A ONU abriu formalmente o processo para escolher o próximo secretário-geral, numa carta conjunta enviada aos 193 Estados-membros, onde apela à apresentação de candidatos que possuam os “mais altos padrões de eficiência, competência e integridade”. O documento destaca também a importância da diversidade de género e da representatividade geográfica. Sem mencionar regiões específicas, a carta abriu caminho a uma disputa que, pela primeira vez em anos, poderá contar com uma forte concentração de candidatos latino-americanos. Três nomes surgem já como fortes candidatos, mas outros podem alinhar-se como possíveis sucessores de António Guterres.
Rafael Grossi (Argentina)
Diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) é, até agora, uma das candidaturas mais visíveis. Diplomata experiente, com forte reputação técnica e política, Grossi tem referido publicamente a sua disponibilidade para liderar a ONU e centrar o mandato na paz, segurança e reforço do multilateralismo.
Licenciado em Ciências Políticas, Grossi tem um mestrado em Relações Internacionais e um doutoramento em História e Política Internacional.
Michelle Bachelet (Chile)
Antiga Presidente do Chile e ex-Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, é um dos nomes mais fortes do lado sul-americano. O seu passado político e o trabalho em direitos humanos conferem-lhe grande potencial para a liderança das Nações Unidas.
A candidatura de Bachelet tem vindo a ser relacionada com um possível impulso para que, pela primeira vez, a ONU seja liderada por uma mulher. Antes de ser Presidente, foi ministra da Defesa e da Saúde. Médica de formação, foi também a primeira diretora-executiva da ONU Mulheres, a agência da ONU que promove igualdade de género, autonomia e os direitos das mulheres.
Rebeca Grynspan (Costa Rica)
Antiga vice-presidente da Costa Rica e atual secretária-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). É vista como uma personalidade com um perfil conciliador e com grande experiência nas áreas de desenvolvimento, comércio e cooperação internacional. É um dos nomes que mais agrada aos países que defendem maior equilíbrio geográfico e de género.
Licenciada pela Universidade da Costa Rica em Economia, área em que tirou o mestrado na Universidade de Sussex, no Reino Unido. Antes de liderar a UNCTAD, ocupou vários altos cargos no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e foi nomeada subsecretária-geral da ONU em 2010.
Outras figuras surgem nos bastidores
Embora três nomes dominem a linha da frente, outros perfis surgem como potenciais candidatos:
María Fernanda Espinosa (Equador) - Antiga presidente da Assembleia-Geral da ONU e ex-ministra dos Negócios Estrangeiros. Tem experiência direta no sistema multilateral e já foi anteriormente considerada potencial candidata.
Mia Mottley (Barbados) - Primeira-ministra e figura de destaque internacional pela defesa do clima e pela reforma da arquitetura financeira global. O seu nome ganhou projeção sobretudo entre países em desenvolvimento e pequenos Estados insulares.
A lista deverá aumentar nas próximas semanas, à medida que mais governos decidam formalizar nomeações.
Como será tomada a decisão
Depois de apresentadas as candidaturas, seguir-se-á uma fase de audições públicas na Assembleia-Geral, um mecanismo de transparência inaugurado em 2016.
Contudo, a escolha efetiva continua a depender do Conselho de Segurança, e sobretudo dos seus cinco membros permanentes (EUA, China, Rússia, Reino Unido e França), que têm poder de veto. Só após a recomendação do Conselho é que a Assembleia-Geral poderá eleger o novo secretário-geral, para um mandato de cinco anos, renovável por mais um.
O que está em jogo
A nova liderança chegará num momento marcado por guerras, fragmentação geopolítica, crises humanitárias consecutivas e uma perda de confiança no sistema multilateral. Ao mesmo tempo, cresce a pressão por uma primeira mulher à frente da ONU e por maior representatividade das regiões menos presentes nas estruturas de topo.
António Guterres, no cargo desde janeiro de 2017, prepara-se para concluir o segundo mandato no final de 2026, deixando como legado a defesa da paz, da dignidade humana e do reforço da cooperação internacional. A corrida para o seu sucessor promete tornar-se uma das mais disputadas de sempre.

