que os republicanos iriam discutir a divulgação de todos os documentos relacionados com Epstein.
Trump garantiu que se o projeto de lei chegar ao seu escritório, assinaria: “Eu deixaria... deixaria qualquer pessoa ver... dar-lhes-íamos tudo.” Mas não sem deixar farpas. O presidente dos EUA continua a afirmar que toda esta controvérsia é uma “farsa dos democratas”.
Robert Garcia, membro do comité de supervisão da Câmara, que divulgou o conjunto de novos documentos, garantiu que Donald Trump "tentou de tudo para acabar com a investigação sobre Jeffrey Epstein" e que esta é uma reação de pânico.
"Está em pânico e percebeu que está prestes a perder essa votação sobre Epstein", afirmou. Em comunicado, garante ainda que "Trump tem o poder de divulgar todos os arquivos", mas não o faz, optando por encobrir os crimes e "lançar novas investigações fraudulentas para desviar a atenção e atrasar a investigação".
Os e-mails de Epstein reacendem muitas das perguntas sobre até que ponto figuras poderosas sabiam ou estiveram envolvidas nos seus crimes.
A rutura com a aliada fiel
Marjorie Taylor Greene, que era até agora a fiel aliada de Trump, tornou-se uma das vozes mais incisivas dentro do partido dos republicados a exigir a divulgação completa dos ficheiros Epstein. Esta posição gerou um confronto direto com o presidente norte-americano, ainda que Greene espere poder reconciliar-se com Trump.
A congressista era uma das republicanas mais radicais e próximas de Donald Trump, mas ter pedido a divulgação de todos os documentos que ligam Trump ao escândalo de abusos sexuais de Jeffrey Epstein foi uma decisão que poderá ter levado o magnata à loucura.
Numa publicação na rede social X, Trump disse que Greene é uma traidora e uma "lunática delirante".
O presidente norte-americano tem negado repetidamente qualquer envolvimento ou conhecimento dos crimes cometidos por Epstein e pela cúmplice, Ghislaine Maxwell, condenada a 20 anos de prisão por tráfico sexual de menores.
Epstein, figura influente da alta sociedade nova-iorquina e próxima de políticos e empresários, foi encontrado morto na prisão em 2019, antes do início do julgamento. O caso foi oficialmente classificado como suicídio, mas há quem acredite que foi silenciado para evitar testemunhos comprometedores.
